Crítica | Observadores

Denis Le Senechal Klimiuc  - 28 de setembro 2021 ás 12h00

O voyeurismo é um dos maiores tabus sexuais dentro da cultura pop, porque os filmes que o representam, por exemplo, tendem a partir para somente dois lados: a libertinagem e a criminalidade. Aqui em “Observadores” (2021), do Amazon Prime Video, não é diferente, e o longa-metragem consegue a proeza de abraçar ambas as vertentes, não conseguir explorar nada de novo e ainda servir como uma anêmica homenagem a “Janela Indiscreta” (1954), de Hitchcock.

Pippa (Sydney Sweeney) e Thomas (Justice Smith) acabaram de se mudar para um belo apartamento, com vista ampla da cidade e, como logo descobrem, de seus vizinhos. Com a dinâmica do casal já estabelecida, logo de início o espectador percebe que ambos estão no mesmo relacionamento há tempo suficiente para desenvolverem apelidos debochados de carinho e, também, ter a relação sexual fria.

Porém, logo que se mudam, Pippa e Thomas descobrem que os vizinhos do apartamento da frente são exibicionistas: mantém relações sexuais abertamente, sem discrição alguma, enquanto qualquer um com interesse em admirá-los pode desfrutar do gosto que o voyeurismo oferece: para os incautos, a vergonha e o peso na consciência; para os libertos, excitação. Entre uma sensação e outra, o casal recém-mudado começa a desenvolver o fascínio pelos exibicionistas da frente.

Reprodução/Prime Video

O segredo do voyerismo é ser consensual

Com o primeiro ato concluído, ou seja, os personagens apresentados e a primeira situação-problema trazida à tona, a relação entre Pippa e Thomas parece tomar o caminho contrário à proposta de se mudarem para aquele apartamento. Ela, cada vez mais envolvida com o casal da frente, precisa manter o foco em seu emprego como assistente de oftalmologia, enquanto Thomas apenas mantém o ritmo do trabalho, a falta de interesse pelo casal exibicionista e o cansaço pesado demais para se importar com sua vida sexual.

Porém, é justamente quando a vizinha da frente vai ao consultório de Pippa que tudo muda. Seu nome é Julia (Natasha Liu Bordizzo), e rapidamente elas traçam uma forte amizade, o que faz com que Pippa queira cada vez mais se envolver na vida afetiva daquele casal, enquanto quer contar a Julia que seu namorado a está traindo constantemente. Mas é aqui que existe a ruptura de vez entre a protagonista e seu namorado, e um acontecimento trágico leva a graves problemas entre o casal.

Com isso, começam a acontecer as pequena reviravoltas, características que tornam este filme tão interessante, mas, ao mesmo tempo frágil e insosso, algo muito longe do que uma obra cujo pano de fundo do arco principal é o voyeurismo. Em consequência, começam as problematizações de ter um elenco de apoio bom, enquanto a protagonista sofre com a apatia da interpretação de Sweeney: Justice Smith consegue criar o típico namorado desligado e bem-intencionado, enquanto Ben Hardy se esforça para trazer sensualidade a Sebastian, o vizinho aparentemente viciado em sexo. Mas é a curta participação de Bordizzo que rouba as cenas, como Julia.

Reprodução/Prime Video

A formação do suspense vai te enganar

Com a dicotomia formada, “Observadores” vai agradar aos fãs de Sidney Sheldon e Danielle Steel, cujas obras eram envolvidas com suspense e erotização, com protagonistas inicialmente frágeis que ganham reviravoltas sucessivas. Aliás, o roteiro de Michael Mohan, que também dirige este filme, possui características literárias em sua concepção dos três atos principais: os conflitos ganham pequenas reviravoltas justamente para prender o espectador, algo como os cliffhangers nos finais de capítulos – comuns em seriados também.

Com isso, Pippa vai e volta de uma espiral à lá Hichcock, e vai parar nas mãos de Sebastian por razões que aparentemente foram filmadas, mas cuja edição fez o favor de picotar, aqui e em boa parte do filme. Há resquícios de uma história contínua e até mesmo equilibrada, porém, o filme é uma sucessão de recortes bem-intencionados que não conseguem dar coerência à proposta. Desta forma, a protagonista sofre por não conseguir fazer sentido enquanto seu mundo desmorona.

Além disso, a sensualidade proposta, como os próprios créditos trazem à tona, é desperdiçada enquanto uma trama aparentemente descabida se forma, e a erotização é pontual e sem sal, mais parecida com os filmes eróticos de uma madrugada de sábado do que a provocativa incursão de “365 Dias” (2020) ou “Cinquenta Tons de Cinza” (2015). O resultado, portanto, engana, mas não é unânime e pode desapontar após curta reflexão sobre o que foi visto.

Reprodução/Prime Video

Sem falso moralismo, um tapa na cara

Contudo, este filme não é um desastre anunciado e, sim, sua premissa é boa, o roteiro parece ser bem escrito (para o que foi proposto). Mas alguns aspectos técnicos destoam de tal forma do resultado que questioná-los será mais natural do que as cenas de sexo propostas. Aliás, elas soam mecânicas e, portanto, recortes eróticos de uma tentativa falha de engrossar o conteúdo. Porém, o filme é curto demais para o que foi proposto, e não consegue fazer chegar aos finalmentes nem mesmo com a promessa do prazer fácil que ele traz.

Com os trocadilhos à parte, este “Observadores” é uma decepção infundada, mas que pode funcionar como guilty pleasure caso o espectador queira apenas um material morno para aquecer o relacionamento. Será muito mais do que Pippa e Thomas conseguiram fazer, diga-se de passagem.