Crítica | Venom: Tempo de Carnificina

Denis Le Senechal Klimiuc  - 12 de outubro 2021 ás 12h00

O termo “bromance” surgiu nas redes sociais como uma forma de tirar chacota de dois homens heterossexuais que são amigos demais. Apesar de seu surgimento ter sido como piada, hoje o termo é usado com certa adesão, quando o preconceito dá espaço, e é possível compreendê-lo perfeitamente em Venom: Tempo de Carnificina (2021), com o simbionte Venom e Eddie Brock (Tom Hardy), cuja amizade ultrapassa a cumplicidade através da intimidade.

Apesar de existir mesmo a brincadeira sobre a forte amizade entre Venom e Eddie, infelizmente não é sobre isso que este filme se trata. Agora, o equilíbrio encontrado entre ambos os personagens perde o fio da meada após uma briga qualquer, e é justamente essa fraqueza o gatilho necessário para tornar este pequeno universo enfraquecido. Assim, o vilão da trama, Cletus Kasady (Woody Harrelson), tem a desculpa perfeita para reinar.

Mas, antes disso, o protagonista se divide entre aceitar a existência de Venom como parte de si, e também correr atrás de seu grande amor, Anne (Michelle Williams). Porém, ela já está se relacionando com outra pessoa e, ao término do primeiro ato, que é o terço inicial do filme, Eddie está completamente sozinho e desmotivado, enquanto Venom está passando de corpo em corpo e descobrindo-se em um outro tipo de universo: o underground.

Apesar de melhor do que o primeiro filme, Venom: Tempo de Carnificina não convence ao deixar de lado o relacionamento dos protagonistas
Reprodução/Sony Pictures

O desencontro de uma amizade

Dirigido pelo também ator Andy Serkis (ele é o Gollum), Venom: Tempo de Carnificina é o tipo de filme que surpreende pela conexão de seus efeitos visuais, mas acaba cansando pelo excesso deles, e porque o roteiro de Kelly Marcel, cuja história é dela e do próprio Tom Hardy, soa requentado: o espectador já viu aquilo em dezenas de outros filmes, e não há nada de novo para tornar a justificativa do clichê algo convincente.

Por sua vez, o ritmo do filme é sempre acelerado, e sua pouca duração ajuda, mas é uma pena que o roteiro não colabore para que tudo funcione bem e, portanto, faça jus ao personagem. Venom é uma das criações mais interessantes das histórias em quadrinhos da Marvel, e como simbionte sua mutação contínua permite que seja flexível tanto do ponto de vista temático quanto narrativo. Ou seja, ele poderia ser aproveitado de diversas formas, mas precisou do Carnificina em um embate insosso para sobreviver.

Aliás, o Carnificina nasce quando Cletus pede a ajuda de Eddie, e uma gota de sangue do jornalista é consumida por ele, de dentro de sua cela, quando estava prestes a ser executado. Claro que foi o suficiente para que o psicopata tivesse outro simbionte em seu corpo, e a força maligna resultou em uma criatura muito mais forte. Além disso, Cletus recuperou o amor de sua vida, Frances (Naomie Harris), presa em uma prisão especial por conta de seus superpoderes.

Contudo, o que chama a atenção nesta história requentada é mesmo o relacionamento de Eddie e Venom, e sua má exploração é um desperdício e tanto.

Apesar de melhor do que o primeiro filme, Venom: Tempo de Carnificina não convence ao deixar de lado o relacionamento dos protagonistas
Reprodução/Sony Pictures

Apesar do excelente ator, o vilão é fraco

Por mais que Andy Serkis tenha tentado realizar um filme à altura de seu personagem-título, o resultado é quase anêmico: não há graça depois que Eddie e Venom brigam, e nem a reconciliação soa como spoiler, pois obviamente isso aconteceria. Por sua vez, a relação com Anne continua fria, pois ela seguiu sua vida desde o que aconteceu no primeiro filme.

E, apesar de contar com um elenco geralmente inspirado, sequer o calibre de Hardy ou Harrelson, ou as subutilizadas Williams e Harris, conseguem fazer milagre. Desta forma, o filme soa como algo genérico, e o seu efeito dura apenas enquanto a sessão estiver acontecendo. Como resultado, ele pode até divertir, mas não o suficiente para valer o ingresso – e isso beira o absurdo, por se tratar de um personagem cujo repertório seja tão bom.

Aliás, como uma regra geral de roteiro, o protagonista é bom à proporção em que seu antagonista é útil. Isso responde, então, o quanto o Carnificina soa nem um pouco ameaçador, e muito menos sua simbiose com Cletus – e o romance deste com Frances, diga-se de passagem. No final das contas, o filme é uma união de promessas que não se cumprem.

Apesar de melhor do que o primeiro filme, Venom: Tempo de Carnificina não convence ao deixar de lado o relacionamento dos protagonistas
Reprodução/Sony Pictures

Venom retorna com um novo propósito

Ainda que seja completamente esquecível, Venom: Tempo de Carnificina vale pela divertida primeira parte, quando o lado debochado remete o normalmente vilão em um anti-herói, afinal, ele diz mesmo que quer salvar o mundo, ainda que diga isso junto de sua vontade de comer cérebro humano e satisfazer sua natureza. São esses os momentos que soam orgânicos ao universo de Venom dentro das histórias em quadrinhos, pois o levam ao espectador como uma forte e duvidosa consciência.

Seja qual for sua conclusão sobre este filme, ao término dele não se esqueça: fique até o fim, pois a cena pós-créditos é significativamente importante.