Robin Williams: vida e obra do talentoso e arrebatador furacão

Denis Le Senechal Klimiuc  - 31 de março 2022 ás 12h00

De olhar doce e lábios finos, aquela figura de nariz comprido dominou o cenário da cultura pop durante as décadas de 1980 e 1990. Apesar de sua silhueta, Robin Williams era dotado de personalidade tão forte e imponente que sua simples presença contradizia a doçura de seus olhos.

Sim, Robin Williams era essa metamorfose ambulante, pois não estava apto a ter a velha opinião formada sobre tudo. Ele trazia um ritmo acelerado, e conseguia se desvencilhar de quaisquer estereótipos físicos através de seu talento incomparável para a comédia.

Por isso, nada mais justo do que homenageá-lo ao trazer um apanhado de sua vida e de sua obra, que se misturavam tantas vezes, justamente porque ele não sabia onde ficava o botão de “Desliga” de seu cérebro, algo que levou consigo até o fim.

Robin Williams: vida e obra do talentoso e arrebatador furacão
Reprodução/Disney

A verborragia de Robin Williams e sua luta diária contra a dependência química

Robin Williams foi encontrado morto em sua casa em 11 de agosto de 2014, e a causa é o que mais espanta o fã menos atento: suicídio. Porém, como os mais próximos atestaram, o ator sofria com depressão e dependência química havia décadas, e há boatos de que estava entrando em um caminho sem volta: começava a sofrer de demência.

Desde o início de sua carreira, Robin lidou com a cocaína e com o álcool de forma tão constante quanto a fúria de sua verborragia. E o fato de ser notadamente reconhecido por sua lealdade aos amigos fez com que, muitas vezes, salvasse e fosse salvo de seus vícios. Algo que, infelizmente, o levou a testemunhar a morte de John Belushi, ator que faleceu em decorrência de overdose.

Assim, o que se traduzia em uma força descomunal para criar personagens icônicos fez com que sua vida fora das telas fosse conturbada, ainda que estruturalmente feliz: Robin foi casado, teve filhos e construiu uma família dentro do que acreditava. Em paralelo, precisava lutar diariamente contra as forças que o puxavam para baixo, algo que lidou com a espada da atuação e o escudo da comédia.

Portanto, hoje um olhar mais atento sobre a vida do lendário gênio da comédia é, também, uma análise sobre os perigos que a carreira lhe proporcionou – as facilidades, a libertinagem, a ausência de limites. Contudo, se tem algo que o manteve na linha, durante suas décadas de carreira, foram suas amizades.

Robin Williams: vida e obra do talentoso e arrebatador furacão
Reprodução/Tristar Pictures

A gloriosa ascensão como maior astro da comédia em Hollywood

Quando presenciou a morte de John Belushi, em 1982, Robin Williams precisou de todo o apoio que poderia contar para lidar com aquela perda. Assim, nomes como Christopher Reeve, Whoopi Goldberg e Billy Crystal vêm à mente como os grandes amigos que Robin carregou por tantos anos.

Reeve, quando sofreu o acidente que o deixou tetraplégico, contou com o talento de Williams para animá-lo, sendo, como mais tarde reconheceu, a única pessoa a conseguir tirá-lo da depressão e, em consequência, de pensamentos suicidas. Por sua vez, Whoopi e Billy formavam, com Robin, um trio de talentosos comediantes que dançavam, cantavam e faziam uma geração inteira rir.

Aliás, foi justamente na década de 1980 que a carreira de Robin decolou. Pois, até então, havia feito algumas participações em filmes, e, é claro, dominava o stand up como ninguém – naquele palco, não sentia limitação nenhuma, o que fazia com que conseguisse alcançar o máximo do que amava em sua arte: o improviso.

