Crítica | O Poderoso Chefinho 2: Negócios da Família

Martinho Neto  - 31 de dezembro 2021 ás 08h00

Continuações de obras de sucesso sempre foram formas eficientes de lucro para a indústria do cinema, uma vez que o público das obras originais estaria muito mais propenso a ver algo dentro de um universo já conhecido do que comprar uma ideia totalmente do zero. Contudo, nos últimos anos essa prática é responsável por uma grande fatia do volume de produções cinematográficas (concorrendo com a fábrica de remakes e reboots), e isso vem visivelmente prejudicando a qualidade criativa de certas obras. O Poderoso Chefinho 2: Negócios da Família não foge desta sina, entrando para a indigesta lista de sequências que não justificam sua existência.

Reprodução/DreamWorks

O filme original, lançado em 2017, atingiu um relativo sucesso de público, além de uma ótima arrecadação mundial. Para isso, o diretor Tom McGrath apostou na segurança da fórmula que apresenta uma premissa absurda, dificilmente vista longe das animações infantis, envolvida em uma atmosfera mais inocente, mas com pitadas de entretenimento para os adultos — incluindo, por exemplo, a presença de nomes conhecidos no elenco de dubladores, como Alec Baldwin, Steve Buscemi e Jimmy Kimmel. O êxito foi tamanho que antes da continuação nos cinemas, a obra gerou a série animada O Chefinho – De Volta aos Negócios, focada bem mais no público infantil.

No primeiro filme, Tim Templeton era atormentado pelo seu irmão mais novo (que só agora descobrimos que se chama Ted), um bebê que usava terno e trabalhava em uma empresa secreta que defendia os interesses dos nenéns. Agora, os dois são adultos e Tim é pai de duas filhas; uma delas, a pequena Tina, segue o mesmo caminho do tio, o que acaba levando todos a uma nova aventura. Como era de se esperar, o roteiro encontra uma forma de rejuvenescer Tim e Ted para encaixá-los na nova empreitada da BabyCorp. E para trazer algo novo e tentar desenvolver mais o universo e os personagens, os irmãos acabam envolvidos em tramas separadas, com Ted, agora bebê, acompanhando Tina na missão principal, enquanto Tim encara uma jornada de (re)aproximação com a filha mais velha, Tabitha.

Reprodução/DreamWorks

Não é surpresa que O Poderoso Chefinho 2 traz, novamente, diversas referências à cultura pop em geral, com easter eggs bem localizados para divertir os adultos que assistem ao filme. Mas ainda que componha um lazer de fácil assimilação, o roteiro assinado por Tom McGrath e Michael McCullers é bastante raso e fica distante das animações de qualidade de outros estúdios. Aliás, distância esta semelhante também no quesito técnico, pois embora os ambientes apresentados sejam muito inventivos e cheios de cores, a falta de texturas e detalhes no acabamento acaba deixando um pouco a desejar para um estúdio vencedor de três Oscars como a DreamWorks.

Enquanto o filme original era uma bonita fábula sobre irmãos, o foco emocional da sequência deveria ser a relação entre pai e filhas, mais especificamente a filha mais velha, Tabitha. Porém, esse núcleo demora bastante a ganhar desenvolvimento, dando lugar a inúmeros eventos loucos e cheios de ação com o único pretexto de divertir e nada mais. Isso acaba se tornando uma situação de dupla perda, uma vez que o arco de Tim e sua filha fica totalmente em segundo plano, destoando do ritmo do filme a ponto de se tornar enfadonho, e do outro lado, a missão dos bebês tem tantos confrontos e correria para todo lado que chega um momento que a ação se torna cansativa, pois é impossível manter um ritmo tão frenético, até mesmo para os maiores blockbusters de Hollywood.

Reprodução/DreamWorks

Mesmo com tudo isso em vista, O Poderoso Chefinho 2 não deixa de ser uma opção viável de entretenimento familiar, especialmente naquelas sessões despretensiosas onde o objetivo é apenas espairecer. Enquanto as crianças dificilmente terão algo a reclamar de um filme colorido e cheio de ação, os adultos podem desfrutar das piadas e easter eggs colocados exclusivamente para eles mesmo enquanto dão aquelas olhadas generosas no celular.