Crítica | Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Denis Le Senechal Klimiuc  - 06 de setembro 2021 ás 12h00

Comece sua experiência com Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis (2021) sabendo que há duas cenas extras, ambas relevantes para o MCU em geral. A partir disso, a outra informação essencial é que este é um dos filmes mais divertidos de todos de seu universo, ainda que tenha suas razões para não se tornar genial, e é bem provável que o seu sucesso seja posterior à carreira nos cinemas justamente por chegar ao mundo em um período no qual é necessário escolher a dedo o que assistir nos cinemas, de forma segura e saudável.

Assim, o espectador que tiver a oportunidade vai conhecer a história de Shaun (Simu Liu), jovem que vive em São Francisco e curte o trabalho como manobrista durante o dia, e as noitadas regadas a álcool e karaokê durante a noite, sempre ao lado de sua melhor amiga, Katy (Awkwafina). Porém, quando precisa lidar com um grupo de assassinos em pleno transporte público, a vida que Shaun construiu nos últimos dez anos vai por água abaixo e, assim, ele precisa enfrentar a sua realidade.

Pois, além de ser extremamente habilidoso em artes marciais, ele é filho de Li (Fala Chen) e Xu Wenwu (Tony Leung). Ele, um poderoso e ganancioso guerreiro que percorreu os últimos mil anos de história da humanidade derrubando exércitos inteiros e quebrando países e políticos através do poder conquistado desde que encontrou os dez anéis do título, que deixam seu dono poderosíssimo. Ela, uma doce existência que protegia uma vila mística, a qual protege toda a humanidade de uma monstruosa ameaça, e que mudou a cabeça de Wenwu, fazendo com que ambos abandonassem seus poderes para viver uma vida em paz.

Shaun, primeiro filho desta nova família, foi criado como guerreiro desde criança, enquanto sua irmã, Xialing (Meng’er Zhang) precisava lidar com o ostracismo por ser mulher – algo que o filme subverte de maneira formidável. Anos mais tarde, após vivenciar os conflitos em São Francisco, Shaun precisa voltar à China para lidar com seu pai, reencontrar sua irmã e sentir as diversas nuances positivas e negativas de seu verdadeiro nome, Shang-Li.

Fonte: Reprodução/Disney

A formação de uma história de origem, de novo

Com um primeiro ato divertido e fundamental para fazer com que o espectador compre o protagonista desta história, o filme é hábil ao apresentar o herói como alguém ciente de sua jornada, ainda que ela seja feita nos moldes clássicos e, justamente por isso, repletos de clichês. Apesar disso, o roteiro deste Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é firme o suficiente para evitar o lugar-comum o tempo inteiro, porque ele consegue introduzir o herói a todas as mazelas pelas quais precisa passar e, ainda assim, surpreender em diversos momentos.

Isso porque a história de origem deste filme, como já feita em diversos outros filmes da Marvel com heróis menos conhecidos pelo grande público, é trazida nos moldes clássicos, mas conta com duas ferramentas essenciais que transformam esta aparentemente morna experiência em algo espetacular no melhor sentido que o cinema pode dar.

A primeira delas é Awkwafina, que é introduzida como a melhor amiga e fiel escudeira de Shang-Chi, e o faz com brilhantismo por abraçar sua persona debochada o tempo inteiro, mas ser comedida pela edição e pelo roteiro, sem jamais exagerar na dose. Desta forma, as melhores tiradas obviamente são dela, e a atriz tem o timing perfeito para isso.

Fonte: Reprodução/Disney

A estética é belíssima, e as lutas homenageiam a China

Por sua vez, a segunda ferramenta poderosa é o respeito pela origem do herói, e isso significa que a China é trazida à máxima potência, e diversos aspectos de sua cultura milenar e de sua grandeza são explorados. Mas é justamente a forma com a qual o filme faz isso que faz toda a diferença: as cenas de luta, por exemplo, são coreografadas de forma contínua, sem cortes bruscos que mais atrapalham do que ajudam a compreensão do espectador. Além disso, em diversos momentos, parecem danças, ritmadas pela sensualidade e pelo domínio absoluto do corpo.

Além disso, a fotografia de Bill Pope é magnífica, e traz elementos de cores e sombras que lembram muito O Tigre e o Dragão (2000), e ter Michelle Yeoh neste longa é uma homenagem e tanto. Por sua vez, há outros elementos estéticos que tornam a visão ainda mais interessante, mas que fazem parte da narrativa de forma quase surpreendente – muitos vão mesmo se surpreender com o que o filme foi capaz de fazer com a cultura chinesa, algo que infelizmente não ocorreu com o tão esperado Mulan (2020).

E, ainda sobre aspectos técnicos do longa, sua trilha sonora traz elementos pop e folclóricos, e os mistura de forma quase tão marcante quanto Pantera Negra (2018) o fez. Contando com uma direção de arte tão boa quanto a fotografia, há, ainda, os detalhes que ganham espaço no terceiro ato, o desfecho, e que encherão os olhos do espectador, além de provavelmente emocioná-lo.

Fonte: Reprodução/Disney

Personagens cativantes e arcos que convencem fecham a história

Com a direção de Destin Daniel Cretton, que também assina o roteiro, ao lado de Dave Callaham e Andrew Lanham, este Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis é uma grata surpresa, e sua experiência é mesmo imersiva, do início ao fim, graças ao conjunto de fatores que se combinaram muito bem: elenco afiado, roteiro amarrado, técnica impecável e diversão garantida do começo ao fim.