Crítica | Nomadland

Júlia Tetzlaff  - 24 de novembro 2021 ás 09h00

Não foi nenhuma surpresa quando Nomadland, dirigido pela chinesa Chloé Zhao – apenas a segunda mulher a ganhar o prêmio de Melhor Direção em todas as edições do Oscar, foi anunciado como ganhador do prêmio de Melhor Filme em 2021. Favorito da crítica e indicado a seis categorias – Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz por Frances McDormand, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Fotografia, a obra independente foi a grande vencedora do ano, levando o prêmio pelas três principais categorias: filme, direção e atriz principal.

Filmado quase como se fosse um documentário, o filme percorre a trajetória da fictícia Fern, interpretada pela sempre brilhante Frances McDormand, uma mulher de 61 anos que, após perder o marido e ficar desempregada e sem casa depois da Grande Recessão de 2008 devastar sua cidade, passa a morar em um trailer seguindo uma vida nômade. Com exceção de Frances e David Strathairn, que são atores profissionais, todos os personagens do filme são interpretados por pessoas reais que realmente são nômades e que foram parar na estrada de diferentes maneiras, por diversos motivos. Assim, a narrativa mescla episódios reais com outros criados pela diretora, que passou um período de imersão em um trailer conhecendo e aprendendo mais sobre a vida dessas pessoas.

Reprodução/20th Century Studios

O filme é uma adaptação do livro Nomadland: Surviving America in the Twenty-First Century (em português, Nomadland: Sobrevivendo aos EUA no século 21), escrito pela jornalista americana Jessica Bruder em 2017 sobre essa população, principalmente mais velha, que passaram a viver de empregos sazonais pelo país após a crise econômica. O livro, inclusive, está previsto para ser lançado no Brasil ainda esse ano.

A maneira sensível e poética que Nomadland retrata a vida dessas pessoas, e da própria Frances, faz com que a experiência do espectador seja bastante imersiva. O filme poderia ter caído facilmente em uma narrativa ou monótona demais, ou muito trágica, se resolvesse mostrar os problemas e perigos enfrentados por essa população. Mas, ao contrário disso, o que vemos é um retrato contemplativo e muito respeitoso que mostra que o modo nômade de viver é apenas mais uma maneira de encarar a vida, e não necessariamente uma maneira errada de viver. Zhao prefere focar em como funciona esse modo de vida, suas particularidades e singularidades, suas diferenças que são apenas isso… diferenças.

Reprodução/20th Century Studios

A equipe acompanhou o grupo por semanas por cinco estados do centro-oeste americano: Dakota do Sul, Nebraska, Arizona, Nevada e Califórnia. A paisagem desse local, inclusive, é um dos pontos mais deslumbrantes do filme, e extremamente bem apreciado pela fotografia. A atuação impecável de Frances mescla sua expressão com a contemplação do espaço que a rodeia, fazendo com que ela e os nômades sejam quase como uma extensão da maravilhosa paisagem. A sensação que isso causa em cena é ora de liberdade, ora de solidão, ora de uma singularidade emocionante. E a jornada de Frances como protagonista que está sempre em cena, lutando contra a dor de perder o marido e encarar sua nova vida, mostra uma complexidade diante das sensações e circunstâncias que dá gosto de ver em cena.

Assim como os outros filmes indicados ao prêmio principal do Oscar desse ano, Nomadland é diferente de tudo o que estamos acostumados quando se fala em cinema. Para entender melhor a experiência, só mesmo assistindo. E que venham mais obras da fantástica Chloé Zhao por aí!

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