True Crime: Entenda por que obras de crimes reais fazem tanto sucesso

Tiago Minervino  - 19 de outubro 2021 ás 12h00

Por muito tempo, produtos ficcionais tendo como pano de fundo histórias reais fizeram sucesso tanto na TV quanto no cinema — sobretudo no gênero terror. O acervo cinematográfico está repleto de produções que atraíram milhões de espectadores às salas de exibição, tendo como ingrediente extra a famosa frase: “baseado em fatos reais”. Nos últimos anos, porém, tem crescido consideravelmente, principalmente nas plataformas de streaming, séries, filmes e documentários que contam histórias reais de crimes que chocaram a população de seus países, e, em alguns casos, o mundo. É o gênero true crime, ou “crime verdadeiro“, em tradução livre.

O true crime se diferencia de filmes, séries e livros baseados em histórias reais porque a intenção é outra. Em vez de criar um produto novo a partir de algo que de fato aconteceu, esse gênero buscar permear os detalhes do crime, como foram feitas as investigações desde o início até a sua conclusão, expor eventuais falhas do judiciário e excessos por parte da mídia em suas coberturas, sendo o mais fiel possível. O fato é que, ocorridos em épocas diferentes, situações diferentes e motivados por razões diversas, o que todos esses casos hediondos têm em comum são a brutalidade, a superexposição na mídia, o anseio da população por uma conclusão e a punição dos criminosos.

De forma mais recorrente, o true crime sempre esteve presente em produções internacionais, sobretudo nos Estados Unidos. No entanto, retratar esses crimes em um produto audiovisual é caro e uma resposta positiva do público é uma incerteza que, talvez, não compense os gastos na casa dos milhões de reais. Essa perspectiva passou por uma guinada, especialmente no Brasil, graças ao sucesso dos podcasts retratando alguns crimes reais que chocaram o país, e ao perceberem o desejo do público por esse tipo de conteúdo, cresceu também o investimento das empresas de comunicação em projetos para retratar essas histórias.

Reprodução/Amazon Prime Video

Para entender melhor o apelo do true crime entre o público, o Pitinews conversou com o psicólogo e professor da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo) e do UNASP (Centro Universitário Adventista de São Paulo), Thiago Cardoso. Segundo ele, o sucesso da temática do assassinato e da “violência perversa, representada e reeditada através das mídias, desperta uma dimensão atávica na nossa psique que é a fantasia de liberdade total dos impulsos agressivos que essas figuras sinistras e misteriosas representam”.

De acordo com Cardoso, “o assassino perverso é a representação de toda ruptura com a ordem moral e social”. “O assassino encarna não somente a maldade dissimulada em nós, como simboliza um desejo autêntico e ilimitado de poder sobre a vida, a sua própria e a do outro, que lhe toma como sua vítima”, nos diz.

Os traços sádicos-narcisistas desses assassinos revelam que a maldade tem um elemento sedutor, ou seja, ao mesmo tempo ameaça e atrai. Essas produções levam em variados graus o espectador a um estado misto de angústia diante do abominável e de prazer na realização de um impulso mórbido, que tem por resultado esquecer a dor no limite em que ela se mostra.

Em meio a essa leva de produções de true crime, estreou recentemente no Amazon Prime Video os filmes A Menina Que Matou os Pais e O Menino Que Matou Meus Pais, que retrata o assassinato do engenheiro Manfred e a psiquiatra Marísia, mortos a pauladas pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos. O crime foi arquitetado e encomendado pela filha das vítimas, Suzane von Richthofen, que à época namorava Daniel.

O caso aconteceu 31 de outubro de 2002 e, inicialmente, a Polícia Militar de São Paulo registrou o ocorrido como latrocínio, que é o roubo seguido de morte. Posteriormente, os investigadores começaram a suspeitar de Suzane e dos irmãos Cravinhos. Em 8 de novembro, os três confessaram o assassinato.

O julgamento aconteceu em 2006. Suzane e Daniel foram condenados a 39 anos de reclusão e 6 meses de detenção. Cristian, por sua vez, foi sentenciado a 38 anos de reclusão e 6 meses de detenção. O filme do Amazon Prime Video é centrado no depoimento contraditório do ex-casal de namorados, que acabou levando os dois à prisão.

Abaixo, o Pitinews preparou uma lista com alguns produtos de true crime que têm feito sucesso no Brasil. Confira:

Em Nome de Deus

Onde assistir: GloboPlay

Um dos líderes espirituais mais famoso do Brasil, a história do médium João de Deus é retratada no documentário Em Nome de Deus, que mostra como o religioso foi de uma referência nacional a acusado de abusar sexualmente de mais de 300 mulheres.

