Crítica | O Som do Silêncio

Rafael Revadam  - 23 de novembro 2021 ás 09h00

Longa de estreia do diretor Darius Marder, O Som do Silêncio (Sound of Metal, do título original) conta a história do baterista Ruben (Riz Ahmed) que, de um dia para o outro, perde a sua audição. Sem poder exercer a música, que é a sua profissão e paixão, Ruben é obrigado a abandonar uma turnê que estava realizando com sua namorada, Lou (Olivia Cooke), para descobrir como viver nessa nova realidade.

Um dos destaques do filme, sem dúvidas, é a sua direção de som. A perda da audição de Ruben é ambientada ao público também, que começa a ver cenas em silêncio. No primeiro momento rola até um estranhamento, afinal o longa começa colocando o espectador como terceira pessoa, um observador da história, mas ao passo que Ruben percebe o ocorrido, perdemos a audição juntamente com o protagonista.

Explorar o silêncio como narrativa não é uma novidade, um dos casos mais marcantes é do filme Um Lugar Silencioso, de 2018. Mas ao contrário dessa obra, que trazia a quietude como um suspense, O Som do Silêncio explora como um incômodo. As cenas do filme trazem diversos elementos sonoros de difícil compreensão, como palavras abafadas, ruídos e chiados. Em determinados pontos, uma mesma cena ganha a visão de Ruben e a visão de fora, ou seja, com e sem sons, aproximando o público daquela vivência inquieta do personagem. A exploração dos recursos sonoros deu tão certo, que O Som do Silêncio ganhou o Oscar de Melhor Som neste ano.

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Reprodução/Amazon Prime Video

Outro ponto positivo do filme é a sua narrativa. Ao se deparar com uma comunidade de pessoas surdas, Ruben é apresentado a um universo que não quer cura, mas sim aceitação. Este ponto é muito importante porque a surdez não aparece como uma invalidez, e nem as pessoas dessa comunidade são retratadas como inferiores ou incapazes, elas surgem com uma sensibilidade e um olhar que desafia até quem está assistindo ao filme – será que percebemos a vida com a mesma intensidade do que essas pessoas?

Sobre o elenco, também sobram elogios. Riz Ahmed, o Ruben, traz toda a potência que o filme necessita. O ator trabalha o tempo todo com gestos grandes: seus olhares, sua fúria, tudo é narrativa. E se num filme convencional já é difícil o ator passar determinadas emoções, imagine numa obra em que o uso da voz é extremamente limitado. Para interpretar Ruben, Ahmed fez aulas de bateria e aprendeu a Língua Americana de Sinais – aliás, se você tem um mínimo conhecimento de Libras, a língua brasileira, vai poder acompanhar as semelhanças e diferenças entre as duas, já que parte do filme é bem realista no processo de alfabetização de Ruben.

E é claro que, num momento de representatividade como o que vivemos hoje, é preciso destacar uma crítica feita por algumas pessoas surdas: por que Ruben não foi interpretado por um ator surdo? Mas se essa representatividade não existe no protagonista, ela é compensada no total do elenco, já que boa parte dos atores são surdos. Um dos destaques é Lauren Ridloff, que interpreta a professora Diane, e está em The Walking Dead. Ela também fará parte do MCU, ao integrar o elenco de Os Eternos.

Reprodução/Amazon Prime Video

Encerrando os pontos positivos do elenco também estão Paul Raci, que interpreta Joe, o líder da comunidade de surdos onde Ruben vai parar, e Olivia Cooke, que faz a namorada de Ruben, Lou.

Concluindo, O Som do Silêncio é um filme essencial, uma nova abordagem da surdez, que retira aquele peso do diagnóstico e retrata como algo humano, normal, vivo. O filme está no catálogo do Prime Video e a única crítica negativa vai para esse serviço de streaming, que disponibilizou a obra sem legendas descritivas, próprias para as pessoas surdas.