Crítica | Napo

Denis Le Senechal Klimiuc  - 01 de novembro 2021 ás 12h00

Existem momentos da vida que fazem qualquer ser humano deixar sua alma aflorar. E, por alma, entenda o que suas referências e repertório lhe trouxerem de informação. Com isso, a imaginação e a memória se tornam verdadeiros bens preciosos, os quais podem ser carregados por toda a vida e, quando não podem, é justamente o ato de contar histórias e eternizar esses momentos que faz toda a diferença, que torna a alma mais verdadeira, o ser humano diferente de outras espécies e a arte tão importante. E tudo isso está em Napo (2020), uma animação em curta-metragem de apenas dezesseis minutos.

Em diversos momentos da experiência cinematográfica de Napo, o espectador sentirá que o nó na garganta não será em vão. Pois, aqui, como acontece de vez em quando, existe um estado sublime de sentimentos puros e verdadeiros, os quais podem soar genuínos para diferentes idades. Mas, como via de regra, quanto mais velho for o espectador, mais bagagem sentirá em suas costas ao assistir a este curta. E isso significa, basicamente, que é bom estar preparado para o bom e velho sentimento de despedida.

Outro fator essencial para aproveitar bem a experiência com esta obra é assisti-la por inteiro e de uma só vez. É claro que a recomendação é válida para todo produto audiovisual, mas, por se tratar de um curta-metragem, e por trazer uma carga emocional enorme, seu efeito, se interrompido, não será o mesmo. Dito isso, o espectador sentirá que, seja ele contemporâneo à obra ou mais velho, são os detalhes que fazem toda a diferença.

Reprodução/Miralumo Films

A visão do garoto

O primeiro personagem a ser apresentado em Napo é um garoto com cerca de nove anos, que vive com base em sua imaginação sem limites, enquanto passa as tardes desenhando na sala de casa, com sua mãe na cozinha. A típica cena, aliás, que abrangeu parte da geração que cresceu nos anos 1990, e que hoje olha para trás com carinho e saudosismo, principalmente por conta da nostalgia na mídia que está começando a abraçar essa década.

Ali, com sala colorida e cheia de personalidade, está uma casa simples que, com o conforto que a mãe do garoto podia proporcionar, abrigava a televisão como o centro da sala. Na tela, a mãe queria sempre o jornal à disposição; na ausência dela, o garoto mudava para o desenho animado favorito. Porém, tudo muda com a chegada de seu avô, que vem viver com eles após não conseguir mais cuidar de sua vida sozinho, em decorrência do Mal de Alzheimer.

Uma das coisas que o patriarca mais sente falta, porém, é a companhia de sua esposa, e isso o torna constantemente cabisbaixo. Com o sentimento de não pertencer mais ao mundo, seus dias começam a ficar gradativamente mais vazios, e seus gestos, mais vagos. A filha, e mãe do menino, não consegue mais mudar essa realidade, e o jovem ainda não tem idade suficiente para compreender aquela situação toda.

Reprodução/Miralumo Films

A visão do avô

Porém, é justamente sobre o relacionamento entre duas gerações tão distintas que está a essência desta animação atemporal. E a chegada do avô àquela casa que, apesar de familiar, lhe é estranha, faz com que o seu deslocamento seja máximo, e seus dias sejam apenas números. Mas feliz é a infância bem aproveitada, e que toda criança seja artista até descobrir o porquê, como diria Pablo Picasso. O neto tenta interagir com o avô de diversas formas, o que não ocorre, mas eis que uma inventiva solução traz a resposta.

Certo dia, o neto descobre uma foto do avô, pousada, como os velhos tempos exigiam, e faz alguns rabiscos em seu verso. Ali, ele fez o que de fato aquela foto trazia em seu contexto, em uma interpretação livre da criança que ele é. Quando o avô a descobre também, sem querer, o rabisco se traduz como o momento exato do que de fato aconteceu. Aos poucos, a dinâmica se torna constante e, com isso, a vida daquele homem bastante vivido é retomada, ainda que de forma sutil.

A grande questão é que os dias passam a ser mais coloridos, e a dinâmica entre duas gerações tão distantes se torna forte com os laços criados. O neto começa a imaginar o que diversas fotos representavam, e as memórias de alguém que sentiu, através daquela arte rabiscada, ganham novo fôlego. O mais interessante é que Napo faz isso em pouquíssimos minutos, e tudo é magicamente transportado pelo ato de fazer cinema, algo que Gustavo Ribeiro, diretor do curta, fez em estado de excelência.

Reprodução/Miralumo Films

Emocionalmente complexo e agridoce

Existe a singela mensagem para que as pessoas aproveitem seus entes queridos enquanto podem, e a força motriz pode, sim, ser o efeito da arte em cada mente e corpo. Ali, um jovem e um idoso se encontraram através das memórias quase perdidas em fotografias guardadas com tanto zelo – e quantas pessoas não fazem exatamente isso com suas lembranças? Pois a imaginativa solução encontrada no roteiro de Ribeiro e de Gabriela Antonia Rosa foi a resposta agridoce que remete fortemente a duas sensações belíssimas de dois longas da Pixar: os primeiros minutos de Up – Altas Aventuras (2009) e os minutos finais de Anton Ego (Peter O´Toole) em Ratatouille (2007), com sua epifania.

Pois de vez em quando, a arte encontra o estado sublime entre o seu significado e reflexão e a atitude provocada por suas criações e produtos. Napo é exatamente isso. Em poucos minutos, com uma fotografia estupenda e trilha sonora completamente emocional, o curta faz do espectador um poço de lembranças, e faz isso muito bem. O resultado é uma história contada como ela deve ser: com emoção e com a chamada para a ação, para a vida. Afinal, a arte também incita a atitude, não é mesmo?


Napo está disponível gratuitamente no YouTube.