A série documental mostra a investigação que durou 18 meses, responsável por revelar os crimes e sua rede de proteção. Ele foi condenado a 63 anos de prisão por crimes sexuais e porte ilegal de arma de fogo. A história do médium também serviu de inspiração para uma série produzida pela Netflix, João de Deus: Cura e Crime.

O Caso Evandro

Onde assistir: GloboPlay

Um dos maiores sucesso do streaming brasileiro no ano, O Caso Evandro retrata o desaparecimento do menino Evandro Ramos Caetano, de Guaratuba, no litoral do Paraná, em 1992. A vítima tinha seis anos quando foi brutalmente assassinada. À época, duas mulheres inocentes foram parar na prisão acusadas de bruxaria.

A história voltou à tona no podcast homônimo, comandado por Ivan Mizanzuk, que, após uma apuração jornalística bastante minuciosa, encontrou uma fita que revela que as acusadas de matar o garoto, Celina Abagge e Beatriz Abagge, foram torturadas pela polícia para confessar o crime. A série documental do GloboPlay teve grande repercussão nacional, com bastantes menções nas redes sociais.

Eliza Matsunaga: Era Uma Vez Um Crime

Onde assistir: Netflix

Em 2016, Elize Matsunaga foi condenada a 19 anos e 11 meses de prisão pela morte e esquartejamento do marido, o empresário Marcos Matsunaga. O caso aconteceu em maio de 2012, em São Paulo, e chocou o país. Anos depois do ocorrido, ela falou com exclusividade à Netflix para a série documental Era Uma Vez Um Crime.

O Desaparecimento de Madeleine McCann

Onde assistir: Netflix

Um dos casos mais emblemáticos com repercussão internacional, o desaparecimento da garota Madeleine McCann em 2007, durante uma viagem de férias com a família em Portugal, intriga o mundo ainda hoje. O documentário disponível na Netflix mostra detalhes da investigação para encontrar a garota que continua desaparecida.

Mamãe Morta e Querida

Onde assistir: HBO Max

A produção é centrada na emblemática história de uma mãe e filha, Dee Dee e Gipsy Rose Blanchard, respectivamente. A filha era vítima de abuso infantil por parte da mãe, que inventou que a jovem tinha vários problemas de saúde e, por isso, precisava de cuidados constantes. A história muda quando Gipsy descobre que nunca esteve doente e, junto com o namorado, arquiteta um plano para matar a mãe e fugirem juntos em seguida.

O Caso de Gabriel Fernandez

Onde assistir: Netflix

A morte brutal do garoto Gabriel Fernandez, de 8 anos, assassinado em 2013 pela própria mãe Pearl Fernandez, e seu namorado, Isauro Aguirre, é retratada no documentário da Netflix, que traz um relato chocante sobre como o garoto latino-americano, que morava em Palmdale, em Los Angeles, nos Estados Unidos, foi torturado, além de se debruçar sobre as falhas do sistema de segurança norte-americano que não evitou o desfecho trágico.

Ted Bundy: Apaixonada por um Assassino

Onde assistir: Amazon Prime Video

Um dos assassinos mais famosos dos Estados Unidos, a história do criminoso Ted Bundy foi recontada no documentário Ted Bundy: Apaixonada por um Assassino, do Amazon Prime Video, que traz relatos de Elizabeth Kendall, sua filha Molly, e outras sobreviventes que falam pela primeira vez sobre os crimes do serial killer.

Durante os anos 1970, Ted foi responsável por sequestrar, estuprar e matar cerca de 30 mulheres em sete estados dos EUA. O número de vítima foi confessado pelo próprio criminoso, mas a quantidade pode ser maior. A história do assassino também é contada no documentário Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, da Netflix.

Os Cinco do Central Park / Olhos Que Condenam

Onde assistir: GloboPlay e Netflix, respectivamente

Ambas as séries documentais contam a história do assalto e estupro de uma mulher branca de 28 anos no Central Park, em Nova York, em abril de 1989. Pelo crime, cinco jovens negros ou latinos do Harlem, Manhattan, entre 14 e 16 anos, foram acusados e condenados. No entanto, todos os cinco são inocentes.

Mesmo inocentes e com as provas mostrando isso, eles foram condenados e cumpriram penas de seis a treze anos de prisão. Posteriormente, o verdadeiro autor do crime confessou ter estuprado a vítima. Em 2014, os jovens presos injustamente receberam indenização de US$ 41 milhões. As séries sobre o caso abrem uma discussão sobre o sistema criminal e prisional dos EUA permeados pelo racismo estrutural.