Crítica | Próxima Parada: Lar Doce Lar

Martinho Neto  - 10 de fevereiro 2022 ás 09h25

Quem possui o hábito (ou a necessidade, em muitos casos) de consumir obras do audiovisual acompanhado de crianças sabe o quanto é precioso encontrar cada vez mais opções que sejam agradáveis para todos os públicos. Não é toda semana que veremos a estreia de um novo Frozen ou Moana, mas vários dos filmes e séries feitos para rechear os catálogos dos estúdios e das plataformas de streaming também têm o seu valor, mesmo que apostem na simplicidade e na segurança de fórmulas já conhecidas. É nesse contexto que Próxima Parada: Lar Doce Lar se encaixa, como uma opção satisfatória dentre as tantas disponíveis na Netflix.

Para cumprir seu objetivo, o longa dirigido por Harry Cripps e Clare Knight apostam em duas características que delimitam o estilo da animação. A primeira é a utilização de vários personagens com características físicas distintas e personalidades marcantes entre si, afinal, o público infantil precisa ter facilidade de identificar e lembrar dos papéis. Somos transportados para a Austrália, conhecido lar das criaturas mais peçonhentas e perigosas da Terra, e o grupo protagonista é justamente formado por alguns desses animais: Maddie, uma cobra venenosa de coração bondoso; Nigel, um escorpião muito sensível; Zoe, uma lagarta cheia de confiança; e Frank, uma aranha que adora dançar. Decididos a fugir do zoológico onde são tratados como monstros pelo tratador Chaz e seu pequeno filho, a equipe acaba ganhando a adição indesejada do insuportável coala Pelúcio, e juntos vão percorrer vários ambientes australianos à procura do seu verdadeiro lar.

Reprodução/Netflix

A segunda característica adotada pelos realizadores também não é nenhuma novidade no mundo das animações. Trata-se da utilização de piadas e referências de cultura pop que acrescentem algo para divertir os adultos que acompanham as crianças nas sessões. Por mais que se trate de uma estratégia superficial, utilizada quando o roteiro por si só não é capaz de entreter todos os públicos, não há como negar a sua eficiência em obras desse tipo. Novamente: não há a intenção de ser o próximo fenômeno de crítica e audiência, e o filme reconhece isso e se limita a ser algo menor, porém igualmente divertido. Essa autoconsciência permite que Próxima Parada: Lar Doce Lar seja dinâmico e muito agradável de assistir, com gags fáceis de absorver, e até mesmo a trilha sonora é capaz de empolgar sem correr grandes riscos — destaques para a cena de fuga ao som de “Bad Guy”, da Billie Eilish, e as participações engraçadíssimas de canções do Phil Collins e de “When A Man Loves A Woman”.

Os obstáculos enfrentados pelo grupo ao longo das paisagens urbanas e rurais da Austrália trazem todo tipo de desafio e aproveitam várias oportunidades para inserir novos personagens igualmente peçonhentos e perigosos. Isso segue a narrativa que acompanha todo o longa, na qual esses animais não são assassinos hediondos, mas sim dóceis e atenciosos. Não por acaso, descobrimos que todos fazem parte da organização NOS — Nojentos Organização Secreta — uma rede de suporte formada por animais sensíveis e incompreendidos que sempre são tratados como monstros. Forçando um pouco a barra, é possível dizer que o aparecimento constante da NOS pode enfraquecer um pouco a jornada dos protagonistas, mas até mesmo essa presença frequente está atrelada a um arco de mudança pelo qual Pelúcio passa. E como cada personagem do grupo principal também ganha seu momento para brilhar, isso acaba equilibrando bem as tramas.

Reprodução/Netflix

A animação em si é também muito bonita e bem detalhada, tanto nos momentos urbanos, mas principalmente nas áreas naturais abertas, prestando a devida homenagem aos biomas da Austrália. Os protagonistas também são cuidadosamente trabalhados com cores bem vivas e que sempre se contrastam com os planos de fundo, de forma que é impossível desviar o olhar dos mesmos. Além disso, é interessante a forma como os animadores brincam constantemente com os aspectos “perigosos” de cada animal, como presas ou garras, mostrando sempre as perspectivas dos humanos, que enxergam todos como monstros horríveis e ameaçadores, e dos próprios bichos, que por vezes mal entendem a que estão sendo expostos e buscam apenas ajudar ou se defenderem.

Em um catálogo que comporta tanto obras-primas — como Arcane e A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas—, quanto produções no mínimo decepcionantes — como Resident Evil: No Escuro Absoluto—, Próxima Parada: Lar Doce Lar se contenta em ser um meio-termo que possui mais qualidades que defeitos, ocupando uma posição agradável na prateleira de filmes para se ver em família. Trata-se de uma aventura leve e inofensiva, sem apelações e ainda com uma bonita mensagem de aceitação. Em um mundo onde tantas obras são lançadas e consumidas todos os dias, esta certamente agradará a quem apertar o play.