Crítica | O Poço

Denis Le Senechal Klimiuc  - 26 de novembro 2021 ás 09h00

A força que permeia a sociedade está em seus valores e caráter. A afirmação pode ser óbvia, mas, como este “O Poço” (2019) tão bem retrata, são os detalhes dentro das relações sociais que tornam a meritocracia algo tão perigoso. Por isso, a força dentro de um conjunto de pessoas, quando trabalhada de maneira individual, não move ninguém a lugar algum – eis uma verdade descoberta pelo protagonista, Goreng (Ivan Massagué).

Quando o personagem principal acorda e percebe estar em um tipo de cela, se dá conta de que sua única companhia é o seu livro e um homem mais velho, Trimagasi (Zorion Eguileor). Em poucos minutos, a única verdade que descobre, a bem dizer, é a personalidade breve de seu companheiro, que pouco lhe oferece informação, e um buraco central, no qual tanto olhar para cima quanto para baixo parecem visões infinitas.

Aqui, então, está inaugurada uma alegoria poderosa sobre os tempos modernos, a qual traz justamente a discussão sobre a força dentro de uma sociedade, e suas consequências quando é trabalhada de forma individual e coletiva. A metáfora, aliás, leva o espectador a uma angustiante experiência sobre as castas e classes sociais, e seu efeito em um filme cru, ironicamente com sua essência trazendo a necessidade humana de se alimentar.

Reprodução/Netflix

A luta de classes foi retratada de forma excepcional aqui

Goreng, após ser apresentado ao espectador como um homem idealista que não se lembra exatamente como foi parar naquela cela, descobre que ela é nomeada de acordo com o seu andar. Mas o cruel de toda a situação é que a comida passa pelo buraco central por todos os andares, sem ao certo saber em qual termina, iniciando-se intacta, no primeiro, e partindo sem renovação para os demais.

O resultado ao espectador é que a experiência de Goreng, inicialmente conflitada com seu recém-descoberto rival, Trimagasi, é uma verdadeira e literal luta de classes. A comida chega a cada andar de acordo com o que a pessoa de cima deixou sobrar. Ou seja, se no primeiro ela está intacta, no décimo nem tanto; no centésimo é lamentável a forma como as pessoas dali, sempre uma dupla, precisam sobreviver.

Ou seja, este “O Poço” é um retrato fiel sobre como a sociedade se comporta quando vista de perto. Não existe o coletivo, como o filme bem afirma, enquanto cada um não parar de pensar apenas em si. Então, se as pessoas dos andares superiores deste filme comessem apenas o necessário, é provável que haveria comida para todos. Mas isso procede? Quem pode provar? Aqui está mais uma alegoria social.

E, dentro de um cenário simples, o desenho de produção de Azegiñe Urigoitia é impecável ao projetar uma cela límpida, ainda que escura, sem nada além de uma cama desconfortável, uma pia e um vaso sanitário. Naturalmente sufocante, a sensação de todo exilado dali é logo distraída pela plataforma que desce pelo buraco central. E a direção de arte, aliada ao desenho de produção, fazem com que o espectador foque sua atenção na comida e não no cenário em si.

Reprodução/Netflix

História resumida em uma grande metáfora sobre poder e seus questionamentos

Nesta gigantesca metáfora, então, a fotografia também faz sua parte ao trazer sombras agourentas aos personagens, entoando e evidenciando suas respectivas personalidades. Pois, além do choque inicial, o roteiro muito bem amarrado nos dois primeiros atos do filme, ou seja, os terços iniciais, prova o talento da escrita a David Desola e Pedro Rivero.

Assim, com o passar do choque inicial, o espectador é pego de surpresa ao descobrir que cada pessoa fica em um andar por apenas um mês, e que sua situação pode melhorar muito ou piorar de acordo com a altura em que ficará a seguir. Então, se incialmente Goreng fica no sexto andar, um mês depois pode ir para o quinquagésimo, ducentésimo e daí em diante – uma prova cruel de sobrevivência. E a interpretação de Massagué é fundamental para tornar a experiência ainda mais crível a quem assiste ao filme.

Desta forma, os questionamentos surgem no espectador e no protagonista, e um dos acertos do longa é não dar todas as respostas, e sim causar ainda mais incômodo com aquela realidade. Por isso, quando Goreng reúne sua força e perseverança ao não só questionar sua realidade, mas também a dos demais ali presentes, é que o filme passa a jogar flashbacks no espectador, induzindo-o a respostas que podem ser ainda mais cruéis do que os próprios questionamentos.

Reprodução/Netflix

O Poço é um mergulho na mente da raça humana contemporânea

Afinal, o que aconteceu com o mundo neste “O Poço”? Como aquelas pessoas foram parar ali – e mais: por quê? Qual tipo de realidade distópica causaria tamanha crueldade à raça humana? Aos poucos, as respostas surgem, e, acredite: são elas que tornam este filme algo não só necessário, mas um reflexo que o mundo vivenciou no início da pandemia da covid-19.

Portanto, questões ficcionais e um mundo doente ligam o sinal de alerta de quem acompanha este longa-metragem, e a direção de Galder Gaztelu-Urrutia é firme ao não deixar a peteca cair até o terço final, quando a formação de um desfecho abre demais a experiência e pode acabar atrapalhando a vivência desta história por soar como anticlímax. Até aqui, o espectador estará debruçado em sua poltrona querendo descobrir mais sobre aquele poço e, ao mesmo tempo, enjoado pelas condições alimentares e sanitárias daquelas pessoas.

Então, seja você o mergulhador intenso ou o receoso, com certeza a simbologia por traz deste “O Poço” merece ser discutida, trazida à tona e questionada. Afinal, o filme foi estrategicamente disponibilizado no catálogo da Netflix quando o mundo se percebeu dentro de um caos sanitário – talvez não tão distante da realidade desta história.