Crítica | O Homem Invisível

Denis Le Senechal Klimiuc  - 19 de novembro 2021 ás 09h00

Até 2019, o alvoroço em cima da nova versão de um dos clássicos de terror da Universal Studios era causado por conta da baixa expectativa de uma produção inicialmente problemática. Afinal, como trazer frescor a um clássico após o fracasso de público e crítica de “A Múmia” (2017)? Pois o diretor Leigh Whannell soube trazer a resposta com crédito de que fez um grande trabalho neste “O Homem Invisível” (2019).

Pois, enquanto a questão girava em torno do “como”, Whannell, que também assina o roteiro do filme, pensou mais adiante: o que a história poderia trazer de novo? Resposta: uma trama completamente focada em uma mulher que é vítima do tal homem invisível, e que sofreu em silêncio por anos até conseguir se libertar, fugir e viver sob a paranoia de ser escravizada novamente.

Essa era a vida de Cecilia (Elizabeth Moss). Após libertar-se, um amigo acolhê-la e tentar continuar a viver, ela recebe a notícia de que seu ex-marido, Adrian, faleceu. O problema: eles não haviam se divorciado oficialmente e, portanto, ela passa a ter poder sobre tudo o que o ex, magnata da tecnologia, havia criado e construído.

Reprodução/Universal Studios

O desafio de transformar uma refilmagem em algo atual

Com o desafio de trazer nova roupagem a uma história clássica, porém, Whannell não se poupa de redirecionar o espectador a Cecilia, enquanto esta encontra no corpo de Elizabeth Moss o talento de uma atriz que sabe lidar muito bem com o tema (vide “The Handmaid´s Tale” – 2017-atual). Por isso, o conflito que o final do primeiro ato apresenta, quando a história e a protagonista são apresentadas, é a grande essência deste filme.

Aqui, ao invés de encontrar paz com a morte do ex-marido, Cecilia automaticamente entra em desespero ao saber da notícia, desacreditada de que seja verdade. A partir de então, há um conflito em todo o miolo do filme, o segundo ato, no qual a protagonista vai da paranoia à angústia e desconsolação ao notar que há uma figura invisível tornando seus dias cada vez piores.

Culpada por tudo o que acontece, Cecilia chega a desacreditar-se, ainda que tenha provas de que uma figura invisível a está atormentando – e todos ao seu redor fazem o mesmo. Reflexo natural de como qualquer mulher se sente em todo canto do mundo, ainda que supostamente o patriarcado tenha diminuído, suas raízes são profundas e os efeitos, mais cruéis do que muitos acreditam.

A construção desta protagonista, então, é apenas um reflexo: e o “apenas” é meramente simbólico, com todos os efeitos que uma mulher sofre, do nascimento à morte, em relação ao seu corpo, à sua vida, à existência em um meio social e às escolhas. “Apenas” tudo isso.

Reprodução/Universal Studios

Elizabeth Moss rouba para si o protagonismo eficaz de sua personalidade

Boa parte da eficácia de Cecilia, aliás, se deve ao talento de Moss, uma atriz que escolhe a dedo seus papéis, e costuma trazer profundidade a personagens cujas origens costumam ser injustas, precárias ou discutíveis. E, junto dela, uma direção impecável que conduz com maestria a protagonista através de seu grande arco.

Desta forma, Whannell é hábil ao permitir uma trilha sonora que jamais soa clichê, sem entoar os famosos jump scares, tornando a experiência do espectador rica e complementada pelo desenho de produção límpido, que traz uma casa moderna e vazia de memórias no ambiente de Adrian, mas o aconchego do lar de James e Sydney Lanier sempre presente.

Além disso, trabalhar a atmosfera tensa de forma eficaz unindo técnica e atuação mantém o espectador grudado na poltrona, o que é complementado pela fotografia excepcional de Stefan Duscio: as cenas nas quais Cecilia está em um embate com o tal homem invisível são elaboradas justamente para surpreender o espectador, pois há grande histórico desse tipo de efeitos no cinema, e aqui ele consegue causar desconforto justamente pela sensação de assédio constante.

Reprodução/Universal Studios

Um filme que ficará na memória do espectador por muito tempo

Com tudo o que é construído e apresentado, este “O Homem Invisível” ficará na mente do espectador por um bom tempo, pois, além de renovar o gênero de suspense, é atualíssimo, tornando-se, quem diria, necessário.

O empoderamento feminino é feito através de uma protagonista cujo arco é todo dela, ao invés do que normalmente é feito em um filme do tipo. O resultado, portanto, é um filme que entretém, sufoca, levanta discussões e surpreende. Um combo inegavelmente irresistível em tempos de gêneros subaproveitados ou superexplorados.