O mundo subversivo de Evangelion

Denis Le Senechal Klimiuc  - 18 de agosto 2021 ás 17h00

Você sabe qual é a essência de um anime? O gênero, que é nascido, criado e projetado pelo Japão, começou a ganhar espaço após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando a cultura (sempre ela) ajudou a salvar o imaginário do país, destroçado pelas consequências da guerra. Então, como essência, o anime tem a função de entreter, mas, se você é fã, sabe que vai muito além disso.

Não é à toa que os anos 1980 e 1990 foram primordiais para a expansão massiva dos animes. O mundo estava sedento por novidades na cultura pop, e a subversão trazida pelo Japão questionava tanto e, ao mesmo tempo, criava afagos tão grandes à imaginação dos jovens daquela época que a mistura ganhou espaço não só em sua terra-natal, como também uma onda que nunca mais saiu do ocidente.

Hoje, felizmente, as consequências dessa globalização toda se estendem aos aspectos culturais, e apreciar um bom anime é regra clara para todo nerd que quer aprender mais com os otakus. Por isso, é fundamental ter em mente, mesmo que de forma resumida, como tudo aconteceu, pois o marco chamado Neon Genesis Evangelion (1995-1996) foi um divisor de água na metade de sua década, e até hoje é referenciado como um dos patamares mais maduros da relação entre o anime, a cultura pop e o restante do mundo.

Criado por Hideaki Anno, que já trabalhou com o mestre insuperável da animação japonesa, Hayao Miyazaki, e que fundou seu próprio estúdio para o que muitos consideram como a oportunidade de contar a própria história, a única temporada disponível de Neon Genesis Evangelion, ou apenas Evangelion para os mais íntimos, conta com episódios curtos, de vinte e poucos minutos, e uma série de rastros que ajudaram a criar seu próprio multiverso quando o termo ainda não era popular.

Fonte: Divulgação/Gainax

Como um universo metafísico, religioso, científico e monstruosamente criativo deu tão certo

Porém, para entender Evangelion, é necessário pensar o seguinte: este é um anime e, como tal, mistura características juvenis de seus personagens aos questionamentos propostos em sua premissa. Ou seja, como parte do imaginário ao redor desse gênero, não há apenas o lado questionador e adulto, assim como não há a infantilização em excesso. E você poderá encontrar isso em diversos animes, mais característicos dentro de suas propostas, mas não é o caso de Evangelion.

O que existe aqui é a proposta de apresentar o mundo adolescente em um cenário definitivamente pós-apocalíptico, e Hideaki Anno faz isso de forma ilimitada. A série foi lançada em 1995, mas sua realidade é a do futuro distópico de 2015, quando o mundo estava completamente destruído e, aos poucos, tentava se reerguer com a tecnologia avançada já existente. Pois o que aconteceu foi o seguinte: houve o Primeiro Impacto, quando metade do planeta morreu, e o Segundo Impacto, quando o que havia tentado se recuperar também foi dizimado.

Assim, quem restou controlava o planeta através de encontros virtuais representados por monolitos (alô, Kubrick), cujas vozes são as dos verdadeiros donos do jogo: os homens mais poderosos do planeta. Com a reunião de todos os países, eles criaram a NERV, empresa responsável pelos tais Evangelions, ou EVAs, como são chamados com tal abreviação seguida de seus respectivos números. Trata-se de robôs gigantes, com o máximo que a tecnologia tem à disposição, os quais precisam ser controlados por mentes límpidas e, portanto, jovens. Para tal, todo adolescente que controlar um EVA precisa conseguir se conectar ao robô-monstro através de seus fluídos, líquidos e, é claro, conexões neurais.

Mas a existência dos EVAs não saiu do nada. Os dois grandes impactos que acabaram com a Terra foram feitos por criaturas gigantescas, de formatos tão diferentes quanto muitas vezes incompreensíveis, o que logo propiciou o apelido de anjos, como uma desculpa de Deus para acabar com a humanidade. Cada Anjo consegue acabar com o planeta, se for deixado, então aqui está uma demonstração tanto do poder em questão quanto da importância de haver Evangelions disponíveis.

