Crítica | Round 6 – 1ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 26 de outubro 2021 ás 12h00

Quem nunca esteve em uma enrascada financeira que atire a primeira pedra. Com a inclusão de centenas de pessoas em um jogo inicialmente misterioso, Round 6 (2021-atual), da Netflix, leva o espectador a um violento processo de autodescoberta, no qual as pessoas são levadas a uma ilha isolada do mundo, cujo cenário construído remete a um gigantesco bunker, com salas ilustradas para que diversas brincadeiras infantis coreanas fossem realizadas. O grande problema, porém, é que perder qualquer jogo aqui é mortal.

Seong Gi-hun (Lee Jung-jae) é uma dessas pessoas, cuja crise financeira se instalou de tal forma em sua vida que nada mais parece dar certo. Pai de uma garota de cerca de dez anos, que vive com a mãe e o padrasto e estão prestes a deixar a Coreia do Sul, Gi-hun vive com sua mãe e é tratado por ela e por todos que o conhecem como um trambiqueiro de bom coração, mas que não consegue fazer nada acontecer de maneira correta em sua vida. O resultado é uma imensa bola de neve de dívidas, com agiotas e com bancos (ou seja, instituições com propósitos iguais, mas escalas diferentes).

Quando Gi-hun é convidado a participar de um típico jogo infantil, no metrô, ele não se dá conta de que o seu vício pela jogatina pode ser a sua perdição. A partir dali, o protagonista é convidado a participar de uma misteriosa incursão, cujo prêmio bilionário pode salvá-lo de todos os problemas e, inclusive, dar melhores condições a sua mãe e filha. No final das contas, é a história típica do perdedor que sonha em ser herói, e não medirá esforços para que isso aconteça. Ao aceitar o convite, Gi-hun é levado inconsciente a uma ilha, e ali as coisas mudam de cenário, literalmente.

Com a promessa de que poderá receber uma bolada, Gi-hun percebe que não é o único. No mesmo bunker, estão centenas de outros participantes, de idades, gêneros e classes sociais diversos, mas todos com o mesmo propósito: precisarão participar de alguns jogos para conseguir levar o prêmio para casa. Porém, toda a equipe que os guia é, além de hostil e breve em suas palavras, ornamentada com vestes vermelhas, dos pés à cabeça, com uma máscara que os diferencia apenas pelo símbolo presente em sua face gradeada e preta: um círculo, um quadrado ou um triângulo.

Reprodução/Netflix

Que os jogos comecem!

Os jogadores desta Round 6 precisam passar, como o nome adotado no Brasil sugere, por seis jogos. Porém, os perdedores de cada um são mortos ali mesmo, o que causa espanto no primeiro deles, o já icônico “Batatinha 1, 2, 3…”. Para cada morte contabilizada, o prêmio em dinheiro aumenta. No total, com apenas um vencedor pretendido, será de 45,6 bilhões de wons, moeda coreana que corresponde a cerca de R$ 220 milhões. Nada mal para saldar as dívidas, não é mesmo?

Ao acompanhar Gi-hun, o espectador conhecerá diversos outros participantes, cada qual com uma função bastante marcante no roteiro desta série, que se ocupa em construir o típico cenário de sobrevivência que faz quem a assiste se questionar sobre seus próprios princípios e valores, e aqui está uma das melhores qualidades da obra. Ao apresentar outras pessoas, com diferentes pensamentos, a série se preocupa em desenvolvê-las e faz isso do início ao fim de cada personagem. Há espaço, ainda, para a construção de laços e para a criação de inimizades, enriquecendo a aquarela desenvolvida.

Enquanto os jogos acontecem, porém, o fator humano se sobressai, e os dois primeiros terços desta temporada inicial, que conta com nove episódios, são completamente envolventes. Gi-hun se torna apenas uma das peças-chave, ainda que sua história seja a do arco principal. Felizmente, o roteiro do criador e também diretor de Round 6, Hwang Dong-hyuk, faz com que os coadjuvantes ganhem espaço, como é o caso da sempre misteriosa Kang Sae-byeok (Jung Hoyeon), de Cho Sang-woo (Park Hae-soo) e do enigmático Oh Il-nam (Oh Yeong-su), três personagens definitivamente carismáticos.

Reprodução/Netflix

A construção dos cenários é primorosa

Tão importante quanto os personagens e suas histórias, sobretudo em um jogo de sobrevivência construído por alguém misterioso e, definitivamente, sociopata, são os cenários nos quais os jogadores são levados. Sempre em dúvida de qual será o próximo passo, cada pessoa é um gancho para o espectador se prender ao desespero que luta pela vida traz, e outro sucesso da série está na forma com a qual cada detalhe é apresentado, pois ali existe um universo próprio, questionado o tempo inteiro pelo policial infiltrado, Hwang Jun-ho (Wi Ha-Joon), cujo arco terá certa importância no terço final.

Da primeira surpresa da boneca gigante de olhos assassinos à antiga vila reconstruída para as bolinhas de gude, da áspera sensação que o jogo de corda até a ponte dos vidros. Tudo foi devidamente criado para trazer impacto, e cores vibrantes são colocadas em formas infantis, pois a intenção dos criadores daquele sistema todo é uma só: ver a luta pela sobrevivência do mais forte, uma clara metáfora à Roma antiga e os duelos dos gladiadores. Aliás, a figura de linguagem é o principal fio-condutor desta série.

Com personagens bem dosados e cenários construídos aos detalhes, a série conquista porque apresenta um pano de fundo muito mais crítico do que as brincadeiras sangrentas e a corrupção em camadas sucessivas por trás de tudo aquilo. É uma clara alusão ao capitalismo exacerbado, e como as vidas se tornam apenas números, sobretudo para os poderosos mandachuvas mascarados que, na série de forma real, e na realidade de forma figurativa, comandam os jogos do mundo apenas pelo poder e pela diversão.

Reprodução/Netflix

Como a série muda o jogo

Com a chegada de Round 6, a Netflix claramente se posiciona como um forte player dos streamings, e sua estratégia de abraçar produções audiovisuais de diferentes países continua surtindo efeito. Desta forma, a gigante do entretenimento se garantiu, mais uma vez, com um produto de alta qualidade e, principalmente, de temática relevante, sem com isso deixar de lado duas funções principais e fundamentais para o sucesso todo: divertir e fazer refletir.

Ainda que seu terceiro ato, ou o terço final, não seja tão coerente com o produto apresentado até então, com a clara intenção de abrir um arco para mais temporadas, esta obra é essencialmente um convite para o espectador do século XXI: ela entretém e deixa de lado antigas amarras, e apresenta soluções inteligentes para questionamentos duvidáveis. Quer um exemplo? A inesquecível Han Mi-nyeo (Kim Joo-Ryung), mulher extremamente forte e com princípios que foram duvidados até o fim. Repetindo: até o fim.

O impacto de Round 6 é justamente esse: entrega personagens adoráveis, e não porque são corretos, mas porque são humanos e, como tal, passíveis de falhas. Como é de se esperar, a torcida do espectador aumentará conforme os episódios são assistidos, e a experiência que resta, ainda que seu desfecho seja aberto demais, é um jeito diferente e agridoce de enxergar a sede por poder – e como ela faz parte da natureza humana.