Crítica | The Witcher: Lenda do Lobo

Martinho Neto  - 25 de outubro 2021 ás 12h00

A mitologia de The Witcher, espalhada por vários tipos de mídia, vem se expandindo na mesma proporção em que se torna mais conhecida, graças a sucessos como a série homônima da Netflix, lançada em 2019, e o jogo The Witcher 3: Wild Hunt, de 2015. Aproveitando a proximidade da chegada dos episódios da segunda temporada da obra protagonizada por Henry Cavill, a plataforma de streaming decidiu reaquecer o interesse dos fãs na franquia trazendo The Witcher: Lenda do Lobo para desenvolver mais o universo apresentado na série, além de entregar sequências de ação e de uso de poderes até então inéditas, possibilitadas por se tratar de uma animação. Especificamente para estes fins, o filme corresponde bem às expectativas.

A trama, intrinsecamente ligada à série, não só acrescenta informações aos acontecimentos mostrados na temporada anterior, como também trata de apresentar novidades que serão vistas no segundo ano do live-action. Trata-se da história de origem do bruxo Vesemir, mentor e figura paterna de Geralt de Rivia, que será uma das novidades que aparecerão nos novos episódios. Nota-se a importância de o espectador estar por dentro ao menos do universo apresentado na série, pois o longa claramente funciona como um amplificador da mitologia. Porém, o roteiro ainda tenta incluir certas passagens para não desamparar o público leigo no assunto, o que acaba se mostrando uma decisão no mínimo controversa, porque da forma que foi executada, a obra não é capaz de se aprofundar nesses temas, causando mais cansaço do que necessariamente esclarecendo algo.

Reprodução/Netflix

Em Lenda do Lobo, acompanhamos dois momentos da vida de Vesemir: a infância dura, e uma aventura depois que este já se tornou um bruxo pleno. As situações são mostradas através de uma montagem paralela que visivelmente prefere focar nos dias “atuais” do protagonista, pois é neste núcleo que estão as maiores qualidades da obra. Além do próprio Vesemir e do seu treinamento árduo, existe mais um elo entre as duas narrativas: trata-se de um spoiler, mas é possível dizer que isto ajuda o público a lembrar do envelhecimento diferenciado dos bruxos, além de auxiliar na compreensão das motivações de certos personagens.

Reprodução/Netflix

Embora a história de origem de Vesemir tenha seu valor, ela acaba tendo sua importância diminuída devido à quantidade de informações que o filme decide mostrar em sua curta duração de pouco mais de 80 minutos. Muitas tramas são exibidas de forma excessivamente rápida, como se houvesse uma necessidade de trazer vários pontos que serão melhor trabalhados na segunda temporada da série, além de precisar contar a própria história de Vesemir. Isso não parece ser a melhor opção, uma vez que fica evidente que os produtores da série não levam em conta que todo o público da obra live-action assistirá à animação. E justamente por não se assumir nem como um produto de nicho e nem como algo capaz de se sustentar nas próprias pernas que o longa acaba ficando em um limbo desconfortável, inepto de abraçar um estilo e rumar com ele até o fim.

Felizmente, Lenda do Lobo também possui qualidades, e a maioria delas proporcionadas pelo gênero da animação. A fantasia se sobressai, trazendo lutas dinâmicas e ágeis, além de muitas magias e poderes. Tudo isso torna os embates divertidos e traz um ar de originalidade em comparação ao que foi visto na série. Ainda que a narrativa se encaminhe para um desfecho apoteótico, a falta de desenvolvimento acaba reduzindo boa parte do impacto do ato final. Porém, nas vezes em que o filme dá espaço para Vesemir, seu mestre Deglan e a feiticeira Tetra (os personagens mais aprofundados) interagirem, vemos as melhores cenas da obra — e o que ela poderia ter sido caso fosse melhor executada.

Reprodução/Netflix

Em resumo, Lenda do Lobo não é a melhor forma de conhecer o universo The Witcher, especialmente por sua aparente dependência das produções anteriores (sobretudo a série estrelada por Henry Cavill). Contudo, considerando o sucesso que este universo vem atingindo, não é surpresa que a obra acabe encontrando seu público. Ainda que busque ser relevante para expandir a mitologia do bruxo Geralt, a animação parece estar fadada a ser apenas mais um entretenimento descompromissado presente no vasto catálogo da plataforma de streaming.