Crítica | Não Olhe para Cima

Martinho Neto  - 30 de dezembro 2021 ás 12h41

Comédia e tragédia, apesar da natureza contrastante, são perfeitamente capazes de conviver em harmonia. No âmbito do cinema, a sátira parece ser um ambiente propício para que essa dualidade funcione, sobretudo quando inserido em um contexto político. Assim, este gênero tem a capacidade de enfrentar tabus e cutucar temas que dificilmente agradam a todos, deixando um sabor agridoce no público. Contudo, nem sempre a sátira consegue ser eficiente e, apesar das boas intenções, Não Olhe para Cima deixa claro quais são os principais obstáculos que esse estilo pode enfrentar.

Para construir a sua sátira, o diretor Adam McKay envolve a tradicional trama de filmes-catástrofes em uma atmosfera de comédia, cujo humor se baseia em críticas sociais. O motor da trama é um cometa em rota de colisão com a Terra, identificado pelos cientistas Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) e Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio). Estes, em conjunto com o Dr. Oglethorpe (Rob Morgan), buscam de todas as formas divulgar a descoberta para que o planeta possa preparar alguma contramedida nos seis meses que antecedem o impacto. Porém, a sociedade retratada por McKay possui tantas outras prioridades mais fúteis e irrelevantes para se preocupar que praticamente ninguém leva o grupo a sério, gerando várias situações desesperadoras para os protagonistas — e deveria ser também para o público, mas o diretor colide com um detalhe importante.

Reprodução/Netflix

Para que o humor ácido de Não Olhe para Cima funcione, precisamos aceitar que os eventos retratados em tela são absurdos demais para ocorrerem de fato. Porém, se levarmos em conta os acontecimentos políticos e sociais dos últimos anos (sobretudo no Brasil), o que vemos no filme nada mais é do que uma representação até menos ilógica da realidade em que estamos inseridos atualmente — experimente trocar o cometa por uma pandemia viral e não será difícil traçar paralelos. Somando isso ao fato do longa ser tão direto e repetitivo em suas alegorias, o sentimento causado no espectador acaba passando longe da comédia e planando apenas entre a indignação recorrente e a resignação abatida de quem sente saudades de quando a realidade não era tão surreal quanto a ficção.

Por outro lado, Não Olhe para Cima também sofre com a falta de um condutor narrativo claro ao longo das quase duas horas e meia de duração. Enquanto em A Grande Aposta e Vice, McKay tinha a cronologia dos fatos biografados como guia, em sua nova empreitada o também roteirista mostra uma certa dificuldade de construir arcos para seus personagens. É evidente que a busca dos cientistas por ações concretas sendo constantemente interrompida ou ignorada é o que move a trama. Mas acompanhar mais um surto de um deles no programa de notícias ou identificar a próxima atitude desvairada da presidente Orlean (Meryl Streep) começa a se tornar repetitivo, justificando-se muito mais pelas tentativas (por vezes bem-sucedidas) de fazer humor do que necessariamente desenvolver os personagens ou a própria narrativa em si.

Reprodução/Netflix

Dessa forma, o filme se assemelha a uma sequência de recortes que, com alguma liberdade, poderiam até ser dispostos fora de ordem — ou até mesmo em uma playlist de cortes no YouTube — sem prejudicar a experiência do público. Acontece que quando Não Olhe para Cima se encaminha para a conclusão, o roteiro precisa entregar uma conclusão satisfatória. É inegável que há, sim, uma tentativa para realizar esse feito. Contudo, o paralelo entre a serenidade dos cientistas e a extravagância do restante da população (além da atitude tão covarde quanto previsível da elite política e econômica retratada no centro do poder) diante do fim iminente acaba soando vazio e sem propósito, muito por causa da falta de um desenvolvimento mais aprofundado destes personagens.

Há momentos em que o filme brilha, disso não há dúvidas. Apesar da alta expectativa devido ao elenco estrelado, vemos boas atuações por toda a produção, sobretudo de Mark Rylance, que une características de vários bilionários excêntricos e que não lidam muito bem com pessoas em seu Peter Isherwell. Dentre os protagonistas, Randall e Katy compartilham os momentos de explosão de sentimentos, mas cada um consegue dar mais detalhes para seus personagens — enquanto DiCaprio constrói algo mais físico para a ansiedade e dependência de remédios, Lawrence prefere trabalhar mais com expressões faciais, em uma constante variação entre o surto histérico e a desistência apática. Além disso, algumas piadas pontuais (e não repetidas à exaustão) têm impacto positivo nos espectadores por conseguirem entregar ao menos um pouco do absurdo necessário para que a sátira funcionasse — como a incredulidade de Kate ao descobrir que um general lhe cobrou por um lanche oferecido de graça. Estes momentos acabam ditando o ritmo da trama de uma forma até mais eficiente do que a constante urgência citada pelo roteiro, cujos saltos temporais ilustrados por sequências da natureza ou de outras cidades parecem sequer fazer parte do corte final da obra.

Reprodução/Netflix

Não Olhe para Cima não chega a fugir muito do estilo de Adam McKay, que divide opiniões entre os que enaltecem a sua montagem dinâmica e narrativa didática, e os que chamam de pretensão ou vaidade o seu hábito de simplificar demais (com direito a textos na tela) conceitos que ao menos uma parcela do grande público é perfeitamente capaz de entender. Se o grande objetivo do diretor era produzir uma sátira do mundo real, a proposta acabou sofrendo com a superficialidade da história, além de outros problemas pontuais. Contudo, há de se levar em conta um detalhe importante: se a sociedade em que vivemos está tão imersa no absurdo, talvez a falta de sutileza na mensagem do filme seja algo até mesmo necessário para atingir o seu real propósito. Assim, tal qual os negacionistas da própria existência do cometa observados no longa, não será nada surpreendente observar a quantidade de espectadores incapazes de compreender uma mensagem desenhada tão literalmente em suas faces.