Crítica | Judas e o Messias Negro

Denis Le Senechal Klimiuc  - 20 de novembro 2021 ás 15h00

Existem histórias que precisam passar por um longo período de maturação para chegar ao público. Muitas carecem disso porque não encontraram o artista correto para encarná-las; outras estão no tempo errado, e precisam de realizadores corajosos. Outras sofrem com ambas as situações e, quando vêm à tona, chegam como este Judas e o Messias Negro (2020).

A força de uma história pode ser poderosa, mas a luta de uma raça é histórica. Com essa afirmação, o longa dirigido por Shaka King traz ao espectador a oportunidade de conhecer o lendário Fred Hampton (Daniel Kaluuya), líder dos Panteras Negras e peça fundamental para a luta que mudou a história não só nos Estados Unidos, como também em outros países.

Com isso, o poder de um líder é a essência do filme, mas as suas atitudes é o que o tornaram o tipo de pessoa adorada e odiada em mesma escala. Pois, enquanto Pantera Negra, Fred mudou o olhar do mundo e dos próprios colegas ao transformar uma luta revolucionária em um grande diálogo sobre a necessidade de ser ouvido.

Por outro lado, a conservadora sociedade norte-americana o vilanizou de todas as formas, elevando-o como mártir para muitos, e bandido para outros tantos. Isso porque Fred trazia, em seu discurso, palavras sobre igualdade, sobre ser escutado de qualquer forma a qualquer custo. Sobre, enfim, fazer a diferença na injusta sociedade pela qual tantos negros foram mortos e estigmatizados.

Reprodução/Warner Bros.

O poder de uma história sobre lutas ganhas e perdidas emociona

Acompanhar a luta de Fred Hampton e dos Panteras Negras seria uma viagem no tempo com teor quase documental, se não fosse a ameaça invisível por traz de Bill O´Neal (Lakeith Stanfield), infiltrado no grupo como ouvinte para vazar informações à polícia, que pretende finalmente acabar com a ameaça de Fred para o status quo social.

Porém, o envolvimento de Bill e o acompanhamento dos Panteras diz muito sobre o ponto de vista do diretor, que também assina o roteiro, ao lado de Will Berson, ao não tornar o grupo revolucionário pintado por uma única cor. Ao contrário: aqui as nuances, falhas e defesas dos Panteras é colocada à tela, o que torna a experiência muito mais rica de ser acompanhada.

Desta forma, a alma do filme está na luta dos Panteras Negras, e não nos personagens, mas é claro que o destaque fica por conta do embate ideológico e silencioso entre Fred e Bill, cada qual defendendo suas razões, cada qual de um lado da polarização, algo infelizmente mais atual do que nunca. O resultado é catastrófico – também visto hoje em dia.

Reprodução/Warner Bros.

A força do elenco, sobretudo de Kaluuya, é magnética e prende o espectador

Dentro deste “Judas e o Messias Negro” há dois protagonistas: Fred é a balança que pende para as mudanças sociais através de seu discurso abrasivo e de suas atitudes calculadas. Bill é o representante da sociedade que, lapidada e açoitada desde sempre, não vê os efeitos a curto prazo, e ignora qualquer informação que vá além disso.

Assim, Daniel Kaluuya é a alma do filme, cuja interpretação merece destaque não só pela coragem em trazer uma versão bastante verossimilhante, mas também repleta de energia, algo que marcou a curta vida de Hampton, assassinado aos 21 anos. Por sua vez, Lakeith é o contraponto ideal, e a expressividade de seu olhar também se encaixa à verborragia fabulosa de Kaluuya, destacando-o como o responsável pelo desfecho trágico desta história.

Contudo, é Shaka King, com suas duas mãos divididas entre a direção e o roteiro, o verdadeiro mestre aqui. Ele conduz a história de maneira ascendente, criando o alarme necessário na mente do espectador, cujo finalização não é nenhum segredo. Ainda assim, o cineasta dá sangue e calor aos personagens e à alma da luta aqui representada de tal forma que é difícil desassociar uma coisa da outra.

Reprodução/Warner Bros.

Judas e o Messias Negro é necessário e atemporal

Com o talento de King, Kaluuya e Stanfield, é claro que este Judas e o Messias Negro é necessário para toda e qualquer pessoa que vive fora de uma bolha. Ele representa o empoderamento no cinema, com histórias reais feitas por profissionais que sabem contá-las com propriedade. E o resultado, como todo bom filme, é universal.

Mas, muito mais do que narrativamente belo, este longa é tecnicamente impecável, algo que se comprova na direção de fotografia de Sean Bobbitt, cuja criação de cenas e ângulos tornam o espectador dentro daquela história. Triste constatar, portanto, que o roteiro traga as consequências da energia vital de Hampton a uma sociedade sempre despreparada para um mundo justo.

Por sua vez, a trilha sonora de Craig Harris e Mark Isham é cadenciada pelo ritmo acelerado de cada arco desta história, e faz completa diferença ao manter a dramaticidade em alta durante todo o filme, sem jamais soar capenga ou desproporcional. Ela casa com o filme, assim como a belíssima canção de H.E.R., “Fight For You”.

Enérgico, magnético e necessário, Judas e o Messias Negro merece ser conferido na maior tela possível.