Crítica | Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City

Martinho Neto  - 11 de janeiro 2022 ás 12h05

É impossível falar sobre Resident Evil nos cinemas sem mencionar o seu sucesso comercial — uma das únicas adaptações de games a conseguir esse feito. Por outro lado, também é consenso que a série de filmes encabeçada pelo casal Milla Jovovich, como protagonista, e Paul W. S. Anderson, como mente criativa, nunca respeitou apropriadamente a história original dos jogos, sendo motivo de revolta constante entre os fãs da franquia da Capcom. Depois de inúmeros recomeços e tentativas de agradar, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City chega cinco anos após a última adaptação, pela primeira vez sem o envolvimento de Anderson e Jovovich e com a promessa de finalmente atender aos pedidos dos apreciadores dos games. Porém, basta 1 hora e 47 minutos após o play para entender que somente referências ao material-base estão longe de garantir um produto final de qualidade.

Para atender às demandas dos fãs, o diretor Johannes Roberts foi o escolhido para dirigir e escrever o roteiro. Sua estratégia foi mesclar os acontecimentos dos dois primeiros jogos em uma narrativa única, colocando Claire Redfield (Kaya Scodelario) como protagonista, mas também dando espaço para outros nomes consagrados da franquia, como seu irmão Chris Redfield (Robbie Amell), além de Albert Wesker (Tom Hopper), Jill Valentine (Hannah John-Kamen) e Leon Kennedy (Avan Jogia). O diretor até consegue a proeza de transformar o enredo dos dois games em uma história palatável de origem única e que por pouco não consegue se manter totalmente coesa. Suas intenções são visíveis: rebootar a franquia e deixar o espaço aberto para futuras continuações. Porém, Roberts não consegue ser enfático na característica mais importante do filme, ficando em cima do muro entre replicar o estilo de W. S. Anderson ou abandoná-lo de vez.

Divulgação/Sony Pictures

Isso fica claro no momento em que a história é frequentemente deixada de lado em prol das sequências de ação e terror que permeiam o longa. Acontece que era exatamente nisso que as obras anteriores da franquia se sustentavam, especialmente a partir do 4º filme, em que Anderson entendeu e abraçou a galhofa para entregar um puro entretenimento descerebrado. Quando Roberts se utiliza das mesmas técnicas, ainda que em menor escala — devido ao orçamento limitado —, vemos uma emulação do estilo anterior, com a única diferença de tentar recriar cenas icônicas dos jogos ao invés das concepções do cineasta. Note que não há mal nenhum em construir um filme inteiro ao redor de cenas grandiosas, chamadas também de set pieces — um exemplo muito bem-sucedido é Missão Impossível: Efeito Fallout (2017). Porém, não pode haver dúvidas quanto ao estilo que se quer adotar, e isso não é visto em Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City.

Se na parte da ação poucas sequências se salvam — como uma ótima cena na mansão, em que os infectados são enfrentados no escuro — ao menos na narrativa esperávamos algo de qualidade. Acontece que nem mesmo esse aspecto se mostra satisfatório. A trama se divide em dois núcleos igualmente problemáticos: o grupo com Wesker, Jill e Chris se desenvolve a partir do segundo ato na Mansão Spencer, local bastante propício para o filme evoluir, mas que, na prática, surpreende apenas pelo cuidado ao replicar todos os ambientes; Já propriamente em Raccoon City, nem a chuva de referências é capaz de dar alguma profundidade ao lugar. A começar pela própria cidade, tão icônica nos jogos mas que no longa poderia se passar em qualquer lugar dos EUA que não faria diferença. Pouquíssima textura e locais sem detalhes marcantes já dificultavam, e tudo piora à medida que se adentra à noite, quando surge uma névoa que apenas embaça todas as direções.

Divulgação/Sony Pictures

Os personagens são os que mais sofrem na mão de Roberts. Isso porque, ao não ser capaz de definir o estilo a ser adotado pela adaptação, quem perde tempo de tela e deixa de ser desenvolvido são justamente os que mais precisam. Wesker e Jill são relegados a sequências curtíssimas e a um plot twist praticamente sem construção alguma, com ambos funcionando apenas quando estão interagindo em grupo. Enquanto isso, os irmãos Redfield ganham algumas cenas na tentativa de criar uma veia dramática que simplesmente não funciona, seja pela atuação problemática de ambos, seja pelas inserções de referências obrigatórias que parecem não encaixar no filme — como quando a clássica frase “Itchy, tasty” é mencionada.

Sem falar nas participações de personagens secundários apenas por conveniências de roteiro, como o Dr. William Birkin (Neal McDonough), ou pior, quando gastam tempo para desenvolver tramas paralelas que não levam a lugar nenhum, como Lisa Trevor (Marina Mazepa), que aparece várias vezes em flashbacks de Claire em mais uma tentativa de aprofundar a protagonista. Todas essas decisões culminam em Leon, talvez a mais polêmica adaptação de Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City. Vemos algo muito distante do que é apresentado nos jogos, e mesmo compreendendo a opção de não reproduzir alguém com poucas expressões (algo que funciona nos games porque o jogador insere a sua própria personalidade no personagem), a ingenuidade e as tentativas de humor não parecem casar com sua persona.

Divulgação/Sony Pictures

O cuidado com a reprodução de certos detalhes e cenas da mesma forma como é vista nos games mostra que Roberts estava cheio de boas intenções. Mas a sua inabilidade de abraçar uma proposta nova e a incapacidade de abandonar totalmente o estilo antigo, ficando em um meio termo entre os dois, prejudicaram o maior mérito da obra: entreter o público. Somando isso a uma história que mais parece um labirinto, em que vários caminhos não possuem saída e dão de cara com a parede, temos um produto que acaba falhando até mesmo em sua razão de existir. Se o plano era produzir uma adaptação fiel entre os games, o que foi feito com roteiro e personagens é bastante questionável, afinal, para obter êxito nesse objetivo, não basta apenas reproduzir as mesmas cenas dos jogos — para isso já temos as obras originais. Talvez ainda haja espaço para a franquia Resident Evil no futuro, partindo deste Bem-Vindo a Raccoon City. Mas se pararmos por aqui, fica apenas a certeza de que era melhor permanecer com (apenas alguns) filmes de Paul W. S. Anderson.