Fonte: Reprodução/Gainax

A importância de Hideaki Anno para o introvertido universo de Shinji Ikari

A grande questão de Evangelion é a sua enorme capacidade de questionar a existência humana, abraçando questões filosóficas, metafísicas e religiosas, sem jamais ceder a qualquer indagação. Ao contrário: do formato dos Anjos às consequências que eles trazem, tudo é extremamente ligado ao ciclo de existência da vida, e isso faz com que cada vez mais o espectador seja jogado nessa espiral.

Porém, como se não bastasse a quantidade de questionamentos acerca de tudo o que a humanidade faz para evitar o Terceiro Impacto, e o que está por trás da NERV e da existência de Adão e de Lilith, as bases dos poderes e das tecnologias trazidas à tona, é que o criador da série ainda impõe uma série de questões completamente humanas, e isso é o que torna a série mais acessível.

Não que a complexidade de seus temas afaste o espectador. Mas quando uma obra tão profunda e indagadora quanto Evangelion traz a vertente humana, ela se aproxima muito mais tanto dos sentimentos do espectador quanto às possíveis respostas que Hideaki Anno buscava e, ao mesmo tempo, proporcionava.

Afinal, aqui está uma série cujos personagens centrais são muito bem desenvolvidos, e as consequências que suas vidas têm fazem qualquer pessoa se segurar na beira da poltrona para não entrar em desespero. Ou seja, o cuidado do roteiro é fundamental para criar empatia dentro de toda a subversão.

Fonte: Reprodução/Gainax

Os personagens de Evangelion tornam tudo muito mais especial

Aqui estão os personagens: o protagonista de tudo é Shinji Ikari, jovem de 14 anos completamente introvertido após uma infância sofrida. Ele perdeu sua mãe quanto ainda era muito jovem e seu pai o abandonou enquanto comandava as operações da NERV. Agora, Shinji é convocado para comandar um EVA, e isso faz de sua cabeça um poço de questionamentos e inseguranças, tendo em vista sua relação com o pai e tudo o que não aceitou até hoje, ao mesmo tempo em que sua mente é forte justamente por conta de sua resiliência.

Shinji, por ser muito jovem, vai viver com Misato Katsuragi, sendo esta uma das responsáveis pelas operações dos EVAs em combate aos Anjos. Compenetrada e muito competente, toda vez que Misato toma algo alcoólico, ela se transforma em um poço de simpatia – até o dia seguinte. Considerado uma das crianças salvadoras, Shinji logo se depara com a principal delas, e se apaixona de maneira tão orgânica quanto chocante pelo que a história vai apresentar: Rei Ayanami é a garota que tornou possível as vitórias dos EVAs até então.

Mas, como não poderia deixar de ser, precisa de mais uma peça nesse relacionamento, e a tríade é completada por Asuka Langley Soryu, jovem alemã que vai ao Japão combater os Anjos, e cuja personalidade é tão forte quanto questionável, o que desequilibra completamente o foco de Shinji e até mesmo de Rei.

Fonte: Reprodução/Gainax

Qual é a ordem recomendada do que assistir e o que ignorar

Como é de se esperar, há uma ordem recomendada para assistir a Evangelion e compreender bem a obra de Hideaki Anno: e é impossível não indicar primeiramente a série original, ainda que haja possibilidade de compreender a história sem acompanhá-la. Mas a grande questão é: há um porquê de se assistir a Neon Genesis Evangelion primeiro e o motivo é o embasamento que a série dá ao longo de seus 24 episódios.

Aliás, a primeira e única temporada conta com 26 episódios, mas os dois últimos entram em outra espiral de questões que o próprio Anno tentou reverter, pois os dois últimos episódios, não finalizados, contam com um final bastante polêmico e, digamos, artístico: há diversas cenas ainda em storyboard, o que não atrapalha a atuação dos diversos dubladores, mas entram em conflito com a harmonia dos outros 24 episódios. A dica aqui é: assista a todos eles, ainda que não concorde com o resultado (afinal, Game of Thrones [2011-2019] não inaugurou essa polêmica).

