LGBTQI+ e o cinema: uma história de longa data

Ana Maria Guidi  - 09 de junho 2021 ás 12h14

Ao longo de décadas o cinema LGBTQI+, também conhecido como cinema queer, foi colocado em segundo plano: custava caro aos diretores assumirem uma pauta tão polemica em seus filmes.

Isso porque a aceitação da sociedade com a presença de LGBTQI+ nas telas é algo extremamente recente (e ainda delicado) — para se ter uma ideia, o primeiro beijo gay exibido em rede nacional foi em 2013, há apenas oito anos, na novela Amor à Vida, da Rede Globo.

Assim, para conhecer um pouco sobre a presença de pessoas LGBTQI+ no mundo do cinema e pensar sobre a importância, preparamos um rápido histórico deste segmento. Mas, para isso, faremos uma breve contextualização de termos.

O que é queer? E LGBTQI+?

O termo queer pode ser bem complicado de entender se formos a fundo no seu significado, uma vez que ele tem origem filosófica. Assim, vamos abordá-lo aqui, em uma perspectiva um pouco mais concreta, mas com seus devidos recortes.

A teoria queer surgiu nos Estados Unidos, nos anos 80, como uma ideia de grupos que contestavam a norma padrão, ou seja, é uma teoria que afirma que as orientações sexuais e identidades de gênero são construções sociais. No passado, o termo era visto como um xingamento, algo pejorativo, mas, a palavra foi resinificada e apoderada como resistência, como um modo de ser.

Queer é todo o individuo que tem uma vida que contesta aquilo considerado padrão: gays, afeminados, lésbicas, pessoas transexuais e transgêneros, entre outros. No Brasil, entretanto, o termo é um pouco mais específico, referindo-se a pessoas que transitam entre gêneros (como drag queens, por exemplo).

LGBTQI+, por sua vez, é uma sigla que abrange um conjunto de grupos, de pessoas queer. Desmembrado, o termo significa G = gays; L = lésbicas; B = bissexuais; T = trans; Q = queer; I = intersexuais; + = outros grupos e variações, como assexuais ou pansexuais.

O termo, considerado a evolução de GLS – Gays, lésbicas e simpatizantes (ate a década de 90) – é uma união de todos aqueles que fogem do padrão heteronormativo, ou seja, que não correspondem ao sexo que foram designados ao nascer, ou as imposições sociais de relacionamento homem e mulher.

História do cinema queer

Definir qual foi o primeiro filme com temática homossexual é uma tarefa um pouco difícil. Isso porque o preconceito e o tabu que se estabeleciam ao redor do assunto fizeram surgir muitas relações cinematográficas que poderiam ser consideradas “homoafetivas”, mas que ao mesmo tempo eram muito sutis para se ter certeza.

É o caso, por exemplo, do filme The Dickson Experimental Sound Film, de William Kennedy-Laurie Dickson, de 1895, que também ficou conhecido como The Gay Brothers, considerado por muitos o primeiro filme com tendências homossexuais.

Cena de The Dickson Experimental Sound Film (Fonte: Reprodução/William Dickson of Edison Laboratories)

O curta, que apresenta dois homens dançando ao som de um violinista, hoje em dia, não representaria nenhuma polêmica, mas, na época, a dança era vista como uma atividade “afetiva” ou ate mesmo sexual. Assim, dois homens que formavam um par tendiam a possuir uma conotação gay.

Essa “dúvida” a respeito das relações LGBTQI+ em filmes – se alguns pares eram ou não românticos – só foi sanada em 1919, com o lançamento do filme alemão Diferente dos Outros, de Richard Oswald, um cineasta polêmico que, em sua carreira, também produziu filmes sobre prostituição, estupro, aborto, entre outros.

O longa conta a história de um violinista que, ao se apaixonar por um aluno, comete suicídio. A obra configurou, no dia de sua primeira exibição, um ambiente hostil e de muitas críticas: na Alemanha de 1919, a “atividade homossexual” era proibida por lei.

Somente em 1933 Hollywood assume sua primeira produção com temática LGBTQI+:  Ló em Sodoma, dirigido por Sibley Watson e baseado na famosa passagem bíblica de Sodoma e Gomorra. O filme, considerado o primeiro norte-americano a abordar o assunto, entretanto, foi uma exceção, uma vez que, entre 1934 e 1968, vigorou nos Estados Unidos o Código Hays, uma censura que zelava pela família e os bons costumes.

Cena de Ló em Sodoma (Fonte: Reprodução)

A partir de então, as relações homossexuais passaram a ser retratadas apenas em tons de deboche e piada: o padrão eram casais compostos por um homem e uma mulher, enquanto gays, lésbicas e travestis eram retratados de forma pejorativa, dignos de exclusão.

Foram as décadas de 60 e 70 nos Estados Unidos que marcaram o início da trajetória de filmes LGBTQI+. Marcado por personalidades como Andy Warhol e Jhon Waters, os filmes, considerados subversivos, ocupavam os circuitos alternativos e eram consumidos, principalmente, pelo público que se reconhecia como gay.

As produções só saíram da bolha de debate nas décadas de 80, com o crescimento da abordagem do assunto e o surgimento do VHS, que permitiu que esses filmes se tornassem mais acessíveis.

Mas foi a década de 90 que o cinema LGBTQI+ se estabeleceu. Filmes como Paris is Burning, um clássico dirigido por Jennie Livingston, capitanearam uma sequência de produções que marcaram época e as gerações seguintes.

Cena do filme Paris is Burning (Fonte: Reprodução/Miramax Films)

O cinema queer, como foi chamado, trancado no armário por muitos anos, estava pronto para ocupar as salas de cinema, disseminando realidades e histórias do público LGBTQI+, que, finalmente, mostrava a cara.

É por causa dessa história e trajetória de luta e resistência que, hoje, podemos sentar no cinema e assistir filmes que retratam essas vidas de forma sincera e respeitosa.