Crítica | Maid – 1ª Temporada

Denis Le Senechal Klimiuc  - 09 de fevereiro 2022 ás 09h00

Maid (2021) é um soco no estômago. Não há nada mais simples para definir esta minissérie da Netflix, cuja história gira em torno de uma jovem, Alex (Margaret Qualley), cuja vida não é nada fácil. Após se cansar de ser maltratada e violentada verbalmente pelo marido, Sean (Nick Robinson), ela decide sair da casa onde até então morava, com a pequena filha Maddy (Rylea Nevaeh Whittet), prestes a completar apenas 3 anos de idade. Porém, ao invés de tudo ficar mais simples com a atitude corajosa de Alex, parece que o peso do mundo cai em suas costas, e a minissérie traz cada grama para compartilhar com o espectador.

Com 25 anos, uma família disfuncional e nenhuma garantia de que seus esforços vão valer a pena, tudo o que Alex busca é paz de espírito para ela e, principalmente, sua filha. Justamente por ter crescido com pais divorciados, e com as dores que isso lhe causou ainda atormentando seus valores, a protagonista passa cada episódio tentando revidar os socos que o mundo lhe confere. Por isso, dificilmente esta será uma minissérie que agradará ao espectador menos atento, mas definitivamente o peso de uma personagem tão bem construída faz toda a diferença, pois ela ficará na mente de quem a acompanhou por algumas semanas.

Com a difícil missão de prender o espectador, a minissérie ganhou espaço justamente pelo tema, que chamou a atenção rapidamente: o retrato da maternidade, o significado amplo do nome deste projeto, e o sacrifício que toda mulher precisa fazer pela família. Aqui, há uma realidade norte-americana que ninguém quer ver, e tudo o que Alex faz por ela e por Maddy, em 10 episódios, é o correspondente à mensagem universal sobre uma mulher que não tinha mais nada a perder, mas que precisava ganhar espaço para que sua filha pudesse sobreviver.

Reprodução/Netflix

A dor do pouco sustento

A motivação diária de Alex e como ela lidou com as frustrações, o ir e vir em sua cidade e o quanto se provou resiliente, e os cuidados com Maddy, sempre em primeiro lugar, dão o tom do primeiro ato, por volta dos três primeiros episódios. Porém, a sensação que dá é de que havia muito conteúdo para mostrar e, por isso, nenhum tempo a perder. Desta forma, os primeiros minutos dão o tom exato de como as coisas funcionam na vida daquela protagonista.

Isso porque Alex sofre de violência doméstica, e o seu grande problema com isso, o qual lhe conferiu estado de negação durante a primeira metade desta minissérie, é o fato de a violência não ter sido física em momento algum. Mas, ao contrário do que ela e tantas mulheres pensam, as diversas tentativas (muitas delas bem sucedidas) de Sean controlá-la conferem ao fato o título de assédio e violência, além de em diversos momentos negativá-la ou anulá-la a ponto de Alex se tornar uma refém em sua própria casa.

Além disso, Alex sofre alguns gatilhos durante sua busca por oportunidades melhores, e isso traz à tona sua própria vida como filha. Sua mãe, Paula (Andie Mac Dowell), é uma mulher que sofre cronicamente de violência doméstica, sem jamais reconhecer o padrão pelo qual ela mesma busca em seus parceiros ao longo da vida. Além disso, até certo ponto ela ainda não havia sido diagnosticada com transtorno bipolar, o que a faz agir de diversas formas injustas com a própria filha. Por sua vez, o pai de Alex, Hank (Billy Burke), passou boa parte da vida distante da filha, com quem perdeu o contato quando ela era apenas uma criança, e o fato de ter seguido sua vida, e criado outros vínculos familiares, sempre incomodou Alex.

Reprodução/Netflix

O brilho do elenco e do roteiro

Com tanta densidade no roteiro, escrito por Colin McKenna, Marcus Gardley, Bekah Brunstetter, Michelle Denise Jackson e Molly Smith Metzler, sendo esta a autora do livro e criadora da obra para a Netflix, Maid caminha por lugares obscuros à vida de qualquer pessoa, e a precisão de sua escrita é um dos pontos fortes, pois o roteiro mantém o ritmo alarmante o tempo inteiro, tornando-o desesperadamente real e complexo a ponto de ser bem amarrado do começo ao fim.

Porém, o mérito merece ser creditado ao elenco, que conta com coadjuvantes em estado de graça: Nick Robinson se despe de qualquer vaidade e abraça seu Sean com a certeza de que ele tem consciência do quanto seu alcoolismo o leva aos piores lugares possíveis. Anika Noni Rose se torna uma antagonista cujo arco lhe confere tamanha humanidade que, em diversos momentos, é possível compreender sua arrogância por conta do talento da atriz. Raymond Ablack é o doce Nate, o príncipe alado que sempre está à disposição para salvar Alex, mas cuja complexidade de suas ações vão muito além desse personagem bobo.

Mas, ainda mais importante, é o fato de Andie MacDowell brilhar em cada segundo de tela, como a sempre complicada Paula, e, é claro, Margaret Qualley, vista em Era Uma Vez em… Hollywood (2019), grande responsável por fazer o espectador grudar na tela do começo ao fim. A composição de sua Alex é tão minuciosa que, em diversos momentos, o sufoco sentido pelo espectador pode ser creditado ao talento da atriz em jamais esconder a verdadeira dor daquela personagem: passar fome, não ter sequer um abrigo e ser jogada de um canto a outro pela rispidez do ser humano são marcas que jamais serão esquecidas, como a atriz bem demonstra com a simplicidade de seus olhares.

Reprodução/Netflix

Difícil de engolir, mas necessária

A minissérie é mesmo intensa do começo ao fim e, em vários momentos, pode desanimar o espectador pela rigidez de sua temática. Porém, a qualidade do roteiro é, sem dúvidas, um chamariz bom o suficiente para trazer à tona as diversas quebras de tabus em temas que sequer deveriam ser julgados. Com isso, tecnicamente impecável, Maid traz a fotografia de Guy Godfree, Quyen Tran e Vincent de Paula como um importante pilar para apresentar a vida de Alex em constante crepúsculo.

E, naquela bela cidadezinha, os diretores responsáveis pelos episódios fazem questão de apresentar as dores de quem enfrenta a pobreza nos Estados Unidos, com a câmera na mão servindo de aspecto quase documental, justamente para jamais esconder algumas verdades jogadas para debaixo do tapete político. Por isso, e por tantas outras qualidades, Maid merece ser vista com calma, como um remédio amargo, mas cujo resultado é o esclarecedor caso de quem não se escondeu da realidade. A história é tão bela quanto o despertar após longo período enfermo.