Crítica | Pinóquio

Denis Le Senechal Klimiuc  - 22 de novembro 2021 ás 09h00

Quando Carlo Collodi escreveu “As Aventuras de Pinóquio”, em 1883, o cinema ainda não havia nascido. Mas foi o primeiro cinematógrafo inaugurar a sétima arte e a história do menino de madeira que não podia mentir passou por diversas adaptações, cujo resultado de maior fama talvez tenha sido a animação da Disney de 1940. Esta versão de “Pinóquio” (2019), porém, é bem diferente.

A história é recontada mais uma vez, agora sob a batuta de Matteo Garrone, em solo devidamente italiano, conversando diretamente com a obra de Collodi em um tom nem tão infantil, muito menos animalesco. Aliás, aqui está a prova de que a história de Pinóquio não precisa ser, necessariamente, meiga, e uma viagem ao interior da Itália pode provar isso ao espectador.

Aqui, o diretor opta pela versão límpida de quem construiu uma história muito conhecida, mas com o toque de que o próprio autor teria orgulho de acompanhar. E a estética deste filme é algo que realmente torna o uso da tecnologia e da maquiagem digital algo necessário e admirável para a evolução do advento criado pelos irmãos Lumière.

Reprodução/Imagem Filmes

O clássico personagem sob uma roupagem mais histórica

De início, o espectador vai sentir um enorme buraco nesta história: Pinóquio não tem carisma. Federico Ielapi, o jovem ator que dá vida ao personagem principal, é talentoso e hábil em conseguir expressar-se diante de todas as limitações de seus movimentos e face, porém, coube a ele a tarefa de trazer um protagonista apático.

A estranheza, aliás, leva o primeiro ato inteiro, o terço do filme no qual a história se desenvolve, para surtir efeito. Pinóquio é de madeira e, como tal, a metáfora é que sua experiência seja oca. Ou seja, ele não tem reações esperadas porque não sabe que é para ter; seu instinto é o de observar; e seu impulso é o de questionar, através de comportamentos contraditórios.

Com isso, o roteiro do diretor com Massimo Ceccherini traz a riqueza do mundo de Pinóquio detalhada em seu arredor. Ou seja, são os outros personagens que dão vida àquela Itália, sobretudo a calorosa e carismática figura paterna de Geppetto (Roberto Benini).

Aliás, é a criação de um Geppetto doce, que corre atrás de Pinóquio por onde for para trazer de volta sua cria, seu amor, é um dos atrativos do filme; e uma das formas de aproximar o espectador do protagonista. Contudo, nem sempre o filme consegue e isso pode acabar se tornando um problema.

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A perfeição técnica desta adaptação surpreende em seus detalhes

Mas é a essência de Pinóquio que traz a riqueza a esta adaptação, pois, como de praxe, ele passa por suas diversas provações para aprender o valor da família, da verdade, do amor e do conhecimento – e aqui está o lado forte do roteiro.

Enquanto o protagonista pode ser apático por um lado, é visível o aprendizado no decorrer da história. Então, a lição de moral aqui, bem distante das provações amenas da Disney, é que o conhecimento é uma grande fonte de aprendizado e a verdadeira salvação do mundo.

Porém, para tornar todos os valores o mais próximo possível de o resultado almejado pelo diretor, o trabalho com a maquiagem é essencial. Por isso, vale destacá-la como uma das melhores versões de maquiagem digital já realizadas até então. A tecnologia aplicada foi tão bem utilizada que chega a surpreender – e a incomodar propositalmente.

Assim, a maquiagem é sensacional a tal ponto que a estrutura do protagonista é apenas um dos detalhes positivos, sendo o restante dos personagens fantásticos muito bem desenvolvidos, junto da atuação magistral do restante do elenco, bastante teatral.

E, para completar os aspectos técnicos que trazem excelência ao filme, vale destacar o brilhante trabalho do desenho de produção, cujos detalhes cenográficos de Dimitri Capuani se associam com clareza à fotografia em sépia de Nicolai Brüel. O resultado, portanto, é tornar possível a imersão completa do espectador.

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O tom deste Pinóquio pode não agradar a todos, mas emociona

Com todas as características técnicas bem construídas, a história ainda ganha destaque pela belíssima trilha sonora de Dario Marianelli, cujas composições tornam-se o verdadeiro coração do filme, junto do sempre doce Roberto Benini.

Mas, ao invés do típico final feliz, ao qual é bem provável que o espectador esteja acostumado, os pés no chão desta fantasia italiana tornam o final um pouco mais amargo, ainda que nada trágico.

Com isso, fica evidente que o filme trabalhou para se tornar uma espécie de definição definitiva, com um coadjuvante estrela e a capacidade técnica de seu diretor muito acima da média. Quer saber? Se ele não alcançou, está tudo bem. É um belíssimo filme de qualquer maneira.