Oscar 2021: afinal, que diferença fez esta edição?

Denis Le Senechal Klimiuc  - 06 de maio 2021 ás 20h26

Quem diria que, em meio a uma pandemia de escala inédita no último século, o mundo continuaria reverenciando uma premiação de cinema como o Oscar.

Em sua 93ª edição, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood premiou, no dia 25 de abril, os eleitos melhores do ano por seus mais de 9 mil membros, em 23 categorias.

E, em um cenário diferente, na Union Station, tradicional estação de trem de Los Angeles, o até então requisitado Dolby Theatre permaneceu vazio, ainda que parte do cenário desta premiação.

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A influência do coronavírus na mudança de data do Oscar

Contudo, uma das grandes mudanças foi justamente a alteração de data, algo que os produtores da premiação imaginaram fazer diferença diante do cenário da pandemia.

Assim, pela quarta vez na história, o Oscar aconteceu alguns meses à frente do que costumava ocorrer. As outras três vezes envolveram uma inundação em Los Angeles (1938), o assassinato de Marting Luther King (1968) e a tentativa de assassinato de Ronald Reagan (1981).

Por isso, em tempos de mudanças e de crise mundial, qual é a verdadeira importância de um prêmio como o Oscar? E que diferença ele faz em um momento como o atual cenário político e social do mundo inteiro?

Como a Academia de Hollywood conseguiu realizar o Oscar 2021?

O Oscar 2021 seguiu os protocolos e, desta vez, eles não envolveram o uso de colheres de prata para a sobremesa, ou a champanhe mais cara.

De acordo com o especificado em Los Angeles, e dentro do atual cenário de vacinação dos Estados Unidos, as celebridades, equipe de produção e demais participantes foram testados inúmeras vezes, e alguns já estavam vacinados.

Aliás, uma das maiores curiosidades para eles conseguirem realizar a cerimônia com certa confiança de que o vírus não estaria presente foi um localizador, de uso obrigatório a todos os participantes por dias antes do Oscar acontecer.

Isso permitiu, teoricamente, que os participantes da cerimônia evitassem aglomerações desnecessárias. Contudo, por vias de curiosidade, Steven Soderbergh foi um dos produtores de 2021 – ele é o diretor de Contágio (2011), filme que retrata uma suposta pandemia no mundo, iniciada na China, por conta de um morcego e um porco. Coincidência?

O cenário do Oscar 2021 e a tentativa de tornar a premiação mais pop

Seja como for, o Oscar 2021 aconteceu e, com ambientes diversos e acompanhados por uma equipe de produção, seja na Union Station, ou em outras localidades dos Estados Unidos, ou até mesmo em outros países, como Coreia do Sul, França, Inglaterra e Itália, tudo foi milimetricamente planejado.

E deu certo. Assim, com a ausência de máscaras, acomodados em mesas e com certo distanciamento, ali estava a maioria dos indicados aos prêmios.

Com a intenção de humanizar a cerimônia e torná-la mais próxima à linha narrativa de um filme, ao invés da engessada tradição de outros anos, as câmeras acompanhavam cada apresentador, rotativo, e dos indicados, que tinham suas histórias contadas antes de cada prêmio anunciado.

O resultado, portanto, foi um prêmio mais leve, mas que pode ter deixado, para muitos, a dúvida do quanto ele realmente foi necessário.

Os ganhadores do Oscar 2021 fizeram história em 93 edições da premiação

Em tempos de pandemia, então, o Oscar não contou com uma orquestra, e sim com o renomado DJ Questlove. Para quem não o conhece, ele acompanha a banda do programa do Jimmy Fallon, o Tonight Show.

Com isso, o prêmio também se adaptou a uma produção musical mais dinâmica, além de não interromper os discursos, o que surtiu efeitos positivos, em algum caso.

A exemplo disso, como esquecer o discurso de Yuh-Jung Youn, que levou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Minari – Em Busca da Felicidade (2020), ao flertar com Brad Pitt e lembrar que, por insistência dos filhos, que pediram que ela voltasse a trabalhar, ali estava o resultado de seu esforço.

Por outro lado, a interpretação magnética de Daniel Kaluuya rendeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante a ele, por Judas e o Messias Negro (2020). Mas seu discurso, que começou belíssimo, contou com a chacota do seguinte improviso: “Amo estar vivo. Minha mãe e meu pai transaram e, por isso, estou aqui, celebrando a vida.”