Pronto. Assistir à Neon Genesis Evangelion vai pavimentar todo o caminho. Em seguida, é recomendável assistir ao que Hideaki Anno imaginou como o grande e merecedor final de sua epopeia: Neon Genesis Evangelion – The End of Evangelion (1997), filme que, na verdade, é a junção dos novos episódios 25 e 26. Sim, ele renomeou e refez o final. Mas é fundamental não descartar nada para absorver tanto o que o criador quis fazer quanto o que ele quis esquecer.

Se tiver tempo, assista também a Evangelion: Death (True)² (1998) pequeno filme que é basicamente a recapitulação da série com alguns acréscimos. E aqui acaba o universo proposto na década de 1990.

Porém, ao longo dos anos, o criador, não satisfeito com o que havia feito e refeito, decidiu expandir tudo o que havia proposto e, assim, lançar Evangelion 1.11: Você (Não) Está Só (2007), filme que retrata basicamente os primeiros seis episódios da série original, mas que propõe a continuidade da história seguindo outros caminhos – afinal, a vida é cíclica e, portanto, se repete ao longo da existência, não é mesmo?

Pouco tempo depois, continuou a saga com Evangelion 2.22: Você (Não) Pode Avançar (2009), onde trouxe mais novidades a partir da reformulação da série original através de sua edição. Considerado o mais fraco pelos fãs, mas ainda necessário para a cronologia, está Evangelion 3.33: Você (Não) Pode Recomeçar (2012) e, finalmente, a conclusão de tudo o que Anno apresentou desde 1995, com o espetacular Evangelion: 3.0+1.01 A Esperança (2021).

Fonte: Reprodução/Gainax

O que significam os impactos dessa subversividade de Evangelion?

Com tudo o que foi criado e trazido à tona, Hideaki Anno não é mais apenas um ex-funcionário de Miyazaki. O criador de Evangelion é um dos responsáveis por subverter os valores aos quais a sociedade estava acostumada até então: separar as questões existencialistas das religiosas, que por sua vez eram distanciadas da ciência e da tecnologia. Em sua obra, o criador mistura tudo e a sua lógica faz todo o sentido a partir do momento em que o espectador abraça sua filosofia.

Aliás, filosoficamente, Evangelion é um soco na boca do estômago, pois consegue trazer tantas respostas por segundo que, quando qualquer um assiste a Neon Genesis Evangelion – The End of Evangelion sem ter base o suficiente para tal, é bem provável que a pessoa termine o filme televisivo com bastante vertigem. Portanto, a subversão e os impactos propostos por Anno são trazidos para questionar e, principalmente, para que cada um reflita sobre seu lugar na Terra através da própria existência.

Fonte: Reprodução/Gainax

Como a obra foi tão importante para a história de vida de seu criador?

Qualquer pessoa que tenha tido a oportunidade de assistir aos 26 episódios de Neon Genesis Evangelion vai receber um leve tapa na face com luva de pelica. Há um detalhe, literalmente nos créditos, que faz com que tudo ganhe um sentido ainda mais pessoal e impactante: o significado daquele universo para Hideaki Anno, seu criador.

Ali estão detalhes de sua criação, de suas dificuldades quando criança, adolescência e fase adulta, de suas relações com outras pessoas, de suas descobertas sexuais, e de sua compreensão pessoal do universo, do que é Deus e de como isso influencia sua existência. Portanto, tudo foi fundamental para que ele desenvolvesse a série e os filmes, tanto os remanescentes quanto o novo caminho que criou, apresentando-se em Shinji, mas também em Asuka e em Rei, em Misato e no terrível Gendo.

Se existe uma vertente terapêutica na arte, como muitos dizem, com certeza Hideaki Anno foi e é o gênio por trás de tudo aquilo que respondeu a si mesmo. Por conta disso, muitos adolescentes encontraram suas próprias respostas e seguem firmes lutando contra seus próprios Anjos.

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