Crítica | Rick and Morty – 5ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 18 de outubro 2021 ás 12h00

Desde que foi lançada, Rick and Morty (2013-atual) mudou o cenário das animações que tratam de conversar diretamente com o público adulto, sem subestimar de forma alguma sua inteligência, maturidade e alcance dramático. Com senso de humor extremamente ácido e jamais se importando com o politicamente correto, a série sutilmente se transformou em referência de suas próprias referências, e hoje seus criadores, Justin Roiland e Dan Harmon, são cultuados no mundo inteiro.

Não é à toa que a quinta temporada, lançada diretamente no HBO Max, depois de a série ganhar toda a repercussão pelas mãos da Netflix, e ser originalmente exibida pelo canal Adult Swim, aumentou muito o nível do espectador, ainda que este já estivesse acostumado aos roteiros sempre inventivos e altamente filosóficos. Parece, porém, que a quinta temporada aproveitou a oportunidade de a série já ter conquistado uma legião de fãs, pois conseguiu não só reinventar sua própria mitologia, como também rir de si mesma – e a participação do avatar de Stan Lee é, talvez, o exemplo do mais alto padrão trazido à tona.

Assim, partindo do pressuposto de que a incursão em outro streaming não atrapalharia em nada a experiência do espectador, Rick and Morty traz uma quinta temporada impecável, com dez episódios prontos para divertir a ponto de ser hilária, mas também emocionar (veja só), por homenagear a cultura pop ocidental e oriental, abraçar ainda mais o lado nerd de seus fãs e, principalmente, por saber explorar ainda mais seus protagonistas.

Reprodução/Warner

Rick and Morty estão mais ácidos, e isso é ótimo!

Partindo da premissa de que os personagens evoluíram com suas experiências nas demais temporadas, e que uma série de explicações sobre a existência de diversas versões tanto de Rick (Justin Roiland) quanto de Morty (também Justin Roiland!) fez com que a realidade da Terra na versão acompanhada na maior parte do tempo pelo espectador se tornasse mais calejada. Com isso, Rick se tornou ainda menos tolerante, mas o que mais o afetou nesta temporada é o excesso de experiências que, como já era considerado como a mente mais inteligente do universo, fez dele alguém simplesmente blasé com tudo.

Por sua vez, Morty está repleto de cicatrizes emocionais, e sua maturidade é sentida através de suas atitudes, que não soam mais tão ingênuas, o que é corajoso do ponto de vista narrativo, pois o personagem ganhou nuances amargas, tornando-o uma versão que ecoa ao que o próprio Rick representa. Nada melhor, então, do que trazer uma Summer (Spencer Grammer) completamente rebelde, cansada da mesmice depois de conhecer o universo em outras oportunidades e, portanto, com a audácia à qual o espectador acostumou-se a ter por parte dos protagonistas.

Além deles, o casal vanilla Beth (Sarah Clarke) e Jerry (Chris Parnell) ganhou menos destaque nesta temporada, mas o papel de cada um é fundamental para servir de base aos demais personagens e, pouco a pouco, então, Rick and Morty ganha nuances mais maduras, o que apresenta uma evolução e tanto para a criação de Roiland e Harmon, sobretudo porque o roteiro está mais seguro de sua metalinguagem, e aproveita todos os episódios para explorar detalhes já apresentados antes, sejam eles grandes ou pequenos. Há, por exemplo, uma continuação direta do episódio da Cidadela, apresentado na temporada 3, no episódio 7.

Reprodução/Warner

Os dez episódios perpetuam a mitologia da série

Vale lembrar, aliás, que a divisão dos episódios é fundamental para a completa compreensão de quem assiste à série: personagens como o Mr. Nimbus (Dan Harmon), o inimigo mortal de Rick, trazem outra tonalidade ao casal Jerry e Beth, e mostram como o cientista é vulnerável dentro de suas próprias limitações, todas emocionais, diga-se de passagem. Por sua vez, o episódio “Mortyplicity” conversa com as outras versões dos mesmos personagens, desta vez em dimensões tão diferentes que, em alguns casos, se transformam em bonecos.

Há, também, a perda da virgindade de Morty, em um arco hilário com a participação de Planetina (Alison Brie), e a brincadeira espetacular com os portais quando Morty está impedindo as tragédias que as ações de Rick causam em diversos planetas, e acaba transformando sua própria mão em um portal. Enquanto isso, Rick está mais preocupado em lidar com a transformação do presidente dos Estados Unidos (Keith David) em um peru. Por último, vale ressaltar a brincadeira com Evangelion trazida à tona, em um dos episódios mais bem construídos da temporada.

Seja como for, com rápidos capítulos que se transformam em grandes motivos de reflexão, a quinta temporada de Rick and Morty é capaz de gerar estudos a partir de suas próprias premissas, algo que a série vem trabalhando desde o início. Aqui, porém, parece ter encontrado o ápice de sua maturidade, e é visível que o próximo passo é depender menos de referências que dominem os arcos principais, transformando-as em homenagens, enquanto o roteiro adota o tom de autoindulgência satírica.

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Uma série animada feita para pessoas inteligentes

De fato, Rick and Morty é uma série animada feita para pessoas inteligentes, e a suposição não é excludente, como seria mais fácil de presumir. Ao contrário, pois a série dá a oportunidade de criar diversas reflexões a partir de três premissas: suas teorias, suas homenagens e suas piadas. Desta forma, o espectador pode compreender a mitologia referencial ou a criada, e está tudo bem, porque as piadas se encaixam perfeitamente nas lacunas entre um item e outro.

Além disso, como a série está avançando em relação à construção de seus protagonistas, o universo trazido por questões existenciais, que envolvem tanto a multiplicidade de mundos e realidades quanto as cópias existentes de Rick e de Morty – no final das contas, a equação é enorme, tudo, no sentido literal e figurativo, importa para que a série seja uma experiência e, portanto, mais do que simples entretenimento.

Rick and Morty se transformou com o passar do tempo. Diante do espectador, ganhou representatividade, pois saiu da sutil participação em um canal alternativo até o mainstream, e a série não se importa nem um pouco com isso, ao melhor estilo do cientista alcoólatra. Por sua vez, soube trazer um lado doce e audacioso, que se reflete tanto na maturidade do jovem de quatorze anos quanto na sensação passada ao espectador, que se tornou completamente dependente desse mergulho refrescante na essência da ficção científica.