Crítica | Sex/Life – 1ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 09 de novembro 2021 ás 12h00

O softporn é um conceito relativamente recente, ou ao menos popularizado novamente há pouco tempo. Trata-se de uma forma de trazer histórias eróticas à cultura pop, transformando-as em algo mais aprazível, ou seja, não tão escandaloso quanto a pornografia em si. A exemplo disso, estão filmes como Cinquenta Tons de Cinza (2015) e 365 Dias (2020), além desta série da Netflix, Sex/Life (2021).

Assim, o que há cerca de trinta anos se popularizou na literatura, agora o conceito fala forte na produção audiovisual, e arrecada milhões através de histórias romantizadas que envolvam realizações sexuais. Quer saber como? Simples: é quase regra que a premissa desse tipo de história precisa ser simples, como uma pessoa que passa pela tradicional crise de relacionamento, ou alguém incauto que precisa se libertar sexualmente para descobrir a felicidade. Aqui, no caso, é a primeira opção.

Billie Connelly (Sarah Shahi) é uma mulher que precisou abandonar carreira, sonhos, desejos e anseios para cuidar da casa e de seus dois filhos. Prestes a entrar no pós-doutorado, ela deixou tudo de lado, e o começo desta história é justamente quando ela começa a questionar a sua felicidade, pois, repentinamente, se lembrou de um grande amor, com quem era feliz e podia ser si mesma, mas que a abandonou pelo simples fato de ser um predador sexual. O problema é que Billie trouxe suas memórias à tona em um diário digital, e seu marido o encontrou.

Crítica | Sex/Life – 1ª Temporada
Reprodução/Netflix

A premissa é interessante, mas o roteiro é frágil e bobo

Desde que Cooper (Mike Vogel) leu as fantasias de sua esposa com um ex-namorado, o relacionamento de ambos entrou em um declínio completo. Ele, que nunca sequer questionou sua própria felicidade ao construir um relacionamento forte, provendo sua família e oferecendo o máximo conforto e comodidade, agora se viu em um abismo repleto de questionamentos, e nenhum deles era seu, enquanto se entregou à carreira para garantir estabilidade financeira a Billie e seus dois filhos.

Porém, como se o problema para o casal já não fosse grande o suficiente (trocadilho para quem viu a Sex/Life), a volta do tal ex-namorado, Brad (Adam Demos) transforma-se em um verdadeiro inferno, porque as suas investidas certeiras fazem com que Billie se questione sobre o que verdadeiramente quer para a sua vida: a estabilidade de uma família confortável e feliz ou a paixão ardente de um relacionamento que mais parece uma montanha-russa. Enquanto isso, Cooper passa por suas próprias provações.

Assim, os oito episódios da primeira temporada se transformam em um novelão erótico, cujas cenas se apresentam como o tempero central e provocativo aos mais conservadores, justamente ao questionar o famoso “sonho americano”. Porém, é justamente o tempero o maior problema deste seriado: ele não funciona, e as cenas são tão apáticas que muitas vezes não conseguem cumprir nem a função narrativa e nem a questão do erotismo.

Reprodução/Netflix

É incrível como uma protagonista é tão mal explorada

O que mais incomoda, porém, é o fato de Sex/Life apresentar uma mulher ao melhor estilo dos livros de Sidney Sheldon e Danielle Steel, cujo protagonismo depende de um homem para funcionar, um conceito mais do que ultrapassado: desnecessário. Com isso, apesar de panfletar o empoderamento feminino, a série funciona mais como o já citado 365 Dias, que maquia a protagonista com falas atuais enquanto suas atitudes a remetem a pelo menos trinta anos atrás.

Assim, é uma pena acompanhar a trajetória de Billie, que não consegue se decidir se vai ou se fica, e que levanta questionamentos tão desinteressantes que sua melhor amiga, Sasha (Margaret Odette) se torna muito mais intrigante. Com isso, o que torna tudo ainda pior é o “sexo higiênico”, quase plástico demais para parecer o ato de dois seres humanos, e não de atores pornôs – e, caso acontecesse, não teria problema algum, desde que fizesse parte da premissa, o que não acontece. O resultado, portanto, é o relacionamento quase poligâmico entre dois homens Alfa com uma mulher que não se decide se quer ser submissa no sexo ou em casa.

Desta forma, Sex/Life caminha para um desfecho que beira o ridículo, se não fosse a repentina ideia de Stacy Rukeyser, criadora e responsável pelos direcionamentos do roteiro, que conta com mais dez mãos, de empoderar de fato todos os questionamentos de Billie no terceiro ato desta temporada. Ali, prestes a encerrar o ciclo, a protagonista flerta com uma realidade mais crível, e muito mais interessante, algo que descamba para os minutos finais tão destoantes do ano de 2021 quanto o absurdo de se passar por uma pandemia enquanto há terraplanistas à solta.

Reprodução/Netflix

O resultado é uma pena de ser visto por todas as gerações

Sex/Life tem um título preciso, e a série começa com os diversos questionamentos que acometem qualquer casal que há muito tempo deixou de prestar atenção em si: a felicidade é mesmo real quando compartilhada? Crianças tiram a libido e as descobertas sexuais entre parceiros e pais? O passado pode mesmo assombrar um casal ou isso é coisa de Hollywood?

As respostas estão todas lá, mas, infelizmente, elas conseguem ser frágeis, e não funcionam tão bem quanto uma produção softporn poderia fazer hoje em dia. Com isso em mente, o espectador poderá apenas buscar por diversões eróticas, mas nem isso agrada, sobretudo a geração que se acostumou ao acesso à banda larga. O que é visto em tela soa artificial demais para ser levado a sério, e a internet está aí para provar que nem mesmo a literatura ou o audiovisual tradicional conseguem se manter em pé tempo demais.