Crítica | Mundo em Caos

Denis Le Senechal Klimiuc  - 16 de setembro 2021 ás 14h00

Baseado no livro de Patrick Ness, este Mundo em Caos (2021) é uma viagem à cabeça do jovem que não consegue deixar seus pensamentos presos dentro da cachola, no sentido literal da coisa, o que renderia uma situação cômica e embaraçosa, caso fosse transformado em um longa-metragem… E é exatamente isso o que aconteceu. Porém, apesar dos esforços da premissa para parecer ridícula, os esforços sobre os clichês valem a pena serem conferidos.

Isso porque o filme, ainda que baseado em um livro infantojuvenil, consegue criar uma atmosfera de constante tensão e estranhamento. E, contando com o esforço de seu protagonista, diversas cenas supostamente ridículas ganham destaque porque Tom Holland consegue passar a persona do jovem cujos impulsos são mais fortes do que ele, mas que mantém, ainda assim, o caráter dentro das respectivas caixinhas.

Por isso, ainda que não seja o tipo de filme que merece diversos destaques positivos, este conseguiu parar em cima do muro e, ligeiramente, tender para o saldo positivo.

Reprodução/Lionsgate

A premissa espacial não convence nesta mistura de velho oeste hightech

Em um outro planeta, muito parecido com a Terra, os humanos encontraram paz para conseguir viver e fugir da terra-natal, devastada por eles mesmos. Assim, com a exploração espacial a todo vapor, um infeliz acidente faz com que toda a humanidade remanescente precise sobreviver, mesmo que isso custe a vida dos habitantes locais.

Porém, o que ninguém esperava é que os pensamentos de cada pessoa fossem aflorados, como hologramas ao redor da cabeça, o que torna a situação toda embaraçosa, mas, sobretudo, perigosa. E os mais sábios logo perceberam o potencial da situação, transformando os pensamentos em ferramenta de sobrevivência, e enganando a todos com a criação de ilusões bastante convincentes, como a forma animal, um muro ou até mesmo a recriação de outra pessoa.

Pensando nisso, o então vilão, o Prefeito Prentiss (Mads Mikkelsen) usa das mesmas técnicas de oratória do fascismo para convencer a todos: a união através do medo, da imposição e da formação do malfadado gado humano. Porém, quando o jovem Todd (Tom Holland) avisa o prefeito de uma nave que caiu na fazenda em que vive, tudo muda. Em um lugar no qual não há a presença de mulheres, uma garota, Viola (Daisy Ridler), cai naquele planeta e precisa convocar sua nave para retornar à vida que tinha.

Mas, logo o espectador descobre o motivo pelo qual aquela comunidade não conta com nenhuma mulher: elas se transformam em mistério porque a atmosfera não faz com que seus pensamentos fluam da mesma forma que acontece com os homens. O resultado é, como se espera, duvidoso.

Reprodução/Lionsgate

Tom Holland tem surpreendido por abraçar diferentes personagens com a mesma qualidade

Contando com um elenco primoroso e plural, este Mundo em Caos não impressiona e, em diversos momentos, cai no esquisito. Infelizmente, sua premissa pode parecer mais interessante do que a execução, e isso atrapalha a crença do espectador de que há algum sentido naquela história, a qual conta com três arcos bem definidos, mas muito mal explorados.

É justamente por conta do absurdo da premissa, além do roteiro entediante de Patrick Ness (autor do livro) e de Christopher Ford, que o desengrenar de tudo não acontece. A direção de Doug Liman tenta, e em diversos momentos consegue criar momentos de tensão, sobretudo expondo a estranheza dos pensamentos sempre visualmente possíveis de serem identificados, e do esforço enorme dos homens em controlá-los – a metáfora aqui é clara, mas ineficaz.

Porém, o que faz toda a diferença mesmo é o fato de Tom Holland ter abraçado seu personagem, e compreendido suas nuances de forma muito mais específica que os próprios roteiristas. É por conta de suas microexpressões, e dos maneirismos que traz ao inseguro Todd, que o ator convence quando qualquer outro levaria as situações ao ridículo. E o andar misto entre o seguro e o jovem impetuoso é muito bem escalonado pelo ator, nas medidas certas para cada cena.

Por sua vez, Daisy Ridley pouco pode fazer além de oferecer a expressão de constante terror e surpresa, algo que limita bastante a atriz, tendo em vista que é exatamente isso o que a marcou em outra franquia de uma galáxia muito, muito distante…

Reprodução/Lionsgate

No fim das contas, Mundo em Caos ganha um saldo positivo, mas apenas pela curiosidade despertada

Com tudo o que poderia ser, Mundo em Caos consegue divertir, ainda que minimamente. O diretor, ao longo de sua filmografia, provou ser hábil ao construir situações de constante tensão, e aqui mais uma vez tira leite de pedra. Porém, ainda assim, o caos está no famoso ruído, ou os pensamentos aflorados, e, enquanto os personagens precisam controlá-lo, o espectador torce para ser surpreendido. Um paradoxo que não traz resposta alguma.