Crítica | Turma da Mônica: Lições

Denis Le Senechal Klimiuc  - 29 de dezembro 2021 ás 12h30

Quando Turma da Mônica: Laços (2019) chegou aos cinemas, o espectador foi pego de surpresa por uma história que conseguiu trazer toda a essência do já lendário Mauricio de Sousa a um live-action. Pois, acostumado com os gibis, animações e até mesmo longas que mantivessem o tom cartunesco, qualquer fã de tal universo conseguiu reconhecer personagens, cenários e a infinidade de easter eggs do primeiro filme. Agora, então, Turma da Mônica: Lições (2021) expande esse universo, e traz algo que o fã de Mauricio de Sousa não está tão acostumado: as dores do crescimento.

Baseado em HQ criada por Lu e Vitor Cafaggi, este segundo longa-metragem apresenta os mesmos personagens, Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) com alguns reconhecimentos de territórios novos: o início da paixonite adolescente, os excessos das amizades, as responsabilidades negligenciadas, a solidão, a ansiedade e seus diversos aspectos e até mesmo a maturidade em adultos que, muitas vezes, não sabem como reagir. O resultado é um filme que definitivamente diverte, mas que emociona em mesmo grau.

Isso porque as dores dos personagens principais vêm à tona agora, e eles estão mais focados em suas próprias personalidades, pois precisam aprender a lidar com suas limitações. Aliás, é interessante como o primeiro ato demonstra que os pais, sempre tão sábios, são os responsáveis por forçar o crescimento em jovens que já estão crescendo à sua própria maneira, e essa discussão permeia o restante do longa, enquanto os mais novos precisam arrumar diferentes formas para provar o contrário: eles podem, sim, amadurecer, mas em seu próprio tempo.

Reprodução/Paris Filmes

A turma está crescendo

Quando a Dona Luísa (Monica Iozzi) e a Dona Cebola (Fafá Rennó) se desentendem porque seus filhos são como cão e gato, Mônica é transferida para uma escola nova, e resta a Cebolinha, Cascão e Magali fazerem de tudo para manter a amizade em pé. Porém, em uma época em que não existiam celulares, computadores ou outros meios de comunicação semelhantes, tudo o que podiam fazer é esbarrar com a Mônica no bairro do Limoeiro ou mandar recados por seu vizinho, e primo da Magali, Dudu (Giovani Donato).

Com esses encontros e desencontros, a realidade deste filme é que cada um do quarteto precisa encontrar suas próprias respostas. Enquanto Cebolinha precisa frequentar uma fonoaudióloga, e é ali que ele conhece Humberto (Lucas Infante), Cascão é obrigado a frequentar aulas de natação, para lidar com seu medo de água. Mas, é ali que ele conhece Do Contra (Vinícius Hugo) e as coisas não saem como o planejado. Por sua vez, Magali está aprendendo a controlar sua ansiedade, o que a faz ficar sempre com fome, e isso a leva a uma perigosa aula de gastronomia.

Assim, com todas as dores do crescimento, a turma está amadurecendo à mesma velocidade com a qual seu elenco cresce. O paradoxo existe, mas ele conseguiu ser contornado de forma brilhante por Thiago Dottori e Mariana Zatz, responsáveis pelo roteiro. Ao adaptarem uma obra que definitivamente se distancia tematicamente dos gibis, ainda que mantenha sua essência, conseguem fazer o mesmo aqui. Por isso, o espectador vai encontrar momentos hilários em todos os cantos do filme, mas também vai aprender com os personagens.

Reprodução/Paris Filmes

Daniel Rezende domina a câmera

O mais interessante de Turma da Mônica: Lições é a maneira com a qual o diretor, Daniel Rezende, dosou sua própria obra: responsável pela montagem de filmes como Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007), há alguns anos vem se especializando como um diretor de primeira linha, e seu domínio com a câmera é o que faz toda a diferença para o filme funcionar. Isso acontece porque, em diversos momentos, ele precisou dosar a emoção para não perder a mão no exagero dramático.

Para que o filme se mantivesse na linha, então, Rezende optou por deixar com que os atores se emocionassem em tela. Ainda que haja exageros, e que a opção por manter a câmera em close no rosto de certos personagens passe alguns segundos do necessário, o acerto está no conjunto. Desta forma, este segundo filme consegue desenvolver tudo o que o primeiro construiu, e faz isso com certo grau de maturidade que causará estranheza nos fãs mais radicais.

Reprodução/Paris Filmes

Emocional ao extremo

Sim, Turma da Mônica: Lições é emocional ao extremo, e o afastamento de Mônica de seus amigos demonstra o espaço físico e temporal que eles precisavam para tomar certas decisões, mas o filme também cativa porque sua história consegue envolver o espectador naquele universo tão bem criado por Mauricio de Sousa e adaptado com maestria por Rezende. Aqui, então, o foco é encontrar o máximo de easter eggs possíveis, e eles começam a partir dos primeiros minutos, na casa da Mônica ou por todo o bairro, daqueles que têm papéis definidos a pequenas aparições.

Além disso, o talento em trazer à tona discussões tão interessantes quanto as consequências de tal afastamento está visivelmente alinhada no roteiro. Cada escolha tem uma consequência, e cada personagem do quarteto apresenta sua evolução. Ainda que não traga o ar de novidade do primeiro filme, e que traga parte de seu arco principal em algo tão usado quanto Romeu e Julieta, este é um filme definitivamente à altura do que Mauricio de Sousa tinha na cabeça quando escrevia seus personagens. E o melhor é que serve como homenagem ao criador, ainda em vida, abrindo uma porta enorme para o já apelidado de “Mônicaverso”.