Crítica | La Casa de Papel – Parte 5

Martinho Neto  - 21 de dezembro 2021 ás 12h00

É impossível negar o sucesso de La Casa de Papel, série que se tornou um fenômeno global e alavancou bastante o nome da Netflix entre o público, além de abrir caminho para a propagação de várias outras produções espanholas pelo mundo — algo semelhante ao visto em 2021 com Round 6. Não por acaso, a obra coreana passará, em um futuro próximo, pelo mesmo “problema” que sua contraparte hispânica enfrentou: o esticamento de uma história cujo final já foi apresentado. Mas enquanto o jogo da lula não ganha sua segunda temporada, temos a oportunidade de (finalmente) dar um adeus definitivo aos carismáticos ladrões com máscaras de Salvador Dalí. E entre erros e acertos, o produto final entregue consegue se encaixar nas expectativas que as legiões de fãs tanto construíram.

Quando se leva em conta o aspecto “novelão” de La Casa de Papel, além de infinitas cenas com câmeras lentas e recheadas de diálogos e flashbacks expositivos, era presumível que a série não fosse tão longe. Por outro lado, o criador Álex Pina é bastante inteligente ao inserir ganchos abertos no fim de cada capítulo — ajudando a popularizar a maratona no streaming —, assim como sabe aproveitar o enorme carisma dos personagens para fazer com que seja impossível não apertar o play em todos os episódios seguintes. Misturando esses altos e baixos, sentimento presente no próprio enredo da série, que nos carrega em uma montanha-russa de emoções, temos a atmosfera propícia para o êxito da produção. O entretenimento está sempre em primeiro lugar, e essa quantidade de imperfeições até contribui para que o público não leve nada a sério demais e apenas desligue o cérebro e aproveite aquele tempo — e isso é importante até mesmo para evitar que a romantização dos ladrões não ultrapasse as paredes da TV.

Reprodução/Netflix

A série nunca chega a, de fato, acertar totalmente em um quesito, assim como também nunca erra grotescamente. O envolvimento de Berlin (Pedro Alonso), por exemplo, faz todo sentido desde o início, uma vez que o personagem é adorado pelos fãs e faria falta depois de seu sacrifício no fim da Parte 2. Contudo, o irmão do Professor (Álvaro Morte) vai aparecendo em cenas cada vez mais longas e cheias de monólogos reflexivos, transformando suas passagens em algo cansativo e dispensável, uma vez que nos últimos episódios seu núcleo serve apenas para introduzir personagens que serão aproveitados futuramente. Outro aspecto que perde muita força é a narração voice over de Tóquio (Úrsula Corberó), mais uma personagem amada por quem assiste, mas cujo tom exageradamente dramático e com muitas frases de efeito servem apenas para desgastar a imagem da ladra que já não está sequer entre os sobreviventes da banda. Todas estas irregularidades, além de erros de continuidade, passagens supérfluas e alongamento de tramas secundárias desinteressantes não apenas mostram que a série tem, sim, vários problemas, mas comprovam o poder que personagens carismáticos e cenas de ação bem executadas exercem no sucesso ou fracasso de uma obra.

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La Casa de Papel sempre apostou na urgência que movia os atos dos seus personagens, além de toda a ação e imprevisibilidade dos próximos passos dos planos mirabolantes do Professor. Todavia, para que essa receita, que funcionou tão bem nas Partes 1 e 2, pudesse conquistar novamente os corações dos fãs, era preciso deixar sempre uma impressão de que o assalto estava prestes a findar — seja isso algo bom ou ruim para os protagonistas. E ainda que a produção desse sinais desde o princípio que já poderia ter sido encerrada, é preciso parabenizar Pina não só por conseguir manter coesa uma trama já esticada por 26 episódios e dividida em quatro partes (a Parte 5 foi dividida em dois volumes), mas principalmente por entregar uma saída digna para a obra.

Reprodução/Netflix

Enquanto a Parte 3 foi responsável por situar os personagens e nos colocar diante dos novos acontecimentos, a Parte 4 e o volume 1 da Parte 5 essencialmente tratavam de uma ação muito mais belicosa, necessitando para isto que o Professor estivesse, por várias vezes, incapacitado de reger o plano, enquanto os assaltantes agiam impulsivamente e por conta própria. Felizmente, os episódios finais da Parte 5 retomaram aquele sentimento do início e que fez tantas pessoas se apaixonarem pela série. A morte de personagens, ainda que não tenha sido nunca banalizada, volta a ser uma ferramenta muito mais pontual, e a “magia” do Professor retorna com planos que surpreendem tanto os espectadores quanto os próprios protagonistas. Apesar de toda a suspensão de descrença exigida para desfrutar da produção, a força do fechamento dos arcos narrativos de personagens tão amados é mais do que suficiente para elevar os capítulos finais a um patamar distinto na estante de obras que entregaram um final satisfatório para o público.

Talvez este seja o maior mérito de toda a trajetória de La Casa de Papel. A história jamais saiu do controle, sempre mantendo a capacidade de ser um fenômeno para o seu público. E, para isso, Alex Pina não teve medo de errar (ou até mesmo persistir nos erros), contanto que o resultado final fosse satisfatório para os únicos que realmente importavam: os fãs. E estes fãs, que se divertiram e se emocionaram com uma narrativa escapista e cheia de exageros, podem se sentir orgulhosos e realizados ao cantar Bella Ciao pela última vez.