Mas o cinema encontrou um ícone, e Robin Williams começou a ganhar destaque, filme após filme, conseguindo conquistar a façanha de abraçar personagens icônicos pela comédia e pelo drama, sendo um importante disseminador da vertente “dramédia”: para começar, Popeye (1980), passando por Bom Dia, Vietnã (1987) e Sociedade dos Poetas Mortos (1989).

Na década seguinte, não só o sucesso de crítica e de público, como o reconhecimento do Oscar. Eis a filmografia de Robin nos anos 1990: Tempo de Despertar (1990), Hook: A Volta do Capitão Gancho (1991), Aladdin (1992), Uma Babá Quase Perfeita (1993), Jumanji (1995), A Gaiola das Loucas (1996), Jack (1996), Gênio Indomável (1997), Amor Além da Vida (1998), Patch Adams: O Amor é Contagioso (1998) e O Homem Bicentenário (1999).

Com isso, desassociar o ator de seus personagens é tarefa impossível, tendo em vista a quantidade de papéis fundamentais, que marcaram diferentes gerações, e que estão até hoje como grandes ícones da cultura pop – os anos 1990 foram de Robin, e ele pode comprovar sua luta diária contra seus vícios quando levou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, algo que provou a ele mesmo, segundo sua biografia, o quanto poderia ser levado a sério.

Pois, sim, muitos atores comediantes são relegados a caricaturas, algo muito similar ao que Jim Carrey passa em sua carreira desde sempre, e que torna tudo uma tremenda injustiça. Infelizmente, existe um preconceito que relega a comédia como segundo escalão de atuação.

Robin Williams: vida e obra do talentoso e arrebatador furacão
Reprodução/Fox

A consequência de uma carreira repleta de êxitos

Após duas décadas recheadas de sucessos comerciais e de crítica, Robin Williams pareceu entrar em uma onda nostálgica dentro de sua própria carreira. Assim, a partir do início dos anos 2000, passou a interpretar duas vertentes extremas de personagens: os de dramas intensos e fortes, e os de pequenas participações cômicas, como uma homenagem a si mesmo.

Com isso, a dificuldade por novos papéis marcantes começou a dominar seu dia a dia e, ainda que continuasse a ser o mesmo ícone das décadas anteriores, Robin encontrou uma queda vertiginosa de papéis importantes, o que torna a vida de qualquer ator um desafio constante para lidar com seu lugar ao sol.

Aliás, o envelhecimento foi uma facada e tanto para Robin, pois, enquanto dominava suas performances com a fisicalidade típica de sua persona, ele conquistava a audiência, onde quer que estivesse. Por sua vez, a consequência de tantos papéis bons em meio às conturbações de sua vida pessoal trouxe um enorme desafio: Robin Williams precisava se reinventar.

Reprodução/Sony Pictures

O legado de Robin Williams e tudo o que ele significa

Poucas semanas após sua morte, Robin Williams foi homenageado pelo programa matinal de Whoopi Goldberg, que trouxe o também grande amigo, Billy Crystal, para conversar sobre as reminiscências do ícone que acabara de partir. Ali, há um resumo muito justo do que o talento daquele ator representou: ele inovou, trouxe frescor ao cinema, à TV e às engessadas premiações das quais participou. Cada entrevista era uma cartada de gags em uma fúria cômica sem limitações.

Naquele programa, que contou com dois amigos bastante emocionados, Robin Williams ganhou uma estrela a mais: além de tudo o que representava, ele era, também, o responsável por deixar marcas positivas em uma indústria tão sistematizada. Afinal, quando deu voz ao Gênio da Lâmpada, foram mais de doze horas de gravações com improvisos do ator – sim, doze horas!

Portanto, o legado deixado por esse homem de silhueta franzina, lábios finos e olhar doce é muito mais do que qualquer fisicalidade pode expressar: ali viveu uma alma de enorme generosidade artística, e seus personagens permanecessem no imaginário geek e pop como poucos conseguiram fazer. Eis uma lenda que teve muito a dizer.