Afinal, que diferença fez o Oscar 2021?
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Os prêmios do Oscar 2021 que trouxeram temas atuais e necessários

Mas, além de alguns discursos, o que mais chamou a atenção do Oscar 2021 foi a sua diversidade – talvez a cerimônia mais diversa em 93 edições, o que soa absurdo e, ainda assim, como uma fresta de esperança.

Desta forma, a Academia premiou de forma justa e, ainda assim, diversa, o que soa como consequência das mudanças que finalmente estão acontecendo na indústria cinematográfica dos Estados Unidos, a mandachuva do segmento em todo o mundo.

Assim, Dois Estranhos (2020) levou o prêmio de Melhor Curta-Metragem, e sua história, que traz a tonalidade alarmante e atualíssima do que aconteceu a George Floyd, chegou em hora essencial.

Aliás, vale lembrar que A Voz Suprema do Blues (2020) foi premiado por Melhor Figurino e, também, por Melhor Cabelo e Maquiagem – neste caso, as vencedoras foram as primeiras mulheres negras a levar o prêmio em 93 edições.

Além dos discursos, os prêmios trouxeram o valor da diversidade

Aliás, vale ressaltar os acontecimentos que ocorreram na premiação de 2021 e lembrar o leitor de que certas coisas só acontecerem agora é uma faca de dois gumes: a esperança de mudanças acontecerem na indústria cinematográfica, e o absurdo de isso ocorrer tão poucas vezes.

Então, quando Emerald Fennell venceu na categoria de Melhor Roteiro Original por seu Bela Vingança (2020), um sopro refrescante tomou conta da premiação, tendo em vista este ser um filme necessário e atualíssimo também.

Para fechar o conjunto de mudanças em prol da diversidade da Academia, vale ressaltar que Chloé Zhao é apenas a segunda mulher a levar o prêmio de Melhor Direção, e a primeira não-branca a conseguir isso.

Aliás, ela também venceu por ser a produtora de seu filme, Nomadland (2020), assim como Frances McDormand, que levou este e o prêmio de Melhor Atriz, sendo a terceira estatueta e a segunda mulher mais premiada na categoria em 93 edições.

Viu? Evidenciar a quantidade de edições do Oscar tem dois pesos e duas medidas: como premiação relevante, é ótimo acompanhar as mudanças; como premiação influente, é absurdo isso só acontecer agora.

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Em um mundo ideal, o Oscar 2021 representa mudanças em toda a cultura pop

Mas, se tem algo que o Oscar 2021 fez, além de divertir o espectador com o rebolado de Glenn Close no ano que marca sua 8ª derrota, é a consequência que a premiação traz.

Pois, de uma forma ou de outra, querendo ou não, esta é a premiação mais influente da indústria cinematográfica global, e o que acontece aqui se reflete em outros países e até mesmo em outras mídias.

Por isso, o Oscar 2021 fez diferença, sim, ainda que de forma curiosamente presencial, por entregar o início de resultados esperados com os movimentos #metoo, #timesup, #oscarsowhite e #blacklivesmatter.

Afinal, que diferença fez o Oscar 2021?
Fonte: Reprodução

Como a emoção tomou conta de uma premiação sobretudo morna

Diversos discursos emocionaram, como o de Thomas Vinterberg, que representou a Dinamarca e seu agora oscarizado Druk – Mais Uma Rodada (2020), que perdeu a filha em um acidente de carro quatro dias antes das filmagens do filme iniciarem – seria o primeiro papel dela.

Ou, em outro caso, quando Angela Basset apresentou o clássico momento “In Memorian”, trazendo um vídeo com os representantes do cinema que faleceram em 2020.

Portanto, a emoção estava ali, e o efeito sobre o espectador e sobre a indústria foi instantâneo, pois, se por um lado as críticas trouxeram palavras amargas sobre o formato adotado, por outro poucos vencedores foram questionados.

E, vale lembrar, a influência do Oscar é tanta que, quando Pantera Negra (2018) foi indicado como Melhor Filme, as produções que vieram depois trouxeram mudanças firmes.

Pois, com protagonismo negro justamente em um filme de super-herói que se passa em um país fictício da África, o sucesso estrondoso de bilheteria também ganharia o selo de aprovação da Academia.

E, seja em tempos de pandemia ou não, esse selo ainda é forte o suficiente para fazer a diferença. E que venha a diversidade no cinema e no Oscar! O mundo precisa disso mais do que nunca.

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