Por que Disney e Warner desistiram de estreias híbridas no cinema e no streaming?

Tiago Minervino  - 08 de abril 2022 ás 12h00

Quando a pandemia de coronavírus atingiu o mundo em março de 2020 e obrigou os países a adotarem medidas de distanciamento social para evitar a disseminação do vírus causador da Covid-19, a indústria do entretenimento se viu diante de um grande desafio, que modificou toda a agenda que os estúdios e as emissoras de TV tinham planejado para os próximos meses, com o adiamento de filmes e séries, o cancelamento de algumas produções e uma série de demissões feitas em meio à crise inédita enfrentada pelo planeta no século XXI.

Logo, não é de se estranhar que, em meio ao caos, as plataformas de streaming tenham servido como uma espécie de oásis, uma luz no fim do túnel para as empresas de comunicação, uma vez que, se não serviu para resolver o problema como um todo, o que de fato não fez, pelo menos serviu para mitigar os prejuízos.

Assim, na medida em que a pandemia ia se agravando, as regras de confinamento ficavam mais rígidas, as salas de exibição continuavam fechadas e os estúdios impossibilitados de darem continuidade às gravações, a telinha do streaming despontou como a estrela do momento, principalmente com o aumento significativo nas assinaturas, haja vista que, com as pessoas passando mais tempo em casa, maratonar filmes e séries foi um ótimo passa tempo.

Maior plataforma do segmento no mundo, a Netflix contabilizou 37 milhões de novos assinantes durante o período pandêmico do ano passado, o maior ganho de usuários de sua história. Concorrentes como Disney+ e Amazon Prime Video também se beneficiaram e turbinaram suas receitas.

De olho nesse mercado crescente, a Warner Bros. lançou seu próprio streaming, o HBO Max, e já chegou no mercado com pompas: dona de um acervo de dar inveja a muitos quando o assunto são filmes, séries e documentários, não demorou para a plataforma se popularizar. Mas a gigante norte-americana foi além e aproveitou o serviço por assinatura para lançar filmes inéditos que, em tese, seriam lançados exclusivamente nos cinemas. Mulher-Maravilha 1984, segundo longa da heroína estrelado por Gal Gadot, foi um ótimo exemplo disso.

Outros títulos que estrearam nesse formato foram Godzilla vs. Kong, Esquadrão Suicida e Judas e o Messias Negro. Embora tenha sido vantajoso para angariar assinantes, o desempenho nos exibidores não foi necessariamente o esperado.

Assim, o sucesso dessa estratégia de lançar filmes de forma híbrida no cinema e no streaming passou a ser alvo de questionamentos e, não por acaso, estúdios poderosos como Warner Bros. e Walt Disney desistiram da ideia.

Reprodução/Warner Bros.

Entenda por que Warner e Disney desistiram de lançamentos híbridos

Adotar o lançamento simultâneo nas telonas e nas telinhas foi, em um primeiro momento, uma forma de driblar as circunstâncias do momento impostas pela Covid-19. Por conseguinte, os estúdios enxergaram nessa medida um caminho para impulsionar a receita de assinantes de suas plataformas e bater de frente com a gigante da área, a Netflix.

Vale ressaltar, porém, que o movimento não foi seguido por todos: a Paramount, por exemplo, não adotou essa estratégia para turbinar seu streaming, o Paramount+, e continuou fiel ao modelo antigo de priorizar os exibidores.

Entre as companhias que fizeram uso dessa jogada, o destaque vai para a Disney que parece ter feito um melhor planejamento quando comparado com suas concorrentes, que contou com uma estratégia global de estreias simultâneas em outros países, não apenas nos Estados Unidos. A companhia do Mickey Mouse cobra custo adicional para os interessados em assistirem seus títulos ainda em exibição nos cinemas, que no Brasil é de R$ 69,90, ao contrário do HBO Max, que não cobra um centavo além do valor na assinatura mensal.

Agora, passado mais de um ano desde que a estratégia foi adotada, essas empresas têm repensado o movimento ousado, que causou polêmica entre as redes de exibição norte-americana, e têm recuado, dando preferência aos cinemas e, posteriormente, ao streaming.

Em setembro, durante participação na Vox Media Code Conference, o CEO da WarnerMedia, Jason Kilar, demonstrou arrependimento por ter adotado o lançamento simultâneo nas telinhas e nas telonas, e apontou exatamente uma falta de planejamento (via Variety). Recentemente, reportagem do The Hollywood Reporter destacou que em 2022 a Warner lançará 12 filmes exclusivamente nos cinemas e depois de 45 dias os títulos serão disponibilizados no HBO Max. Em terras tupiniquins, essa janela entre um e outro após as estreias nos exibidores é de 35 dias.

Reprodução/Warner Bros.

