Crítica | WandaVision

Denis Le Senechal Klimiuc  - 20 de setembro 2021 ás 12h00

Como tornar uma personagem secundária digna de todas as honras de um universo cinematográfico tão bem estabelecido? Por outro lado, como abraçar uma personagem tão importante nas HQs, mas relegada ao segundo plano no cinema? Parece que Kevin Feige esteve ocupado desde que Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) participou das obras da Marvel, pois tirou todas as dúvidas em WandaVision (2021).

Desde que Vingadores: Ultimato (2019) chegou aos cinemas, diversas pontas ficaram propositalmente soltas, dentre elas, o luto de Wanda após perder seus pais na infância, seu irmão Pieto (Aaron-Taylor Johnson) em uma missão e, agora, seu grande amor, Visão (Paul Bettany), com quem estava vivendo às escondidas tranquilamente até que os eventos de Vingadores: Guerra Infinita (2018) os tirou do anonimato. Em consequência, o amor de Wanda perdeu a vida nas mãos de Thanos (Josh Brolin) e, desde então, ela tem sofrido às bicas por tudo o que aconteceu.

É a partir dessa premissa que WandaVision leva o espectador, o qual começa a série extremamente confuso, pois passa a observar a vida de sua protagonista muito bem acompanhada de Visão, ainda que esteja claro que tudo ocorre após sua morte. Então, pouco a pouco as peças são apresentadas e, com isso, o Universo Cinematográfico da Marvel ganha uma poderosa explanação: afinal, nada mais justo do que Kevin Feige dar esse presente aos fãs da personagem.

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Fonte: Reprodução/Disney

WandaVision é a prova perfeita de quem bom entretenimento pode sair de um liquidificador pop

Vivendo em uma típica casa de subúrbio, Wanda e Visão passam despercebidamente como um casal recém-chegado àquela pequena cidade, a qual parece viver na década de 1950, assim como os protagonistas da série. Aliás, em preto e branco, o espectador acompanha aquele mergulho peculiar em um mundo de pura nostalgia, algo bastante parecido com uma sitcom, ao invés da vida como ela é.

Porém, é mesmo quando Wanda passa a se comportar como uma bruxa às escondidas, enquanto o Visão trabalha com sabe-se-lá-o-que, que o ponto de vista sobre esta série começa a ficar claro. A criação de Jack Schaeffer para o Disney+, responsável por inaugurar o universo oficialmente estendido para a TV, não poderia ser mais autêntica: WandaVision tem, em mais da metade de seus nove episódios, as referências a grandes obras da televisão como suas principais premissas.

Assim, enquanto tudo acontece para que o espectador passe a compreender o que fez Wanda parar ali, e como Visão está vivo, diversas obras vão ao ar na pele dos protagonistas, que mudam de um universo a outro em um poderoso exercício de metalinguagem, o qual não só homenageia a TV norte-americana, como faz o streaming da Disney começar com o pé direito.

Desta forma, enquanto Schaeffer é hábil ao construir o roteiro com outras dez pessoas, a direção de Matt Shakman traz The Dick Van Dyke Show (1961 – 1966) – este, consultor da série no alto de seus 93 anos, A Feiticeira (1964 – 1972), The Brady Bunch (1969 – 1974), Três É Demais (1987 – 1995), Roseanne (1988 – 1997), Malcolm in the Middle (2000 – 2006), The Office (2005 – 2013) e Modern Family (2009 – 2020) como suas principais referências. E cada uma delas está presente de formas emocionantes, nostálgicas e hilárias.

Como cada um dos episódios iniciais foi pautado por uma homenagem, as divisões de cada um deles também fez a diferença para familiarizar o espectador à premissa de uma série sobre a Wanda e o Visão. Porém, a partir da segunda metade, quando o exercício de metalinguagem termina e as motivações são colocadas à prova, além de desenvolver a protagonista de maneira formidável, a série traz uma antagonista curiosa e bem construída, ainda que tire um pouco o brilho criado até então.

Enquanto tudo acontece dentro da pequena cidade, o mundo descobre que Wanda Maximoff está ali, mas que criou um campo magnético de tal força que ninguém consegue atravessá-lo, o que significa que o mundo trazido a quem assiste à série no formato de sitcons antigas ou contemporâneas é, na verdade, um reflexo da mente de Wanda, e que todo mundo de fato estava vivendo o passar das décadas através dos respectivos produtos da cultura pop.

Por isso, aos poucos o figurino, a cenografia, a direção de arte e até mesmo a postura dos personagens mudam, enquanto Wanda se prova cada vez mais poderosa, pois, custou muito para descobri-la – e precisaram enviar Monica Rambeau (Teyonah Parris), trazida à vida adulta após ser apresentada em sua infância em Capitã Marvel (2019). Contaram, também, com a audácia da já conhecida do público, Darcy Lewis (Kat Dennings) e de todo o exército norte-americano.

Aqui está uma personagem que ganhou todo o destaque que merecia, mas da forma mais dolorosa possível

Mas o que comprova mesmo o poder de Wanda Maximoff é o seu desdém por tudo o que está fora de seu campo de poder, e o otimismo da série cai por terra quando o espectador descobre o que está por trás daquilo tudo: Wanda formou, junto de Visão, uma família, e teve, portanto, dois filhos: Billy (Julian Hilliard) e Tommy (Jett Klyne). Aliás, vale trazer o curioso easter egg que a Marvel traz com a aparição de outro Pietro Maximoff, cujo intérprete, Evan Peters, é o mesmo que dá vida a ele nos filmes X-Men – ou seja, será uma prova de que os mutantes estão finalmente chegando à Marvel?

Contudo, por trás do poder inigualável de Wanda está um dos sentimentos mais poderosos de todo ser humano: o luto. E como ela lida com isso faz o mais duro espectador engolir em seco, trazendo, além de suas justificativas, a oportunidade de conhecê-la melhor, algo possível com a tal antagonista: a entrada de Agnes (Kathryn Hahn) é um deslumbre aos fãs do lado místico da Marvel, e ela é a responsável por trazer premissas muito mais profundas sobre a protagonista e seu universo.

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Fonte: Reprodução/Disney

Inovadora e ao mesmo tempo nostálgica, WandaVision marca o fã de cultura pop

Contando com o Toque de Midas de Kevin Feige, WandaVision é um presente ao fã do MCU, sobretudo por contar com três atores tão talentosos, como Paul Bettany e Kathryn Hahn, mas é mesmo Elizabeth Olsen a responsável por unir o espectador ainda mais por aquele universo, trazendo todas as nuances da atriz à tona, desde a comédia ao drama, passando pela imponência que resultou na criação de uma das mutantes mais poderosas da Marvel: ali nasceu, portanto, a verdadeira Feiticeira Escarlate.