Crítica | Mank

Denis Le Senechal Klimiuc  - 25 de novembro 2021 ás 09h00

Hollywood é o destino de onze a cada dez sonhadores que almejam se tornar celebridades do cinema. O exagero não é à toa, já que a Meca da sétima arte tem fama de ser o centro das produções e artistas mais influentes há mais de cem anos. Com isso, todo filme que revisita a velha Hollywood tende ao saudosismo, mas nem todos conseguem como este “Mank” (2020), da Netflix.

Dirigido pelo talentosíssimo David Fincher, responsável por obras como “Seven: Os Sete Crimes Capitais” (1995), “Clube da Luta” (1999), “O Curioso Caso de Benjamin Button” (2008), “A Rede Social” (2010) e “Garota Exemplar” (2014), entre tantos outros, o cineasta agora traz um de seus trabalhos mais pessoais, pois conta com o roteiro de Jack Fincher, seu pai, falecido em 2003 e que, desde então, nunca viu sua escrita ir às telas.

Porém, mais do que saudosismo, este trabalho também conta com o habitual preciosismo técnico do diretor, algo admirado em todos os filmes desde o início de sua carreira, no mundo musical, onde seu talento já era reconhecido na direção de clipes. Com isso em mente, a construção da história deste filme é poderosa, mas lenta, e isso pode dividir o espectador.

Reprodução/Netflix

O preciosismo de David Fincher na construção de sua Hollywood

A história de “Mank” gira em torno de Herman Mankiewicz, roteirista da era de ouro de Hollywood, quando começou sua carreira e deslanchou em filmes com grandes talentos dos anos 1930. Porém, devido a duas de suas principais características, perdeu-se em meio às influências, e acostumou-se ao ostracismo desde então.

Sua personalidade, nada afável e transparente demais para os tempos em que a política já dominava o cinema, juntou-se ao alcoolismo, mal que o levou anos mais tarde, e que mudou completamente a concepção que as pessoas tinham de seu talento. Eis aqui, então, a construção de um protagonista nada formidável, dono de muito talento, mas pouca vontade para deixar suas palavras brilharem.

Aliás, Gary Oldman encarna Herman com seu habitual talento, trazendo as nuances de um personagem doce, que adora o diálogo e que jamais deixou-se levar pelo mundo das celebridades. Com isso, então, Mank conquistou muitos amigos, mas inimigos em igual quantidade, algo que o fez se transformar quase em uma persona non grata em Hollywood.

Ainda assim, trouxe energia e garra o suficiente para ver celebridades e diretores de diversos escalões lhe tratarem com respeito, ainda que ele não tenha feito o mesmo. Algo, aliás, evidente na forma irreverente como Oldman carrega seu personagem, quase sempre inebriado – mas cem por cento sarcástico e ácido em suas tiradas rápidas, sem jamais perder a pose do alcoólatra intelectual.

Reprodução/Netflix

A construção técnica do filme impressiona por ser genuína

A vida de Herman, porém, muda completamente quando o seu próprio saudosismo chega à mente de um dos cineastas mais influentes daqueles tempos, alguém que pouco se importou com a personalidade do protagonista, e sim com seu talento: Orson Welles o convidou para escrever o roteiro de “Cidadão Kane” (1941).

Por muitos considerado o melhor filme de todos os tempos, é claro que uma de suas melhores qualidades é o roteiro, único prêmio ganho no Oscar de 1942 e, portanto, peça importante para a concepção de toda a fama que o sucedeu. Por isso, a junção de um cineasta minucioso com um roteiro preciosista era necessária, o que aconteceu neste mundo de Finchers e Mank.

Pois David Fincher respeita o ritmo do roteiro de seu pai, e constrói este “Mank” com calma, compondo peça a peça do quebra-cabeça proposto, aproveitando para fazer o espectador mergulhar no fenomenal cenário que mistura o riquíssimo desenho de produção de Donald Graham Burt e a direção de arte de Chris Craine e Dan Webster. O resultado é um mergulho triunfal na Hollywood dos anos 1930 e 1940.

Além disso, o figurino de Trish Summerville é a peça que faltava para tornar este projeto quase documental, algo que a fotografia de Erik Messerschmidt recria impecavelmente, contando com uma técnica bastante utilizada à época, a inversão de contraste, e tornando os cenários verdadeiras obras de arte. Ou seja, a belíssima fotografia traz o que Hollywood representava naquela época, e este filme é um excelente estudo sobre como tudo era feito.

Reprodução/Netflix

Mank é lento, mas sua homenagem é uma bela retratação de época

Trazendo o saudosismo dos anos 1930 e 1940 às telas da Netflix, David Fincher também conta com um elenco afiado: Amanda Seyfried agarra sua Marion Davies com unhas e dentes, e seu sotaque e sua postura merecem aplausos pela recriação; por sua vez, Lily Collins, Arliss Howard e Charles Dance estão simplesmente sensacionais em seus papéis.

A alma do filme, aliás, está no poder que os coadjuvantes têm ao tornar tudo natural, algo que o coração da obra, Oldman, traz como contraponto, sempre servindo ao espectador como referência sobre o que pensar e como agir.

Assim, “Mank” é um filme lento, mas quem o acompanha se dá muito bem, pois Fincher constrói precisamente sua Hollywood, e o roteiro de seu pai é um dos raros exemplos de que o ritmo pode, sim, atrair ou afastar o espectador, mas quando o talento faz seu trabalho, o resultado é um longa-metragem que servirá como estudo para as próximas gerações. Nada mais saudosista, aliás.