Crítica | Raya e o Último Dragão

Denis Le Senechal Klimiuc  - 15 de setembro 2021 ás 12h00

A força de uma princesa da Disney vai muito além do que sua história: ela é, sim, um reflexo de seu tempo, mas isso significa, também, que quaisquer princesas de suas animações podem ser estudadas ao longo dos anos, gerando curiosidades imbatíveis, como as mudanças de comportamento e o espaço que ocupam, como mulheres, em suas respectivas histórias. Isso significa, então, que este Raya e o Último Dragão (2021) nada mais é do que um produto de seu tempo? Sim, e isso é ótimo.

Aqui, o espectador vai conhecer a história de Raya (Kelly Marie Tran), uma jovem que ajuda seu pai a proteger uma joia, fundamental para a vida e para a harmonia dos seres humanos de sua época. Com isso, a história leva quem a acompanha diretamente à mitologia oriental, de nuances chinesas, mas que também abrange a origem dos povos, significando tudo em um só lugar: Kumandra.

Kumandra, aliás, ganha um significado especial: a partir da joia que determina a harmonia do mundo em um só povo, ainda que dividido em reinos, é a essência por trás do nome que permitiu ao mundo conviver em harmonia. Aliás, o que permite ao mundo ser protegido é justamente a força de seus dragões, mas tudo é dizimado quando espíritos malignos surgem e conseguem vencer, e a divisão dos reinos se torna tristemente ameaçadora, pois a humanidade, sem os seus dragões, traz o que tem de ruim à tona: a mesquinhez.

Reprodução/Disney

A melancolia da solidão e a criação de personagens cativantes marcam a animação

Quando Raya passa por uma revoltante situação, na qual foi enganada e levada à ação que faz com que a joia, protegida até então por seu povo, seja despedaçada e dividida pela ganância dos outros reinos, o mundo volta a receber os tais espíritos malignos, até então presos pela proteção da joia. Com isso, toda a paz se dissolve, e a realidade até então conhecida por Raya desmorona.

O mundo é tomado pelos espíritos, enquanto os líderes dos reinos conseguiram fugir e esconder seus respectivos pedaços da joia. Até então protegida por seu pai, Raya passa a conviver somente com seu animal de estimação, Tuk, uma espécie de tatu-cachorro, que inicialmente é pequenino, mas que se transforma em uma gigante criatura, apta a levar a garota, que também cresceu na solidão, para onde precisa no árido mundo que se formou.

Desde pequena, então, Raya acredita na mitologia por trás de tudo o que ouviu falar, pois, como toda lenda, o tempo pode ser cruel à memória de um povo, sobretudo quando ela não é disseminada, não ganha continuidade. Como muito se perdeu sobre a história dos dragões e como a ganância pela joia, agora despedaçada, permitiu ao mundo viver sob a tristeza do que foi dizimado, é a esperança da protagonista que move parte da história. E é assim que ela encontra a dragão Sisu (Awkwafina), última esperança do que remanesceu.

Desta forma, a animação investe seu tempo na criação de uma guerreira, cujo protagonismo não depende de um romance com o príncipe encantado, e sim da salvação do mundo. Ainda assim, é visível como a jornada do herói é encaixada de forma tradicional aqui, o que pode não trazer o ar de novidade em tantas animações da Disney e da Pixar nos últimos vinte anos, mas, ainda assim, traz força o suficiente para se destacar.

Por sua vez, a criação de diversos pequenos personagens coadjuvantes, cada qual representando um povo na árdua jornada de Raya, dá um bom tom cômico ao que poderia ser uma sucessão de momentos de solidão e de desesperança gradual.

Reprodução/Disney

Raya e o Último Dragão marca o olhar da Disney sobre a cultura oriental

Contudo, Raya é o estilo de princesa que se reflete como produto de seu tempo. Mais uma vez, isso é colocado à prova através da força de uma personagem que se permite ter fraquezas, e cujos defeitos se tornam aparentes à medida em que sua jornada a cega.

Afinal, não é a recuperação da joia o cerne desta história, e sim o arco entre Raya e Namaari (Gemma Chan), a criança sobre a qual Raya depositou sua amizade, na infância, e a responsável por tê-la enganado e possibilitado a quebra da joia. A grande mensagem deste Raya e o Último Dragão, além da mensagem de esperança sobre a humanidade, está no significado do perdão.

Reprodução/Disney

Tecnicamente impecável, a animação é mais um passo adiante no alcance da Disney ao seu público

É notável como, apesar de manter o tom sempre cartunesco em suas animações, sem pender para o realismo das formas humanas, e também continuando a tradição do estúdio em antropomorfizar seus animais, Raya e o Último Dragão representa um imenso avanço técnico. Aqui, da textura da água e da areia aos detalhes de fios de cabelos e das roupas dos personagens, tudo é devidamente trabalhado para impressionar.

Com isso, tecnicamente impecável, com protagonista forte e propositalmente imperfeita, a animação agrada por conseguir unir o útil ao agradável, e representar, dentro da estratégia adotada para o Disney+, um filme de ação e fantasia, de história e de humanidade e, sobretudo, de perdão. Ainda que não seja a melhor animação, é boa o suficiente para não passar despercebida.