Diversidade, representatividade e cinema: um mundo de possibilidades

Ana Maria Guidi  - 24 de junho 2021 ás 12h00

O Oscar de 2021, em sua 93ª edição, teve como sua grande marca a diversidade e representatividade. Isso porque, pela primeira vez na história, mulheres, negros e asiáticos ganharam extremo destaque nas indicações. Mas, antes de tudo, você sabe o que significa diversidade? E representatividade?

O cinema na sociedade

Filmes, series e músicas são três pilares que sustentam o mundo do entretenimento. É assim que enxergamos o cinema desde a década de 20: um ponto de encontro de diversão entre jovens e adultos.

Mas, se olharmos para a história do mundo, podemos notar uma particularidade a respeito do cinema: ele não só tem o poder de divertir, como também de influenciar ações, pensamentos e opiniões – não à toa, em regimes autoritários, como o fascismo, o nazismo e outras ditaduras, o cinema se torna uma das principais fontes de transmissão de ideologias.

Assim, conseguimos entender qual foi – e ainda é – o papel do cinema em relação a um tema tão debatido atualmente: a diversidade.

O que é diversidade?

Até poucas décadas atrás, o termo diversidade não dizia muita coisa: no dicionário, a qualidade do que é diverso; na biologia, um conjunto de ecossistemas; na feira, várias opções de frutas.

Mas, recentemente, o termo vem ganhando força e um “novo” sentido: diversidade diz respeito ao ser humano, ao reconhecimento do outro, à convivência de indivíduos de diferentes raças, orientações sexuais, culturas, gêneros, entre tantas outras possibilidades, num mesmo espaço: o mundo!

Isso porque, ao longo da história, essas diferenças nem sempre foram apreciadas: enquanto homens, brancos e heterossexuais dominavam a política, economia e a cultura, mulheres, negros e negras e pessoas LGBTQI+ ficavam à margem, isolados, discriminados e desrespeitados.

E é dessa posição que surge a palavra minoria. Não porque esses grupos são numericamente menores – no Brasil, negros e negras representam 51% da população, por exemplo – mas sim porque, ao longo da história, sempre estiveram em posições de  vulnerabilidade.

Assim, esses grupos, considerados não-dominantes, lutaram e lutam a vida toda contra padrões que são impostos contra eles, contra privilégios e contra qualquer tipo de preconceito que a sociedade ainda possui (mesmo aqueles debaixo dos panos).

Aceitar a diversidade não é apenas conviver, mas também respeitar, incluir e representar. É nesse sentido que entendemos a importância do cinema, da inclusão das pautas das minorias em filmes e séries.

O que é representatividade?

O assunto é mais falado em épocas de festivais, quando nas listas de indicados, em sua maioria, constam mais nomes de homens brancos do que de mulheres, negros e negras e outras minorias. Mas, o problema não está só no momento da premiação.

Segundo um estudo conduzido pela Stacy L. Smith, professora doutora da Escola USC Annenberg e fundadora e diretora da iniciativa de inclusão da mesma universidade, de 1.300 filmes considerados populares entre 2007 e 2019 (último estudo publicado), apenas 16% possuem personagens negros com falas.

O relatório vai além: entre os 100 melhores filmes de 2019, 78% não possuem personagens LGBTQI+ e 97,7% não possuem personagens PCDs. De acordo com os dados, enquanto a Disney ocupa o lugar de mais inclusiva, a Universal e Paramount estão longe de entender a importância da diversidade.

O que esses números revelam é que, apesar de mulheres e pessoas não-brancas serem a maioria no mundo e nos Estados Unidos, estes grupos ainda não são devidamente representados no universo do cinema, ou que, apesar de pessoas PCDs e LGBTQI+ existirem, raramente elas ocupam as telas e são representados nelas.

E isso não influencia só os debates em épocas de premiação, como também afeta a autoestima daqueles que não se enxergam, afetam a sociedade que não fala sobre e, principalmente, afeta os indivíduos que, por inercia, acabam não sendo conscientizados.

Como se sente uma criança negra ao ver que a maior parte dos super-heróis são brancos? Ou como uma pessoa LGBTQI+ se reconhece na sociedade se o entretenimento não fala sobre ela? Como tornar as pessoas mais conscientes em relação aos PCDs se eles não são vistos?

O cinema possui não só o papel de garantir a diversão, mas também de conscientizar, de gerar debate e de aumentar o aprendizado e, é por isso, que a questão da representatividade é tão importante na sétima arte.

Filmes para começar a pensar no assunto

Pensando nesse contexto, selecionamos quatro filmes que foram pioneiros nos assuntos que se propuseram a tratar:

Fonte: Reprodução/Universal

O Sol é para Todos e o racismo

Inspirado no livro homônimo da autora Harper Lee, o filme, dirigido por Robert Mulligan relata a história da vida de duas crianças cujo pai, Atticus Finch (Georgy Peck), decide defender, na justiça, um jovem negro acusado de estuprar uma moça branca. O longa, que teve oito indicações ao Oscar, retrata o racismo estadunidense da região do Alabama pós-Crise de 1929 e é considerado um dos primeiros a realizar isso de forma crítica e explícita.

O filme está disponível para aluguel e compra no Amazon prime, iTunes e Google Play.

Fonte: Reprodução/MGM

Luzes da Cidade e a primeira protagonista PCD

Escrito, dirigido e estrelando ninguém menos que Charlie Chaplin, o filme, de 1931, conta a história de um vagabundo (Chaplin) que se apaixona por uma florista cega (Virginia Cherril). O longa não é crítico (como a sugestão anterior), mas é considerado um dos primeiros a inserir uma pessoa com deficiência em um papel de protagonista.

O filme está disponível na plataforma do Telecine.

Fonte: Reprodução/Richard Oswald-Film Berlin

Diferente dos Outros, o universo gay na Alemanha homofóbica

Polêmico e fonte de debates na época, o filme alemão de 1919, do diretor Richard Oswald, retrata o relacionamento de um professor violinista e seu aluno. A produção, considerada o primeiro “longa gay” da história, não é polemica apenas pelo seu conteúdo – retratando a questão sob a ótica da medicina, discriminação social e jurídica –, mas também pela época em que foi lançado: até 1994 vigorou, na Alemanha, uma lei que proibia a homossexualidade.

Infelizmente, o filme não está disponível em nenhuma plataformas de streaming atualmente.

Fonte: Reprodução/Gaumont Film Company

Os Resultados do Feminismo

Dirigido por Alice Guy-Blaché e lançado em 1906, o curta, ao lado de A Sorridente Madame Beudet, de 1922, são considerados os dois primeiros filmes feministas da história. A produção, que poderia ser considerada contemporânea, retrata a realidade da vida das mulheres, porém invertida: são os homens quem cuidam da casa, dos filhos, são assediados na rua, entre outros fatores que até hoje conhecemos.

Muitos outros filmes como esses foram produzidos ao longo faz décadas seguintes, mas começar pelos pioneiros como introdução desse longo assunto já é um bom caminho.