Crítica | Matrix Resurrections

Denis Le Senechal Klimiuc  - 22 de dezembro 2021 ás 15h00

Quando Matrix (1999) chegou aos cinemas, o mundo não estava preparado para aquilo. Próximo ao boom do milênio, todo espectador sentiu na pele a revolução pela qual a tecnologia estava passando na sétima arte. Em consequência, o filme é visto até hoje como um dos responsáveis pela mudança de parâmetro do chamado “cinema de entretenimento”. Ainda que Matrix Reloaded (2003) e Matrix Revolutions (2003) não tenham alcançado o mesmo sucesso, a partir dali restou a dúvida: será que ainda há o que contar sobre esse universo ou tudo deveria ter parado em 1999? Matrix Resurrections (2021) responde.

Enquanto Lana Wachowski parece querer muito mais do que ressuscitar a franquia que a tornou famosa, ao lado de sua irmã, Lilly, a força desse universo parece ter encontrado novamente seu rumo, e o resultado é uma experiência extasiante, que vai muito além de questões nostálgicas – algo na moda no cinema desde sempre. Por isso, deixe de lado quaisquer preconceitos que o segundo e terceiro filmes lhe trouxeram, com o gosto amargo na boca. Agora é outra experiência e, aparentemente, o tempo fez bem à criação das irmãs Wachowski. Porém, agora é somente Lana quem volta à franquia, como diretora e roteirista, aqui ao lado de David Mitchell e Aleksandar Hemon.

A partir de agora, por sua vez, o universo de Matrix reabre suas portas, e a outra função que este novo longa tem é a de encontrar um ponto de equilíbrio no que parece ser um convite a novas possibilidades, sobretudo no que parece ser a libertação de Lana de quaisquer amarras do estúdio. Por isso, a partir do momento em que a Warner permitiu que a liberdade criativa da diretora viesse à tona, seu talento vai de encontro ao fã que acompanha esse universo há mais de vinte anos.

Reprodução/Warner Bros.

Como o elenco de Matrix Resurrections faz toda a diferença

O retorno de Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie-Anne Moss) significa tudo para que a essência do filme esteja em seu devido lugar. Como os velhos personagens que conquistaram o público uma ou duas gerações atrás, agora é a hora de conferir o que o envelhecimento fez não aos atores, mas aos seus míticos personagens. O resultado, porém, é um misto emocional tão complexo que vai muito além da nostalgia, e oferece muito mais do que as continuações anteriores conseguiram fazer. Por isso, o reencontro entre ambos é um dos pontos fortes do filme, e isso faz toda a diferença.

Isso porque agora o elenco conta com novos e interessantes integrantes, a começar pelos “novos” Morpheus (Yahya Abdul-Mateen II) e Smith (Jonathan Groff), além de personagens que fazem da retomada deste caminho por parte de Neo algo tão complexo quanto no original, com a enorme diferença de que o universo já não é mais estranho ao público. Por isso, Bugs (Jessica Henwick), O Analista (Neil Patrick Harris), Niobe (Jada Pinkett Smith), Sati (Priyanka Chopra Jones) e Gwyn de Vere (Christina Ricci) entram na escolha após pílula azul/pílula vermelha, e enriquecem o olhar de Lana para Neo.

Porém, neste caso, a partir do momento em que o protagonista é convocado – ou sente o chamado – novamente, existe uma série de questões existenciais e filosóficas que, se ditas, tornam-se spoiler do pior tipo. Portanto, vale dizer que Lana traz a máxima de que o amor conquista tudo, algo que sua própria existência, assim como a de Lilly, serve de exemplo ao longo das últimas duas décadas. Com isso, existe uma poderosa metáfora, que continua o que as continuações já haviam trabalhado, de que Matrix é algo muito além de uma “verdade inconveniente”, e sim um olhar sobre como certas escolhas fazem de cada caminho da vida um universo infinito de possibilidades.

Reprodução/Warner Bros.

E a verdadeira temática é…

Matrix Resurrections é definitivamente divertido, algo que também faltou às continuações, e que havia no primeiro, de forma constantemente sutil e ácida. Por outro lado, o filme conta com alguns problemas estruturais, e que fogem à complexidade do roteiro, contando mais com a cadência de Lana no comando, fazendo de algumas passagens um tanto quanto expositivas. Por exemplo: o olhar de Neo sobre Trinity, e vice-versa, tornam em alguns momentos o romance descabido ao propósito e à urgência do roteiro, e isso pode atrapalhar um pouco o espectador na hora de decidir para qual lado ir: para o sempre caótico clima da Matrix ou para os corações de seus protagonistas.

Mas, ainda que sejam pequenas falhas que o tirem dos trilhos, ironicamente é a construção quase abstrata de um universo que continua diretamente de onde parou que faz do filme algo de outro nível. Com isso, mais uma vez o roteiro merece crédito por construir sua continuidade de forma exímia, e isso também é mérito do editor, Joseph Jett Sally. Por sua vez, a fotografia de Daniele Massaccesi e John Toll merece aplausos em pé pela minuciosa construção de luzes e cores, atualizando a linguagem, aproveitando os efeitos visuais (ótimos, aliás) e mantendo a identidade, uma das principais características de toda a franquia.

Aliás, a temática de Matrix Resurrections é uma de suas maiores qualidades, e Lana Wachowski acertou em cheio ao não deixar de referenciar os outros capítulos, mas também ao abrir tantas possibilidades que, a partir de agora, os diversos detalhes simbológicos deste longa estejam na web em pouquíssimo tempo, levantando teorias dos mais loucos significados atrás de respostas. O melhor de tudo é que o tema é fragmentado, e cada personagem conta com parte dele para si. Portanto, não será algo tão fácil de se dissecar.

Reprodução/Warner Bros.

Mais do que um sopro, um tornado

Com a força de uma obra responsável por atualizar a franquia, o efeito deste filme é, talvez, semelhante ao de Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força (2015): utiliza elementos nostálgicos, atualiza a linguagem e a tecnologia, traz elenco novo e antigo e abre as portas para novos trabalhos. É claro que cada qual com a sua devida proporção, mas a semelhança do caminho percorrido por ambos os filmes é aterradora. Sobretudo por conta do clímax.

Sim, Matrix Resurrections conta com um clímax poderoso, o desfecho que torna o terceiro e último ato do tipo que fará o fã se emocionar, e o novo espectador correr para saber mais sobre o universo que acabou de presenciar. Por isso, ainda que não tenha a mesma força de mudar o parâmetro dos blockbusters, algo que pertence a Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), o filme é definitivamente uma ótima experiência, e vale cada minuto por ter a audácia de ser, em tempos de efeitos visuais em todos os cantos, simplesmente existir.

O melhor é que o ato de existir, dentro do universo de Matrix, significa uma série de conversas trazidas à tona por seus personagens, a expansão de um mundo que continuará influenciando a cultura pop e, o mais importante, o respeito ao fã, sem jamais subestimar sua inteligência. Um acerto dos bons.