Crítica | Mestres do Universo: Salvando Eternia – Parte 1

Martinho Neto  - 02 de setembro 2021 ás 12h00

Criado apenas para contextualizar a linha de brinquedos para crianças, o sucesso do desenho do He-Man desde a década de 1980 é tão inegável quanto surpreendente. Porém, devido à origem um tanto descuidada da animação, a obra nunca teve uma mitologia sólida na qual se basear, sobrando para os fãs da época apenas o sentimento de nostalgia e o apelo emocional pelos personagens. Quase 40 anos depois, a Netflix deu a Kevin Smith a missão de resgatar o desenho original com qualidade, e, felizmente, ao menos a parte 1 de Mestres do Universo: Salvando Eternia cumpre esse objetivo com maestria.

Para recuperar o espírito da animação antiga, Smith nos joga diretamente na ação, quase como um capítulo final dos embates entre He-Man e Esqueleto. Porém, dessa vez há consequências inimagináveis para um episódio inicial, e no fim não temos a menor ideia do que acontecerá em seguida. É aí que se destaca a figura de Teela. Ressentida com tudo e todos após segredos serem revelados, cabe a ela conduzir a jornada para salvar a magia de Eternia e restaurar o equilíbrio do universo.

Fonte: Reprodução/Netflix

Antes de tudo, é preciso deixar algo bem claro: uma visão mais adulta de uma história não precisa ser uma versão sombria e melancólica dela. A melhor forma de fazer isso é estabelecer que existem motivações críveis e consequências para as ações de cada personagem. Quando se observa a série antiga, não existia perigo real, uma vez que todos sabiam que, no fim do dia, tudo reinicia após a lição de moral do He-Man. O que a nova animação faz, desde o primeiro episódio, é determinar que riscos existem de verdade, e graças a isso há também a recompensa por superá-los. Assim, sentimos o impacto real de quando algum personagem se sacrifica, bem como conseguimos acreditar em certos vilões trabalhando contra seus princípios, não por uma redenção forçada, mas sim porque suas motivações fazem sentido.

Smith sabe que sua história não vai atingir os jovens com a mesma força que chegará nos corações dos mais velhos que acompanhavam diariamente as aventuras de He-Man e seus aliados. Por isso, ao invés de tentar criar algo novo, ele prefere aproveitar o máximo possível do que foi apresentado originalmente — seja da animação, ou ainda na própria linha de brinquedos — para criar não só uma continuação espiritual para o desenho, como também a sua própria narrativa para os heróis, além de delimitar de forma clara a mitologia de Eternia — mesmo que, para isso, ele acabe abusando dos diálogos expositivos. E para todos os que apontam que He-Man não é mostrado o suficiente, talvez estes devessem retornar ao próprio desenho original que se dizem “fãs”, uma vez que era comum existirem episódios onde o príncipe Adam sequer se transformava no poderoso guerreiro, e cabia aos seus amigos salvarem o dia. Não à toa, o destaque dado aos “Mestres do Universo” no título é tão substancial quanto o dado ao próprio protagonista.

Fonte: Reprodução/Netflix

Como o episódio inicial já altera demais o status quo da narrativa, evitaremos nos aprofundar na trama para evitar possíveis spoilers. Mas podemos comentar sem medo que Teela assumindo um certo protagonismo não só é totalmente natural, como também necessário. E essa questão está longe do que figuras abissais da internet costumam chamar de “lacração”. Apenas observe: a personagem, já chamada de Deusa Guerreira antes mesmo da primeira animação ser lançada, sempre possuiu relação direta com os personagens principais tanto quanto o príncipe Adam. Além disso, ela é filha adotiva do Mentor, e acabou herdando o título do pai nas primeiras cenas da nova série. E, para completar, lutou diversas vezes ao lado do He-Man, sem jamais saber que este era o seu melhor amigo o tempo todo.

Fonte: Reprodução/Netflix

Enquanto a presença de Adam poderia engessar a série e condená-la a ser apenas mais uma repetição do que já existe, a ausência do campeão de Eternia expande a trama para um universo de novas possibilidades. E suprir essa ausência com Teela, que agora rejeita tudo o que conhecia e passa a viver como o exato oposto do que estava destinada a ser, é o fio condutor perfeito para essa história. Voltando à definição de visão adulta citada anteriormente, Teela subverte as expectativas e toma decisões baseadas na sua vontade, indo de encontro aos estereótipos de bem e mal utilizados tantas vezes na animação original. E essa transformação é observada mais de uma vez na nova série, como na sequência onde Maligna e Gorpo compartilham suas origens dramáticas e problemas com expectativas postas sobre eles, mesmo que ambos sejam inimigos mortais.

Ainda que só possamos emitir uma opinião definitiva quando a segunda parte for lançada, ao menos é seguro afirmar que Mestres do Universo: Salvando Eternia trouxe a força de volta para a franquia. Evidente que não se trata da história profunda típica do cinema independente, muito menos do melhor exemplar de ação da história das animações. Mas o que encontramos na obra é uma visão madura que respeita não só o legado de He-Man e os Mestres do Universo, como também o coração saudosista daqueles que adoravam assistir ao desenho original, mas que cresceram e agora têm a oportunidade de ver seus heróis crescerem também.