Crítica | O Pergaminho Vermelho

Denis Le Senechal Klimiuc  - 28 de outubro 2021 ás 14h00

Histórias infantis de aventura nunca saem de moda. Passe o tempo que for, e personagens em uma jornada de superação, coadjuvantes sábios e engraçados, um terrível vilão e o cenário fantasioso: eis a fórmula que dá muito certo, e isso não é problema algum, pois a intenção é justamente que boas narrativas sejam trazidas, preenchendo a infância de cada geração com as ferramentas e a tecnologia que estiver à disposição. Por isso, O Pergaminho Vermelho (2021) ganha espaço agora como uma animação atemporal, que vai divertir os mais novos, mas também os adultos de diferentes idades.

Isso porque a história criada por Fernando Alonso e Nelson Botter Jr, com direção deste, conduz o espectador por uma série de questões relacionadas ao crescimento e suas dores, mas também é ilustrada por personagens que permeiam o imaginário da cultura pop há décadas, ou ao menos são remetidos a eles. Com isso em mente, a aventura pode parecer mais simples do que é à primeira vista, mas a sessão desta animação clássica com técnica moderna pode render muito papo para pais e filhos.

Por isso, ao trazer uma protagonista tão forte, os criadores, que também contaram com a colaboração escrita de Alvaro Chaer, Leo Lousada e Miguel Machalski, merece ser vista. Mas, felizmente, seu mérito vai ainda além da versatilidade emocional de seus personagens: as referências e o arco da protagonista compõem um cenário rico e dinâmico, e a sua jornada é graciosa e convidativa.

Reprodução/Disney

Uma protagonista forte e determinada

Nina (Marina Sirabello) é uma jovem de treze anos que ama se aventurar pelo bairro, e faz isso corriqueiramente, com seu skate, enquanto deixa seus pais preocupados com seu comportamento sempre evasivo. Ainda que não faça de propósito, a protagonista se ausenta das responsabilidades com sua família, e o relacionamento problemático em casa acaba afetando, inclusive, as decisões de seu pai e de sua mãe, que se diferem. O resultado, então, é uma bola de neve comportamental, que gradativamente afasta Nina cada vez mais, enquanto as brigas aumentam, justamente como tática inconsciente de defesa da menina.

Certo dia, porém, quando as coisas passam dos limites, Nina foge de casa e, em meio à cegueira causada pela revolta, e o afastamento automático de sua casa, ela vai parar no meio do parque. É justamente ali que ela escorrega e cai em misterioso buraco, ao melhor estilo Alice no País das Maravilhas (1951), e encontra o tal d´O Pergaminho Vermelho. Ao tocá-lo, Nina vai parar em um mundo fantasioso, repleto de criaturas diferentes, e logo é abordada pelo sonso Dark (Nelson Machado).

O que Nina não sabia, e até aquele momento não se importava, é que sua displicência com o pergaminho, o qual entregou para Dark, é o que a responsabilizou pela desgraça que aconteceria a seguir. O vilão dominaria aquela terra inteira, chamada de Tellurian. É claro que a protagonista assume o fardo e a sua jornada começa ali: ela precisa salvar tudo e todos, e pouco a pouco conta com personagens especiais para ajudá-la a realizar a tarefa, como é o caso do Grande Ancião (Isaac Bardavid) e do espevitado Trique (Wendel Bezerra).

Porém, aos poucos Nina se modifica diante dos obstáculos de sua aventura, e ela faz isso ao melhor estilo Onde Vivem os Monstros (2009), com a sua própria redenção acontecendo diante de amadurecimento e perseverança. A heroína nasce através de suas passagens por situações-limite, e o roteiro é hábil ao construir uma atmosfera amigável aos percalços, algo que se torna automaticamente mais atrativo aos mais jovens.

Reprodução/Disney

As referências vão agradar os mais velhos

Por sua vez, o que faz de O Pergaminho Vermelho tão divertido é que, a partir do momento em que Nina põe os pés em Tellurian, a personagem passa por diversas situações que remetem às inspirações dos criadores desta animação. Com isso, Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977) entra como grande parâmetro, tanto pela aventura da protagonista, que lembra a de Luke Skywalker (Mark Hamill), até os pequenos monstrinhos que pululam em torno dela – e, em especial, a cena do bar.

Além disso, muito de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001) e O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002) é visto, como as longas paisagens e o formato da torre na qual Dark se embrenha para dominar Tellurian. Com isso, os criadores aproveitam o rico universo da cultura pop para tecer uma trama bem feita e detalhista, em contraponto à simplicidade da animação usada. Aliás, vale lembrar, também, o clima musical e levemente satírico do relacionamento de Nina e Dark remetendo ao fabuloso Labirinto (1986), com Jennifer Connelly e David Bowie.

Seja como for, tudo funciona muito bem, e o tempo passa rápido enquanto o espectador acompanha as peripécias de Nina para salvar a terra mágica e retornar à vida com seus pais. Ali, ela aprende as duras lições esperadas por quem assiste ao filme, e isso é levado sempre de forma leve, sem jamais pesar a mão.

Reprodução/Disney

A experiência é leve e merece ser vivenciada

Em O Pergaminho Vermelho, algumas resoluções são rápidas demais, como o conflito entre os pais de Nina, que acaba não soando genuíno como poderia, se tivesse mais tempo de tela. Isso, ainda que não influencie diretamente na experiência dos mais novos, atrapalha a absorção dos adultos, e soa quase artificial em contraponto à proposta do filme. Pois, ainda que a dinâmica exista, seria mais interessante tê-la desenvolvida, e ter os problemas discutidos pode ajudar a compreensão de outras crianças.

Com isso, o tabu continua ali, mas, felizmente o restante da experiência funciona como deveria, e a jornada de Nina diante das adversidades enfrentadas em sua vida é devolvida ao espectador como uma ótima aventura audiovisual.