Crítica | Sex Education – 3ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 05 de outubro 2021 ás 12h00

Desde que foi lançada pela Netflix, Sex Education (2019 – atual) é o tipo de conteúdo que consegue reunir temáticas relevantes aos tempos modernos, personagens complexos e muito bem desenvolvidos e assuntos essenciais ao desenvolvimento humano de qualquer geração. Não é à toa que tenha se tornado um dos principais produtos do serviço de streaming, e a sua terceira temporada é a comprovação máxima de que uma série pode envelhecer, mas o seu roteiro pode ficar cada vez melhor.

Assim, desde que Otis (Asa Butterfield) foi apresentado ao espectador, há uma mistura de carinho e severidade por parte do público com o jovem, que tem boníssimo coração, mas cujas ações se atrapalham a ponto de causar estragos na vida dos outros de forma mais brutal do que gostaria. Porém, agora o terceiro ano chegou e ele precisa lidar com o novo relacionamento com Ruby (Mimi Keene), enquanto sua mãe, Jean (Gillian Anderson), aprende a viver com a gravidez inesperada beirando os cinquenta anos.

Tanto um quanto outro passam por suas respectivas provações, e isso faz com que o espectador tenha a oportunidade de se aprofundar na relação conflituosa de ambos. Mas, ainda que Otis e Jean tenham seus respectivos avanços, é a valorização de outros personagens o que torna esta terceira temporada espetacular, algo muito bem realizado no ano anterior, que agora simplesmente continua o excelente trabalho. Com isso, o roteiro feito a nada menos que 22 mãos espanta pela precisão e por conseguir criar um arco coeso, mesmo com tantas cabeças a desenvolver.

Crítica | Sex Education – 3ª Temporada
Reprodução/Netflix

Tudo vira um caos na Moordale High, e está tudo bem

Agora, a escola na qual Otis e Maeve (Emma Mackey) aplicavam seus conselhos sexuais foi dominada por uma diretora ultraconservadora, apesar de sua aparência moderna – a comprovação do conto do lobo em pele de cordeiro. Então, a diretora Hope (Jemima Kirke) transforma a escola Moordale High em um projeto conceitual que bane todo o tipo de expressão artística e sexual de seus alunos, o que prejudica imensamente o desenvolvimento de tantas pessoas quanto de seus respectivos futuros.

Para piorar, a temporada inteira parece levantar o caos na vida de seus personagens, e o espectador ficará com o coração partido com os desentendimentos ocorrentes. Por sua vez, ainda que seja uma técnica de roteiro bastante utilizada, o cliffhanger, ou simplesmente gancho, faz com que os episódios soem orgânicos uns aos outros, com a sede do roteiro em apresentar desfecho após desfecho, sem a preguiça que infelizmente parece ter acometido boa parte dos seriados atuais: a famosa manteiga esticada no pão, sendo a manteiga a alegoria para conteúdo, e o pão a história em si.

Ainda sobre a capacidade de Laurie Nunn, criadora da série e responsável pela equipe de roteiristas, é visível o trabalho de pesquisa para transformar temas atuais, como o amor queer e a representação dos não-binários, além da culturalidade e variedade de raças e credos estarem presentes como algo orgânico, ao invés de simplesmente incluir representatividade por minorias, o que soaria artificial. Há, portanto, o cuidado com o roteiro em transformá-lo em símbolo, sim, mas jamais em panfleto.

Crítica | Sex Education – 3ª Temporada
Reprodução/Netflix

Não existe coadjuvante em uma temporada de protagonismos

Enquanto tudo acontece, Eric (Ncuti Gatwa) descobre a sua segurança como indivíduo, muito acima de sua sexualidade, o que dá, em consequência, serenidade em ser quem de fato é sem receio algum. Por sua vez, Maeve tem um dos arcos mais difíceis e emocionais, e a sua relação com Aimee (Aimee Lou Wood) evolui de tal forma que esta se mostra como uma das melhores personagens da temporada inteira. Além disso, há tudo o que envolve o emblemático Jackson (Kedar Williams-Stirling), a sempre corajosa Lily (Tanya Reynolds) e tantos outros.

Portanto, enquanto existe um arco para cada personagem, existe a descoberta de todos, que se encontram no meio do caminho entre o conformismo e a luta pela identidade. Sem jamais parecer piegas, a série explora tudo com humor, e há diversos momentos hilários que merecem aplausos. Outros, entretanto, são emocionais e importantes para que certos tabus sejam quebrados. Porém, em nenhum caso a terceira temporada de Sex Education é brega ou ultrapassada, e isso é um mérito em si, pois seu propósito é justamente o de ofertar um diálogo com o adolescente dos anos 2020.

Ao trazer temas preciosos, como identidade sexual, fetiches, gravidez na maturidade, assédio e importunação sexual, divisão de classes, identidade cultural, lugar de fala, reclusão e depressão, suicídio e tantos outros temas, é comovente como tudo se encaixa bem quando bem escrito e dirigido, e a equipe que comanda os episódios conseguiu criar coerência entre um trabalho e outro.

Crítica | Sex Education – 3ª Temporada
Reprodução/Netflix

Qualitativamente relevante, narrativamente envolvente

Além disso, há outros méritos que merecem relevância, como a fotografia excepcional de Jamie Cairney e Oli Russell, e a trilha sonora escolhida a dedo, com a transformação minuciosa de cada cenário e de cada figurino em características genuínas daqueles personagens e de suas respectivas passagens.

Contudo, é mesmo o elenco que brilha de forma quase unitária, pois é difícil destacar apenas um ou outro artista. Todos estão como luvas em seus personagens, e estão à vontade para explorar suas vozes, expressões e corpos como se soubessem da importância da série para tantas pessoas que a assistem. Mas, mais uma vez, a qualidade não está apenas na escolha dos temas, e sim como eles foram desenvolvidos.

Portanto, Sex Education é o tipo de conteúdo necessário, sim, mas essencialmente divertido, qualitativamente relevante e narrativamente envolvente. Uma brincadeira, um jogo de palavras para defini-la, como ela mesma o faria, brincando com o comportamento de todos, apresentando a sexualidade como algo (necessariamente) natural, e aproveitando seu tempo para quebrar tabu por tabu.