Processo de Scarlett Johansson contra a Disney acendeu sinal de alerta

Um outro fator que pode ter pesado na decisão dos estúdios em reverterem essa estratégia, sobretudo na empresa do Mickey Mouse, foi o processo movido pela atriz Scarlett Johansson contra a gigante do entretenimento. A intérprete de Natasha Romanoff no Universo Cinematográfico Marvel alegou quebra de seu contrato com a Marvel por parte da Walt Disney, que previa o lançamento de Viúva Negra de forma exclusiva nos cinemas. Entretanto, com a estreia paralela no Disney+, isso teria lhe causado um prejuízo de US$ 50 milhões.

A Disney chegou a rebater a artista, negou qualquer irregularidade e afirmou que ela foi muito bem paga. Posteriormente, a empresa anunciou que entrou em um acordo com Johansson e colocou um ponto final na contenda — os valores acordados não foram revelados.

Mas a iniciativa de Scarlett Johansson causou burburinho e abalou as estruturas da indústria cinematográfica mundial. Não é segredo que a maioria das estrelas hollywoodianas recebem um valor para atuar, acrescido de uma parcela extra que varia de acordo com a bilheteria. Os diretores Anthony Russo e Joseph V. Russo, responsáveis por Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Ultimato (2019) no MCU, estariam receosos em fechar novo contrato com a Marvel, temendo justamente essa estratégia de duplo lançamento, que afeta não apenas o salário dos envolvidos, mas também as estratégias de divulgação.

É óbvio e natural que fazer uma mudança desse tamanho em uma indústria tão poderosa quanto a cinematográfica requer maior planejamento, sobretudo mercadológico. Quando a Warner Bros. anunciou que todos os seus filmes de 2021 seriam divulgados simultaneamente no cinema e no streaming, a companhia, ao contrário da Disney, renegociou seu contrato com Gal Gadot e Patty Jenkins, protagonista e diretora de Mulher-Maravilha 1984, respectivamente.

Por outro lado, quem não gostou do anúncio foi o ator Denzel Washington, que não escondeu seu descontentamento. Na ocasião, o astro queixou-se que o filme Pequenos Vestígios, do qual ele é protagonista, sequer ganhou planos para divulgação.

Denis Villeneuve, responsável por Duna, e Christopher Nolan, dois dos cineastas mais conceituados na atualidade, também criticaram a iniciativa, sob a justificativa de que isso atrapalha a experiência cinematográfica, pois, para eles, assistir aos filmes nos cinemas traz uma impressão distinta de assisti-los nas telas da TV, além do fato de algumas produções serem pensados para as telonas.

O fato é que, seja qual for a justificativa que os estúdios queiram dar, a indústria cinematográfica não será a mesma de antes da pandemia. Notem que, embora tenham desistido de lançamentos simultâneos em ambas as formas de exibição, a janela de exclusividade para os cinemas reduziu em 50%: De 90 dias passou para 45. Mesmo assim, foi o suficiente para satisfazer os empresários do ramo.

Reprodução/Warner Bros.

Donos de exibidores comemoram recuo

Quando a Disney e a Marvel estrearam Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis nos cinemas, em agosto, a resposta dos espectadores foi considerada bastante satisfatória, e o filme alcançou uma ótima performance dentro do contexto pandêmico em que foi lançado. Isso animou os estúdios e também os empresários donos dos cinemas.

Durante a CinemaCon realizada em agosto, Adam Aron, CEO da AMC, uma das maiores redes de cinemas dos EUA, afirmou que a estratégia de lançamentos simultâneos era danosa para as exibidoras sob todos os vieses: se por um lado a facilidade de ver o filme no streaming sem precisar sair do conforto do lar afugenta os espectadores que ainda não querem se arriscar a frequentar locais públicos com aglomeração, por outro acelerou a distribuição dos filmes em sites piratas e isso, alegou, deprecia as obras (via Deadline).

A fala de Aron foi corroborada por John Fithian, CEO da NATO, outra empresa de exibidores. Para ele, mesmo que com tempo mais curto de exclusividade, é melhor garantir o período de 45 dias de exibição apenas nas telonas, para só então disponibilizá-los nas demais plataformas.

Em meio a essa nova realidade em que empresas e espectadores precisam se adaptar, sobretudo dada a existência de tantas opções de streaming, o que implica em gastos se o consumidor optar por assiná-las, Adam Aron contou ao THR que está “especialmente satisfeito” com o fato de estúdios como a Warner Bros., entre outros, terem “resolvido deixar de lado o lançamento simultâneo”.

Portanto, é cristalino que a regra nos estúdios agora é: diminuir a janela entre os cinemas e o streaming, além de pensar em produções exclusivas para o serviço de assinatura, sem as pompas de pensar um projeto para as telonas, logo, com menos gastos.