Crítica | Nove Desconhecidos

Denis Le Senechal Klimiuc  - 10 de novembro 2021 ás 12h00

Um grupo formado por nove pessoas se encontra em um verdadeiro paraíso, cujo formato lembra o de um spa de luxo e o de um retiro de artistas que precisam se afastar da publicidade para descansar a mente. E é um pouco disso tudo mesmo, e muito mais: um reduto misterioso de ações milimetricamente planejadas, o abraço que esses Nove Desconhecidos (2021) precisam, e a desculpa baseada no livro de Liane Moriarty que os criadores David E. Kelley e John-Henry Butterworth levaram para o Amazon Prime Video.

O retiro tem nome: Tranquillum. E ele é comandado por Masha (Nicole Kidman), mulher misteriosa que escolheu a dedo cada um dos participantes, com base em suas respectivas histórias, e os levou àquela composição que, na verdade, forma a equação perfeita para tudo dar errado. Homens e mulheres de diferentes classes sociais e idades se misturam com máximo conforto ao redor, mas cuja convivência é explosiva como em qualquer situação na qual desconhecidos são obrigados a conviver. Porém, com os cuidados de Masha e de sua equipe, os propósitos começam a surgir nesta minissérie de oito episódios.

Aos poucos, então, o grupo passa a se entrosar, e as típicas situações de isolamento social vêm à tona – o que não foi planejado, porque a série já estava em produção quando a pandemia começou. Naquela magnífica construção em meio à natureza, e entre o céu límpido e a grama tão verde que parece falsa, nove pessoas precisam deixar aflorar seus fantasmas, no que se pode ser denominada como uma terapia extensa e intensa, de alto impacto e obviamente experimental.

Reprodução/Amazon Prime Video

Cada personagem carrega uma história pesada

Frances (Melissa McCarthy) é uma escritora de sucesso que encontrou estafa mental e, ainda por cima, sofreu um golpe de falso pretendente. Lars (Luke Evans) enfrenta diversos dilemas em sua vida e, talvez o que seja o principal, é o seu relacionamento ter acabado porque não queria ser pai. Carmel (Regina Hall) precisa lidar com as consequências de ter sido trocada por uma mulher mais nova, e de ver seus filhos abandonando-a aos poucos. Tony (Bobby Cannavale) esconde um passado misterioso, e a violência escondida por trás de sua história pode atrapalhar sua convivência em grupo. Jessica (Samara Weaving) e Ben (Melvin Gregg) formam um casal que perdeu grande parte do propósito da vida e da relação após ele ganhar na loteria. Napoleon (Michael Shannon), Heather (Asher Keddie) e Zoe (Grace Van Patten) são uma família cujo doloroso passado envolvendo suicídio os deixou com marcas profundas e abertas.

Esses são os nove desconhecidos que se encontram e que percebem, muito tarde, que estão completamente envolvidos nos eventos e nas experimentações de Tranquillum e de Masha. Em episódios belamente fotografados, com figurino impecável que sempre diz muito sobre seus personagens, a série transita entre o profundo drama desolador e a ficção científica, o que pode incomodar o espectador que se sente impactado de forma branda, mas constante, com a qual os episódios se desenvolvem.

O ritmo é lento, mas jamais existe marasmo aqui. Sempre há alguma coisa acontecendo no roteiro, cuja direção fica a cargo de Jonathan Levine. É fundamental, portanto, deixar a experiência tomar conta, algo semelhante ao que Masha faz com seus convidados, enquanto as transformações acontecem. Caso contrário, Nove Desconhecidos pode surtir efeito de uma série aborrecida e sem propósito algum, o que é, no mínimo, injusto com o que foi criado.

Reprodução/Amazon Prime Video

Em Tranquillum, não vá com sede ao pote

O formato de Nove Desconhecidos não é novo, e isso não representa problema algum. A série, que traz os diferentes arquétipos reunidos com um só propósito, na verdade, serve como base para trazer à tona as experiências traumáticas e frustrantes daquele seleto grupo e, em consequência, do espectador. Por isso, trata-se do tipo de produto que divide o público com certa facilidade e, neste caso, há mais elogios do que apontamentos negativos.

Assim, como há tempo para o desenvolvimento dos personagens, o elenco brilha ao se entregar àqueles sujeitos repletos de gatilhos, e um a um vem à tona enquanto os atores ganham mérito por suas interpretações. Nicole Kidman constrói, mais uma vez, uma mulher repleta de traumas e que, por isso, se tornou gélida e passivo-agressiva – algo visto, por exemplo, em Os Outros (2001) e em Segredos de Sangue (2013). Por sua vez Melissa McCarthy dá um show ao compor uma mulher repleta de senso de humor, mas que o perdeu há tempos, e Michael Shannon emociona por sua delicadeza ao construir um personagem tão profundo e repleto de nuances.

Outro olhar importante sobre a série é que ela só fará sentido em seu desfecho, o que pode impedir, em muitos casos, que o seu ritmo ajude nesse olhar. De fato, a construção é lenta e contemplativa, mas os personagens são como formigas em um formigueiro recém derrubado: cada um vai para um lado, cada qual defendendo sua própria história e, com psicotrópicos embutidos em sua alimentação, o grupo entrega de bandeja a dor e o sentimento de humilhação.

Reprodução/Amazon Prime Video

A estrutura de Nove Desconhecidos se contradiz

Tranquillum é o tipo de lugar sólido que precisa de harmonia para fazer sentido, e Masha trabalha em todas as vertentes para que isso aconteça. Porém, seus três funcionários parecem não perceber a gravidade de suas responsabilidades, pois a vida daquelas pessoas, e um experimento errado vem à tona com o tempo, mostra como Delilah (Tiffany Boone), Yao (Manny Jacinto) e Glory (Zoe Terakes) pensam de forma diferente da mandachuva do local.

Com isso, Nove Desconhecidos perde em parte o seu próprio sentido, pois acaba dando mais espaço aos pequenos arcos daquele grupo, ao invés de focar inteiramente na experiência dos hóspedes e de como elas podem se refletir no próprio espectador. É como se o entorno de Masha tirasse a verossimilhança daquilo tudo, e como se o único sentido fosse o de mostrar como a situação é frágil, algo que poderia ser feito pela própria Nicole Kidman, que claramente consegue o mesmo efeito ao falar de seu passado na Rússia.

Mas, ao abraçar personagens como Frances e Napoleon, o espectador vivenciará uma série de possibilidades emocionais, algo que de fato pode tornar a experiência mais envolvente e, com isso, a série mais proveitosa. Caso contrário, basta lembrar-se que a série dividiu mesmo opiniões e, diferente do experimento forçado do retiro aqui retratado, o sentimento é livre para cada um lidar com sua própria história.