Crítica | What If…? – 1ª Temporada

Martinho Neto  - 14 de outubro 2021 ás 12h00

Depois de tantos anos, filmes e agora séries, é difícil criticar um modelo tão eficiente e lucrativo quanto o empregado pela Marvel Studios em seu universo cinematográfico. Porém, também é seguro dizer que com tantos exemplares seguindo à risca a tão falada “fórmula Marvel”, chega um momento quando é necessário trazer algo novo, ou então ficar a mercê do cansaço do público. What If…? chegou em um momento oportuno para preencher esta lacuna, aliando as possibilidades permitidas pelo gênero das animações com a oportunidade de enfim se desgarrar da linha do tempo sagrada do MCU, trazendo histórias únicas de personagens já conhecidos e amados e direcionando-se apenas pela fatídica pergunta: “E se isso tivesse acontecido diferente?”. Contudo, para a empreitada funcionar, era preciso bastante criatividade e ousadia. Só que enquanto a primeira está quase sempre ofuscada, a última está totalmente em falta.

O início até parecia promissor — o que contribui para a concepção de que o formato de lançamento em episódios semanais contribuiu ainda mais para concepções negativas sobre a série. Os dois primeiros episódios, embora apresentassem premissas semelhantes, deram um vislumbre inicial sobre as possibilidades da animação. Ver Peggy Carter recebendo o soro do supersoldado no lugar de Steve Rodgers, assim como T’challa se tornando o Senhor das Estrelas ao invés de Peter Quill são duas faces de uma mesma proposição, a troca de personagens. Destaque para a segunda que, diferente do episódio de estreia, conseguiu tomar rumos diferentes do que vimos na linha do tempo original — além da primeira oportunidade de ouvir a atuação do saudoso Chadwick Boseman.

Nos dois episódios seguintes, a série dá lampejos do potencial que possui ao trabalhar situações ao invés de troca de personagens. Aqui vale a menção especial para o quarto episódio, que retrata o que aconteceria se, em vez de perder o movimento das mãos no acidente de carro, o Dr. Estranho perdesse o amor da sua vida, a Dra. Palmer. Em uma narrativa instigante e bastante sombria para os padrões do estúdio, a Marvel nos mostra que é possível se distanciar da fórmula e entregar algo de qualidade sem precisar se prender a uma cronologia. Infelizmente, os episódios seguintes acabam esbarrando justamente no problema que parecia finalmente ter se resolvido.

Reprodução/Marvel

Os episódios cinco, seis e sete são demonstrações claras do que não fazer em um universo de possibilidades tal qual o visto em What If…?. Tanto o Thor festeiro quanto o Killmonger salvando Tony Stark, “impedindo” que este se transforme no Homem de Ferro que acompanhamos, são exercícios de criatividade pobres, que se escoram em personagens conhecidos para desvirtuar suas jornadas, apenas para fornecer material suficiente para um “E se?” de trinta minutos de duração. É notável o quanto as motivações factíveis e discutíveis do antagonista interpretado por Michael B. Jordan em Pantera Negra (2018) foram resumidas a um vilão raso e caricato, assim como a reutilização do Thor visto no seu primeiro filme se mostra totalmente equivocada e desnecessária, uma vez que a própria Marvel tratou de resetar o personagem em Thor: Ragnarok (2017) para torná-lo mais digerível ao público.

Todavia, o episódio que melhor resume a experiência de What If…? é o dos zumbis. Grande trunfo publicitário da produção, visto que uma parcela considerável dos espectadores acompanhou a série apenas aguardando a chegada deste capítulo, o episódio dos zumbis é a maior prova que uma premissa interessante não se traduz, necessariamente, em um produto final igualmente interessante. Isto porque, embora desperte uma clara curiosidade, afinal, zumbis estão inseridos na cultura pop tanto quanto os próprios heróis, e um crossover entre ambos seria algo inédito até então. Porém, o que vemos são trinta minutos de um ritmo irregular abraçando um roteiro excessivamente piadista e que pouco condiz com os próprios personagens retratados anteriormente no MCU. Note que é possível sim trabalhar zumbis com humor, e várias obras do gênero ratificam isso, mas para isto é preciso saber dosar os principais aspectos da obra, e aqui o estúdio claramente passou do ponto.

Reprodução/Marvel

Tudo culmina nos episódios finais, que possuem uma narrativa em comum, mas merecem ser analisados separadamente. O oitavo episódio retorna a Vingadores: Era de Ultron e mostra o que aconteceria caso o vilão tivesse alcançado seu objetivo de ter um corpo orgânico perfeito aliado ao poder da Joia da Mente — o que, no filme, acabou resultando na origem do herói Visão. Em mais uma faísca de criatividade, o capítulo apresenta um Ultron muito mais temível e obstinado do que o visto nos cinemas, com direito a um confronto relâmpago com Thanos e fazendo com que o robô obtenha o poder de todas as Joias do Infinito. Isso o torna um ser onisciente, capaz de perceber a existência não só de qualquer parte do seu universo, como também de todo o multiverso que, até então, vinha sendo apresentado pelo narrador Uatu, o Vigia. O perigo de um ser com tamanho poder e capacidade destrutiva faz com que este último quebre o seu juramento de não-interferência e aja para combater o temeroso vilão.

Enquanto a primeira parte desta história empolga, a derradeira decepciona. No episódio nove, somos apresentados aos Guardiões do Multiverso, grupo de heróis escolhidos arbitrariamente pelo Vigia (sem nenhum motivo aparente além, é claro, do pré-requisito de que todos já tivessem sido apresentados nos capítulos anteriores) para combater Ultron. A exceção é Gamora, porém existe uma explicação para ela não ter aparecido antes: o episódio dela não ficou pronto a tempo da estreia da série, e os produtores decidiram incluí-lo no segundo ano da série, já confirmado pelo estúdio. Esta é apenas a primeira das diversas conveniências existentes neste encerramento de temporada, cuja única motivação de existir foi reunir vários personagens diferentes para lutar — algo que parece ser idealizado por uma criança, que possui o costume de incluir bonequinhos de diferentes marcas e formatos na mesma brincadeira.

Reprodução/Marvel

A Marveltem tanta necessidade de fazer tudo interligado que a maioria das conveniências deste episódio final existem unicamente para referenciar TODOS os outros capítulos da temporada, até mesmo o de zumbis. É essa falta de ousadia em inovar que tira tantos pontos de What If…?. Falhas de animação e algumas dublagens fraquíssimas poderiam facilmente serem relevadas ou perdoadas, caso a série conseguisse ao menos realizar a proeza que sua própria premissa se propõe: ser o respiro de novidades que o MCUprecisava. Porém, como diz o outro, o saldo final é que a série possui coisas boas e coisas novas; só que as boas não são novas e as novas não são boas.