Crítica | Mestres do Universo: Salvando Eternia – Parte 2

Martinho Neto  - 01 de dezembro 2021 ás 12h00

Como esquecer os “fãs” que tanto sofreram com as escolhas narrativas da Parte 1 da 1ª temporada de Mestres do Universo: Salvando Eternia, gritando em coro que acabaram com suas infâncias e que a série do He-Man quase não tinha o próprio He-Man. Pois bem, a Parte 2 chegou ao catálogo da Netflix, trazendo um príncipe Adam mais presente, um contingente maior de lutas e um leve retorno à fórmula da antiga animação. Apesar de tudo isso, a obra ainda consegue manter a qualidade e a ousadia de Kevin Smith em um projeto tão gratificante quanto promissor.

[Atenção: contém spoilers leves da Parte 1]

Depois dos eventos cataclísmicos do final da primeira leva de episódios, Eternia está à mercê do Esqueleto, agora aprimorado pelos poderes de Grayskull. Com Adam ferido e a Feiticeira nos seus limites, apenas grandes reviravoltas serão suficientes para salvar a todos.

Smith já havia mostrado anteriormente sua capacidade de construir uma mitologia funcional para os Mestres do Universo, como uma forma de se afastar do tradicional formato procedural — quando o “problema da semana” é descoberto e resolvido em um único episódio independente e, no fim, o mundo volta ao normal, sem consequências futuras. Diferente disso, o criador decidiu contar uma história única, onde cada capítulo exerce influência nos posteriores, aumentando a complexidade da obra. Para tal, Smith mostrou ser um profundo conhecedor de todo o material disponível de He-Man, dos mais variados brinquedos às diferentes versões animadas, concebendo uma narrativa totalmente lógica e conectada.

Netflix/Reprodução

Para tudo funcionar, Smith não só expande a geografia de Eternia, trabalhando diversas localidades além dos conhecidos Castelo de Grayskull e Montanha da Serpente, como aposta em diálogos e cenas expositivas para justificar escolhas e revelações futuras. Embora seja algo que quebre o ritmo narrativo desde os primeiros episódios, a técnica se justifica por se tratar de uma animação de capítulos curtos, e mesmo ganhando muitos pontos no quesito nostalgia com os mais velhos, trata-se de uma produção com censura de 12 anos. Ainda assim, as reviravoltas entregues pelo roteiro, com direito a acontecimentos possivelmente nunca imaginados antes, certamente garantem a empolgação necessária para acompanhar a trama até o fim.

Por mais que essas reviravoltas emocionem e fascinem o público, o grande mérito de Mestres do Universo: Salvando Eternia é ter mais atenção aos seus personagens, sobretudo alguns coadjuvantes. É o caso de Teela, que foi alçada à posição de protagonista ao renegar a Magia, e agora vê seu excelente arco sendo completado voltando justamente a isso; e de Maligna, umas das vilãs secundárias mais interessantes, cujas motivações entraram em conflito na Parte 1, e que agora encontra-se em posição de destaque nos episódios finais.

Netflix/Reprodução

Por outro lado, alguns pontos do roteiro da série acabam deixando um pouco a desejar quando comparados aos arcos principais. O Esqueleto, por exemplo, continua sendo um vilão unidimensional, mesmo que isso sirva para justificar uma virada importante antes do fim da temporada. Já o He-Man acaba sendo relegado apenas ao confronto final (além de uma incrível demonstração do Poder se manifestando sem filtros no corpo do campeão), dando mais espaço para o Príncipe Adam ser desenvolvido — embora as melhores frases que definem sua moral e humildade sejam ditas longe da sua presença. E há, como esperado, uma grande batalha no fim, porém que serve apenas para dar utilidade aos personagens secundários e terciários, e pouco insere perigo real na narrativa.

Netflix/Reprodução

Apesar das inconstâncias mais visíveis nesta segunda parte, o saldo final de Mestres do Universo: Salvando Eternia é bastante positivo. Kevin Smith foi capaz de estabelecer a tábua da mitologia de He-Man e seus amigos, além de explorar possibilidades nunca antes vistas, de tal forma que será difícil não levar essa história em consideração em qualquer conversa sobre a franquia. Por mais que a obra caminhe para um desfecho positivo onde tudo se resolve, o gancho deixado para uma segunda temporada é animador, o que é, no mínimo, curioso, visto que a atmosfera de encerramento e ajuste de contas definitivo da Parte 1 evoluiu para um sentimento de recomeço para a série. Felizmente, esta primeira temporada já vale como um fôlego de renovação muito bem-vindo.