Crítica | Ron Bugado

Denis Le Senechal Klimiuc  - 22 de outubro 2021 ás 14h00

Ron Bugado (2021) é o tipo de animação que encanta por sua simplicidade, e a displicência do marketing ao seu redor pode render mais fãs do que a divulgação massiva que a Disney costuma fazer. Isso porque este é um produto resquício da antiga Fox, por enquanto rebatizada de 20th Century Studios, e que foi feito com base na competência dos roteiristas Peter Baynham e Sarah Smith, esta também diretora ao lado de Jean Philippe Vine. O resultado é uma obra que trata dos temas abordados com transparência e maturidade.

Assim, é bem capaz de você deixar escapar Ron Bugado dos cinemas, mas é bem provável que sua fama chegue no Disney+, onde encontrará o abraço do público em família, algo ainda incomum à época de sua estreia nas telonas. Seja como for, as aventuras do jovem Barney (Jack Dylan Grazer) e de seu robô que não funciona direito parece vista em outras obras, mas, ao mesmo tempo, é autêntica o suficiente ao criar seu próprio universo, não referenciando uma cultura já existente, e sim satirizando o comportamento capitalista em primeiro lugar.

Com isso em mente, o espectador vai encontrar a vida de um garoto que vive com seu pai, Graham (Ed Helms no original e Marcelo Serrado na versão brasileira), e sua avó Donka (Olivia Colman). Diferente de todas as crianças da escola, Barney não tem o seu robô multiuso de estimação, mesmo que ele seja tão comum que, na escola, todos ficam em um lugar especialmente preparado para que fiquem desligados e não atrapalhem as crianças na aula. Aliás, o protagonista também não tem outras crianças como amigos, e aqui está a essência do filme.

Reprodução/Disney

As dores do crescimento fazem parte do filme

Quando Barney era mais novo, ele tinha diversos amigos, que frequentavam sua casa e desfrutavam da cultura diferente de seu lar. Mas o tempo passou e as dores do crescimento começaram a fazer parte de seu dia a dia de forma presente, mais do que as alegrias, diga-se de passagem. Com a chegada dos robôs, Barney se isolou ainda mais dos demais – ou foi isolado, principalmente por ser o único a não contar com o apoio da tecnologia o tempo inteiro.

Aliás, com o formato de cápsula e do tamanho de um cachorro médio, os robôs mudam de forma, servem se transporte, de rede social automatizada, mudam de cor e comunicam toda a vida virtual de seus donos. Eles os ajudam, também, a construírem suas imagens, em um mundo no qual os smartphones e tablets já perderam o sentido. A empresa, multibilionária detentora dos direitos é a Bubble, cuja ambiência equivale bastante ao que a Apple faz.

Então, com a criação de um estilo de vida, os novos adolescentes se esquecem do que a vida real significa, e foi preciso um robô defeituoso, presente ganho por Barney, para fazer a diferença. Ron (Zach Galifianakis) faz a voz original, mas vale lembrar que a versão dublada em português está sensacional. O tal robô não consegue se conectar à rede em nenhum momento, e ele precisa aprender a conhecer seu dono como outro ser humano o conheceria: vivendo e aprendendo. Pela primeira vez em muito tempo, Barney encontra um amigo.

Reprodução/Disney

A discussão sobre uso de tecnologia é atemporal

Mark (Justice Smith no original e Sergio Malheiros na versão em português) é o criador dos robôs, ainda que tenha feito isso de forma idealista, mas o resultado foi muito além do que pretendia. Ao invés de estimular as crianças a  se conhecerem, seu projeto se tornou o equivalente aos celulares de hoje: escravizou a atenção de seus donos. E a crítica, apesar de sutil, está presente em todo o filme, algo que os mais velhos vão perceber rapidamente, sobretudo pelo efeito bastante realista causado aos jovens e sua sede por popularidade nas redes sociais.

Além disso, outra grande qualidade do longa é tratar seus personagens pela idade que têm. Ali estão jovens que acabaram de chegar à adolescência, e que são geralmente deixados por seus pais à mercê da tecnologia. Todos precisam daqueles robôs porque já não sabem mais fazer conexões reais, e, neste mundo no qual Barney é isolado dos demais, todos o esqueceram por ser a única criança incapaz de transitar pelas mesmas condições sociais e tecnológicas.

Reprodução/Disney

Eis uma ótima opção para se distrair e refletir

Em Ron Bugado, é bem provável que o espectador se divirta muito, pois as piadas trazidas pelo robô são hilárias, e povoam o filme de forma equilibrada, enquanto as nuances mais sérias são deixadas mesmo a cargo de Barney. Regado ainda por diversos coadjuvantes eficazes em suas construções, como a avó durona e a garota fútil que toma um choque de realidade, o filme é uma produção bem equilibrada, de gráficos atuais, ainda que simples.

Se o espectador estiver em busca de uma animação genuinamente positiva, esta é uma ótima opção. Seja como for, a experiência trará a sensação incômoda de que todos estão mesmo escravizados pela tecnologia e, seja em casa ou no cinema, a espiada no celular para fingir que viu a hora, mas que na verdade é para conferir as notificações será a prova disso. Portanto, como Ron Bugado bem ilustra, viva as conexões reais!