O sucesso de The Office na pandemia e o que isso significa

Denis Le Senechal Klimiuc  - 08 de fevereiro 2022 ás 17h26

O que uma série que simula a criação de um documentário que acompanha o dia a dia de um escritório tem a dizer? Se contar com The Office, criação de Greg Daniels e Paul Lieberstein e baseada na obra homônima de Rick Gervais, tem assunto para dar e vender.

O seriado, que começou timidamente em 2005, trouxe uma lufada de ar tão fresco às comédias televisivas que hoje, mais de quinze anos após seu início, ainda é um marco pela inovação narrativa. Assim, este seriado, apesar de não ter uma ideia original, pois Gervais já havia feito sua versão na Inglaterra, trouxe algo que vai além da desculpa da câmera na mão e personagens dando depoimentos de seu dia a dia na empresa: trouxe um elenco talentoso.

Então, desde seu início, e apesar de hoje ser possível encontrar no YouTube os testes para os respectivos personagens, é impossível imaginar outra composição do que os excelentes Steve Carell, Rainn Wilson, John Krasinski e Jenna Fischer, entre outros que marcaram o elenco durante seus nove anos no ar.

O sucesso de The Office durante a pandemia e o que isso significa
Reprodução/NBC

A linguagem diz tudo: The Office conquistou por ser diferente

O sucesso da versão americana de The Office (2005 – 2013) trouxe um questionamento acerca do quanto a vida como ela é pode gerar conteúdo cômico. Bom, pelo resultado aqui apresentado, há material o suficiente para tornar o espectador fã de carteirinha logo nos primeiros episódios. Aliás, sempre de curta duração, a dinâmica deste seriado é uma de suas melhores qualidades, o que se combina aos roteiros quase sempre ágeis e com assuntos bem atuais.

Pois, enquanto o mundo entrou em uma pandemia e passou a precisar se reinventar, em pleno ano de 2020, eis que a nostalgia entra em cena e faz com que o espectador busque por distração em comédias já estabelecidas. Afinal, muita gente passou a consumir o velho justamente por não encontrar parâmetro nas produções atuais que não precisem de uma pesquisa prévia. Ou seja, a grande maioria optou pelo velho, porém confiável.

Mas, ao contrário da onda de pura nostalgia, The Office se mostrou assertiva na hora certa, e a redundância aqui é proposital. Pois, além de apresentar excelente material cômico, o seriado trouxe as nuances do dia a dia de um escritório, a saudosa Dunder Mifflin, e tudo o que ela representa para o público em geral, mas sobretudo o norte-americano.

Assim, as situações cômicas e muitas vezes nonsense entraram como distração perfeita para o momento tenso de isolamento social. Afinal, mesmo que todo mundo saiba que um escritório não é tão sem noção assim, é claro que muitos momentos beiram o que acontece no seriado, e este apenas permite que a falta de limites ganhe espaço em tela. Portanto, neste pseudodocumentário, o espectador se sente no trabalho, ou naquilo que ele idealizou como ambiente profissional enquanto estava em casa.

Não é à toa, portanto, que The Office tenha sido o seriado mais assistido nos Estados Unidos em 2020.

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A câmera na mão e a espontaneidade de situações naturais e hilárias

Através de sua linguagem, aparentemente espontânea e sempre pautada em situações do dia a dia, algo que mistura a crônica de Woody Allen às piadas do Monty Python, The Office conquistou o púbico, em sua época e agora, porque não esconde a origem escrachada, agarrando-a com unhas e dentes para, então, criar empatia com seu espectador. E como isso funciona!

Com uma montagem sempre ágil, a fotografia é sempre aquela que torna o escritório e seus arredores, em 99% das cenas, como algo típico do dia a dia de qualquer norte-americano. No Brasil, então, quem está acostumado a consumir o conteúdo de Hollywood com certeza comprará a ideia, e passará a observar sua própria empresa e colegas de trabalho na pele de pessoas como Angela (Angela Kinsey), Kelly (Mindy Kaling), Kevin (Brian Baumgartner), Oscar (Oscar Nunez), Phyllis (Phyllis Smith), Meredith (Kate Flannery) e Stanley (Leslie David Baker), entre outros.

O comportamento no mercado de trabalho, aliás, fez com que a fagulha de válvula de escape contida em cada um dos espectadores sobreviventes à pandemia trouxesse memórias hilárias do dia a dia, algo que fica evidente conforme quem assiste ao seriado se identifica com seus personagens. E, em vias de fato, a intransigente e anárquica composição de seu elenco, que muitas vezes se mistura aos personagens, é uma quebra de paradigmas justa: são as personas tipicamente reconhecidas em qualquer ambiente de trabalho.

Desta forma, quem nunca conheceu a senhora de aparência doce que é um furacão no casamento? Ou o senhor que disfarça o trabalho jogando paciência, mas que não aceita nenhuma injustiça? Quem nunca viu alguém com a vida bagunçada fora e dentro do escritório? Ou a jovem fútil que não esconde suas referências da cultura pop? Pois é, mais uma prova de que a força deste seriado é mesmo a empatia.

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Afinal, por que The Office fez tanto sucesso na pandemia?

Com todas as motivações por traz da turma da Dunder Mifflin, nenhum símbolo é melhor do que Michael Scott (Steve Carell) e sua enorme sucessão de tiradas preconceituosamente ingênuas e taxativamente norte-americanas, representando tudo o que o cidadão comum dos Estados Unidos tem, mas desconstruindo estereótipos em cada tentativa de julgamento por parte do espectador. E o talento de Carell, ao longo dos seus sete anos no seriado, é descomunal.

Assim, representando um verdadeiro alívio cômico em tempos de trabalho de casa, isolamento social e preocupação com as tarefas do dia a dia, The Office ressuscitou como uma das melhores pedidas a quem não quer perder o fio da meada, ainda que do Brasil, do que aconteceria em um escritório de qualquer lugar do mundo.

Reprodução/NBC

O legado de The Office e a marca que deixou na cultura pop

Hoje, o legado de The Office é a marca que tantos personagens icônicos deixaram na cultura pop, pois, muito mais do que memes, eles são figuras facilmente encontradas na sua empresa ou na de seu vizinho. E a desculpa por ser em um ambiente no qual se vende papel, em pleno século XXI, é mais uma força da premissa de que a união faz a força, algo tão ultrapassado quanto o produto oferecido pela Dunder Mifflin, mesmo que ambos sejam necessários no dia a dia de qualquer negócio.

Portanto, The Office é, sim, um marco para a cultura pop, pois seu roteiro e seus talentosos atores estão em estado de graça em boa parte dos 201 episódios, o que pode parecer longo para muitos, mas se encaixa muito bem e ainda faz rir. Ou that´s what she said.