Crítica | Marighella

Denis Le Senechal Klimiuc  - 15 de novembro 2021 ás 19h00

Wagner Moura precisou guardar seu Marighella (2021) por dois anos. Desde 2019, não encontrou respaldo para o lançamento de seu filme, sobre o importantíssimo fio-condutor que lutou contra a Ditadura Militar do Brasil, e que encontrou um eco, ainda que não de mesmo tamanho ou tão explícito, na época em que planejava lançá-lo. Desde então, a obra circulou pelo boca a boca com alta expectativa, e finalmente, em 2021, durante a 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme encontrou liberdade em seu lançamento. E, por mais que a história tenha criado uma espécie de “aura” para o produto audiovisual, este é sem dúvidas um exemplo do grande cinema brasileiro.

Isso porque a produção não poupou construção narrativa: são duas horas e trinta e sete minutos de exibição, o suficiente para dividir a obra em uma minissérie (o que vai acontecer em 2022), mas com coerência para torná-la filme de primeira linha porque o ator e diretor, que aqui assume apenas a batuta atrás das câmeras, demonstrou domínio completo pela difícil história que queria contar.

Por isso, quando o espectador é jogado no meio da Ditadura, ele já sabe que o que o espera não é nada bom. Não é preciso contar como tudo começou, porque essa premissa acompanha todo cidadão brasileiro há décadas. Por sua vez, o próprio protagonista dispensa apresentações, porque o que importa aqui são seus atos, e o que seus companheiros de luta fazem através de sua liderança e exemplo. Desta forma, o espectador cai no olho do furacão e sente, pouco a pouco, a tensão aumentando nesta grandiosa história do sacrifício de um grupo em nome de seu povo.

Reprodução/Paris Filmes

Como os personagens se desenvolvem

Marighella (Seu Jorge) não está sozinho. À sua volta está a causa que luta conta a Ditadura e que gradativamente faz isso de formas cada vez menos discretas, seja através de uma transmissão nacional em rádio clandestina, seja pelos gestos diretamente contra os agentes do DOPS e representantes políticos norte-americanos, que estavam implantados no Brasil há anos apenas esperando pela hora de agir, como a história bem demonstra. Com isso, o filme apresenta seu protagonista como um mártir a ser seguido, o que fez toda a diferença para que a população enfim se conscientizasse do que significava aquele período.

Isso porque boa parte dos brasileiros apoiou o Golpe, e o filme dá o benefício da dúvida àqueles que precisaram pensar sobre suas atitudes, o que não acontece, obviamente, com o responsável pela caça ao Marighella, Lúcio (Bruno Gagliasso), e sua trupe de policiais bandidos que torturavam, perseguiam e faziam o que fosse necessário para alcançar fins fascistas. Aos poucos, então, os três longos atos desta obra apresentam a queda daqueles que estiveram próximos de Marighella, como Branco (Luiz Carlos Vasconcellos), Humberto (Humberto Carrão), Jorge (Jorge Paz), Bella (Bella Camero), Frei Henrique (Henrique Vieira) e outros tantos.

Aliás, o elenco é primoroso em todos os momentos, a começar pelos nomes de quase todos os personagens secundários serem os mesmos de seus intérpretes. Com isso, Wagner Moura dá a dica do quão visceral a experiência se tornará, pois cada um mergulha de cabeça em seu propósito dentro de cena. Enquanto Seu Jorge dá segurança e humanidade ímpar ao protagonista, Gagliasso merece aplausos por jamais soar caricato, e o detalhe está no olhar, no quanto ele acredita no que está fazendo. Por sua vez, Carrão é formidável ao não se deixar abalar pelos tropeços da causa, enquanto Bella Camero se destaca pela unidade dentro de cena. Mas é Jorge Paz quem vivencia a cena mais difícil do longa, e sua composição é assustadoramente real.

Reprodução/Paris Filmes

Técnica de primeira linha

Para complementar o elenco, tecnicamente Marighella também é impecável. Para começar, o roteiro de Moura e Felipe Braga, baseado no livro de Mário Magalhães, jamais acelera seu próprio tempo, e encontra espaço o suficiente para desenvolver cada arco dentro de si, do menor ao protagonista, dando espaço para os bastidores de quem estava lutando contra a Ditadura no Brasil. Com isso, a montagem de Lucas Gonzaga é habilidosa ao respeitar esse tempo, e segura bem a troca de cenas ajudando a compor o quadro colorido, mas lento, do jeito que Moura planejou.

Por sua vez, detalhes como o desenho de produção de Frederico Pinto, o figurino de Verônica Julian, a direção de arte de Pinto com Claudia Andrade. Cada aspecto do filme merece aplausos, já que consegue recriar com escala considerável os anos 1960 e a São Paulo clássica que ainda tinha suas ruas centrais intactas, e seus prédios imponentes respeitosamente fechando o transeunte em labirintos longos de concreto. E detalhes como os automóveis utilizados, assim como suas placas, são formas de ajudar a contar a história com exatidão, e fazer o espectador mergulhar nos horrores velados daquela época.

Ainda sobre a parte técnica, vale ressaltar a qualidade da fotografia de Adrian Teijido, e como o fotógrafo conseguiu expor aquela realidade sem granular demais o filme. Ao contrário, as cores são valorizadas, mesmo que em sua maioria representem o sépia da fotografia vista hoje sobre aquela época. Além disso, as peles sempre suadas dos atores parecem verdadeiras pedras preciosas, sobretudo o que foi feito com Seu Jorge, iluminando sua face por completo, sem jamais permitir que seu Marighella permanecesse nas sombras.

Reprodução/Paris Filmes

Uma experiência dura, mas necessária

Com todas as qualidades, Marighella pode ser visto sob dois ângulos: como um grande filme pertencente ao cinema nacional, cujas qualidades técnicas e narrativas o colocam em destaque por saber contar uma excelente história; e por sua importância política, cujos entraves entorno de seu homenageado foram mais do que o suficiente para provar que o filme incomoda muita gente, e justamente por isso, como cinema, é fundamental existir.

Esta é a visão de um ator que se destacou no cinema nacional por sua carreira versátil e sempre ativa. Mas essa também é a visão de um cineasta de mão cheia, que acumulou experiência o suficiente para provar que certas histórias merecem ver o mundo, e que todas as dificuldades passadas para que elas existam comprovam a necessidade de que merecem chegar com ainda mais força. Marighella, portanto, tem força e qualidades de sobra.