Sem espaço para o machismo: ser nerd também é coisa de mulher

Tiago Minervino  - 14 de setembro 2021 ás 16h00

O que é ser nerd? Por muito tempo essa pergunta esteve atrelada a estereótipos pré-definidos. Uma espécie de adjetivo para caracterizar pessoas muito estudiosas, fãs de videogames, ficção científica, cosplay e histórias em quadrinhos. Do mesmo modo, o termo “nerd/geek” era utilizado de forma jocosa para se referir ao nerds como sendo pessoas introspectivas, pouco preocupadas com a aparência física e, não raro, sinônimo para pessoas com dificuldades de relacionamento.

Pois bem, o tempo passou e, pasmem, ser nerd agora é “cool”. As adaptações a partir das HQs dominaram os cinemas e o streaming. O mercado de games é um dos mais lucrativos do entretenimento em todo o planeta. Ser nerd é mainstream, parte significativa da cultura pop.

Em meio a essas mudanças positivas é curioso, no entanto, notar que um grupo que por muito tempo foi marginalizado e estereotipado tenha relutância em se abrir para a diversidade, ceder espaços para a pluralidade e permaneça um ambiente tóxico e machista — isso para não falar no racismo, homofobia e transfobia.

Reprodução/Sony Interactive Entertainment

Apesar dos avanços alcançados pelas mulheres graças aos movimentos feministas, ainda vivemos em uma sociedade patriarcal, e o meio geek não foge a essa regra, por ser predominantemente masculino e pouco receptivo às mudanças necessárias. Embora pareça surreal pensar nisso hoje em dia, ainda há muitos nerds que pensam que mulheres não podem jogar videogame; que os espaços nos quais esse grupo ocupa estão restritos àqueles que pertencem ao gênero masculino — e aqui, vale ressaltar, é preciso ser cis, pois também não há espaço para transgêneros.

Conforme já exposto aqui no Pitinews, apesar de ser uma indústria cada vez mais lucrativa e em expansão, o mercado de jogos eletrônicos ainda hesita em dar espaço à diversidade. É verdade que avanços têm sido feitos, mas em meio a esse cenário permeado por empecilhos, vale a reflexão: ser nerd é só para homem?

Obviamente, a resposta para essa pergunta é um sonoro NÃO! Mesmo assim, é importante parar para analisar o porquê da construção dessa mentalidade. E a resposta para que esse questionamento está no patriarcado.

Por muito tempo, as mulheres foram relegadas aos serviços do lar, sem terem acesso, inclusive, ao ensino. Logo, com produtos como HQs e videogames pensados para o público masculino, não é por acaso que a maioria esmagadora dos principais super-heróis das histórias em quadrinhos sejam homens — o mesmo vale para os personagens dos jogos eletrônicos.

As adaptações do Universo Cinematográfico Marvel trouxeram luz para o fato de que a editora não possui personagens femininas em suas histórias com o mesmo destaque que os heróis, embora esteja caminhando para ceder maior espaço para elas. Natasha Romanoff, a Viúva Negra, interpretada por Scarlett Johansson, é uma personagem secundária que, embora importante, não é protagonista. A espiã, aliás, só conseguiu um filme solo anos depois de ser introduzida no MCU e após sua morte em Vingadores: Ultimato (2019).

Rara exceção, a Capitã Marvel (Brie Larson) ganhou um filme individual e um segundo está a caminho, além de ter feito participação no último longa dos Vingadores. Recentemente, a Marvel também concedeu destaque para Wanda (Elizabeth Olsen), personagem que terá papel central na Fase 4 do MCU.

Divulgação/Marvel

A Mulher-Maravilha, da DC Comics, é uma rara surpresa dado que se trata de um dos principais produtos da editora desde sua criação, nos anos 1940 — nos cinemas, ela é interpretada por Gal Gadot. Entretanto, a heroína não conseguiu escapar de ser hiperssexualizada. Enquanto Batman e Flash, por exemplo, escondem cada centímetro de seus corpos em seus uniformes, a Princesa das Amazonas usa uma roupa que evidencia suas pernas e seios.

Logo, ao olhar em retrospecto, não é de se estranhar o porquê de ser nerd sempre ter sido considerado algo só para homens. Porém, é inaceitável que os geeks de hoje permaneçam parados no tempo e não acompanhem os avanços da sociedade. Não há mais distinção de gênero: homens e mulheres podem e devem ocupar os mesmos espaços e fazerem as mesmas coisas, se assim desejarem.

Para auxiliar nesse processo de mudança de pensamento e, principalmente, para encorajar outras mulheres a assumirem suas paixões pelo universo nerd/geek, surgiram projetos importantes nas redes sociais, a exemplo do coletivo Minas Nerds,no Instagram, e a disponibilização de e-books do selo “Universo Descontruído”, com conteúdo de ficção científica feminista. Além disso, podcasts como o AntiCast e XPoilers Podcast servem para ajudar a superar essas barreiras.

Reprodução/Momentum Saga

E para você que continua achando que ser nerd é só para homem, dados de 2018 do Ibope Conecta mostraram que 38% do público nerd no Brasil é composto por mulheres e que esse número está em constante crescimento. Além disso, a oitava edição da Pesquisa Game Brasil 2021 apontou que 51% dos gamers no país são mulheres.

Mudanças também têm ocorrido no mercado: a Blizzard Entertainment, uma das principais desenvolvedoras de jogos do mundo, demitiu três colaboradores de seu quadro de funcionários que lideram os títulos Diablo 4 e World of Warcraft, em meio a denúncias de assédio sexual dentro da empresa — na mesma esteira desse ambiente tóxico para mulheres, o então presidente da companhia, Allen Brack, pediu demissão e não faz mais parte da marca.

Conforme salientado acima, a Marvel não é famosa por personagens femininas poderosas. Para reverter isso, o estúdio, fazendo valer o lema de que “representatividade importa”, vai introduzir novas heroínas em Os Eternos ao mudar o sexo de três personagens masculinos nas HQs, que serão femininas na produção live-action: Ajak, interpretada por Salma Hayek, Makkari, vivida por Lauren Ridloff, e Sprite, papel a cargo da atriz Lia McHugh.

Reprodução/Marvel

Portanto, se no passado a luta dos nerds era para se livrar de estereótipos preconceituosos, é imperativo que hoje os homens aprendam a respeitar os espaços das mulheres e entendam, de uma vez por todas, que ser nerd é coisa de mulher tanto quanto é coisa de homem.