Entrevista | Conversamos com diretor, produtor e elenco de 7 Prisioneiros

Denis Le Senechal Klimiuc  - 22 de novembro 2021 ás 12h00

Em 7 Prisioneiros, o espectador vai mergulhar em uma daquelas histórias potentes, que causam diversas discussões pelo tópico em si, que é a análise profunda das relações humanas, de como o homem busca o poder de forma incessante, e o que ele faz quando consegue. Nesta produção da Netflix, é bem provável que os estômagos mais fracos precisem pausar o longa durante a sessão, mas acredite: ele é dotado de um final ainda mais catártico.

Por isso, ao transformar a história de um rapaz que sai de uma cidadezinha do interior paulista para a sua capital, o cineasta Alexandre Moratto precisou contar com uma dupla de peso: Christian Malheiros, o protagonista desta história, com quem havia trabalhado em Sócrates (2018), e Rodrigo Santoro, encarnando um vilão que facilmente poderia ser transformado em uma caricatura.

Malheiros interpreta Mateus, que acredita ter conseguido um emprego bom o suficiente para manter sua família bem alimentada e protegida, mas o que realmente acontece é o que o aproxima de algo muito além de uma simples disputa de poder: ele passa a ser escravizado, assim os demais rapazes que chegaram junto dele, e o valor dado a suas famílias se torna parte de uma dívida interminável, que precisa ser paga com trabalho.

Já Santoro é Luca, o mandachuva do ferro-velho e responsável por transformar o que poderia ser uma oportunidade em um trabalho escravo. E é a relação entre Mateus e Luca o foco de 7 Prisioneiros, que conta com a produção do indicado ao Oscar Fernando Meirelles. Para saber mais sobre como foi todo o processo, Moratto, Malheiros, Santoro e Meirelles bateram um papo com o Pitinews. Veja como foi:

Reprodução/Netflix

Como a escravização de seres humanos faz parte de algo maior do que a história deste ou daquele país?

Alexandre Moratto: É como se tudo o que estivesse intrínseco ao ser humano envolvesse, ao longo de sua história, a escravidão. Com ela, o mundo se formou e se construiu, e infelizmente ela faz parte de nossa história e está, inclusive, muito bem relatada na Bíblia. É como se fosse algo cíclico, então, vem se perpetuando ao longo do tempo, se adaptando às normas inventadas pela humanidade para continuar existindo, aqui e ali, de uma forma que não chame tanta atenção, mas que não atrapalhe os meios de produção também. Aliás, neste momento esse tanto que supostamente fica escondido possui cerca de 40 milhões de pessoas em situação análoga à escravidão. É muita gente, e agora tudo é feito de forma bastante parecida com o que vemos no filme: as pessoas têm suas famílias ameaçadas, então, acabam aceitando e permanecendo vítimas desse sistema. E, se a gente parar para pensar, o próprio salário-mínimo é uma forma de manter as pessoas devidamente escravizadas ao sistema, porque é um valor irrisório diante das necessidades que qualquer pessoa têm para sobreviver, mas, ainda assim fazem de tudo para recebê-lo, porque pensam que é melhor que nada, e é mesmo.

Fernando, como é a sua visão diante do que este 7 Prisioneiros apresenta ao mundo?

Fernando Meirelles: O Vaticano tinha escravos até o século XVI, então, faz sentido pensar que essa é uma das características mais cruéis da humanidade. Basicamente, é um troço arquetípico, sabe? Está dentro do ser humano escravizar o próximo, seja ele quem for, desde que seja mais fraco. Grandes nações conquistaram suas riquezas dessa forma, muito antes de dizimarem a África. Então, é como se fosse uma instituição, que faz parte da psique: a partir do momento em que você domina um povo, você o escraviza. Porém, com o passar dos séculos, se tornou algo institucionalizado, e a religião trouxe questionamentos morais a essa situação, o que fez com que muita coisa mudasse, mas, se pararmos para pensar, o último país a abolir oficialmente fez isso há menos de um século. E digo oficialmente porque há outras formas de escravizar, como é o que acontece no filme: você paga R$ 10 reais para um cara para fazer um serviço que cobra dele R$ 80, ou seja, ele assume uma dívida eterna e não é mais livre.

Reprodução/Netflix

Christian, por ser o protagonista dessa história, e por ter o filme baseado nas reações de seu personagem, como foi essa transformação ao voltar a trabalhar com o Alexandre Moratto?

Christian Malheiros: “Muita coisa mudou em nossas vidas desde que trabalhamos juntos pela primeira vez, mas isso fez muito bem para a nossa relação. Nos conhecíamos de uma forma quando rodamos Sócrates, e agora estamos mais maduros, melhor preparados, porque aquele foi o primeiro filme de ambos. Quando voltamos a trabalhar juntos, tivemos muito mais sintonia e conseguimos trazer esse olhar para o Mateus, que tem uma situação bem particular nesse filme, já que ele começa de uma forma e acaba de outra completamente diferente, e isso não quer dizer que seja cem por cento correto em tudo o que faz. Trazer essa humanidade foi essencial para fazer dar certo, porque ali está algo muito além do que parece, sabe? A relação do Mateus com os outros rapazes, por exemplo, muda de uma forma que ninguém esperava, e o seu envolvimento com o Luca só faz a curiosidade pelo que vai acontecer aumentar.

Com isso, Rodrigo, como foi participar de um projeto cujo vilão é, ao mesmo tempo, tão cruel e vítima do que ele mesmo faz?

Rodrigo Santoro: Acredito que é bem isso o que você falou: a gente humanizou ao máximo o Luca para que suas atitudes não fossem assim tão fáceis de serem julgadas. Seria muito fácil cair no estereótipo, mas não era essa a intenção do personagem. Quando tudo começou a acontecer, Alexandre e eu tivemos uma longa conversa sobre como poderíamos humanizar o Luca da melhor forma, sem que tentássemos redimi-lo, porque seus atos são terríveis mesmo e não haveria sentido humanizar essas questões, e sim trazer camadas ao personagem. Pois, no fundo, no fundo, ele também é um produto daquele sistema do qual participa, e fazer parte dessa história toda só mostra para o mundo que todo mundo tem dois lados. Independente disso, acredito no lado vilão desse cara, porque ele teve escolhas, e fez o que fez de forma consciente, então, essa dualidade vai fazer bem para ele: a gente tem a ideia de odiar o antagonista, mas aqui é um pouco mais complexo do que isso. Nada é tão simples assim.

Reprodução/Netflix

E é exatamente por isso que 7 Prisioneiros é tão intrigante: porque transforma a concepção do espectador até certa parte do filme, depois a converte em outra coisa, e dificilmente alguém saberá exatamente o que pensar sobre seu desfecho.

7 Prisioneiros já está disponível na Netflix. Confira nossa crítica!