Crítica | Imperdoável

Denis Le Senechal Klimiuc  - 21 de janeiro 2022 ás 09h56

Em uma cidade qualquer dos Estados Unidos, um crime chocou a população local: o xerife foi morto, com tiro de espingarda, pela jovem que se recusava a deixar a casa. Na mesma cidade, 20 anos depois, outra jovem sofre um acidente de carro porque teve um apagão enquanto dirigia, e vai parar no hospital no mesmo dia em que a mulher é libertada de sua pena, por bom comportamento. Essa é a história de Ruth Slater (Sandra Bullock) em Imperdoável (2021), filme de Nora Fingscheidt para a Netflix.

O dia da liberdade de Ruth não foi marcado por festas, e tampouco alívio. Sozinha no mundo, acompanhada de seu agente de condicional, Vincent (Rob Morgan), ela precisa de um emprego e, seguindo todas as regras ao seu atual estado de soltura, basicamente manter-se distante de tudo e todos, e de qualquer problema. Para ela, que ficou 20 anos calada sobre o que aconteceu, isso não é nenhum obstáculo, porém, tudo o que Ruth quer saber é de sua irmã, a qual protegia no fatídico dia em que a vida do xerife foi tirada.

Ao conseguir dois empregos, manter-se em silêncio e seguir com sua vida, a rotina da protagonista não foi deixada em paz, pois, ainda que esteja vivendo sua segunda chance, há a sede por vingança dos filhos do xerife morto, agora adultos, que jamais aceitaram a despedida brutal cuja culpa foi direcionada à Ruth. Ou seja, Imperdoável é uma história de redenção, e cabe ao espectador comprar o carisma de Sandra Bullock ou não para embarcar na jornada de sua sofrida protagonista.

Reprodução/Netflix

O ir e vir para recomeçar

Enquanto Ruth busca apenas sobreviver, grande parte de sua iniciativa quer saber mais sobre sua irmã, Katherine (Aisling Franciosi), que hoje vive com os pais adotivos, Michael (Richard Thomas) e Rachel (Linda Emond) e a irmã, Emily (Emma Nelson). É Katherine quem sofreu o acidente de carro, pois, com a fase adulta chegando, está sofrendo com lampejos de memórias de sua infância. Desde o dia em que o xerife foi morto, ela não se lembra de absolutamente nada; sequer que tem uma irmã mais velha. Com essa confusão, a vida de Ruth para retomar o contato com a irmã fica bem mais difícil.

Com dois empregos conquistados, Ruth também consegue contato com um poderoso advogado, John (Vincent D’Onofrio), cuja família está vivendo na casa que outrora a protagonista viveu com sua irmã. Sua esposa, Liz (Viola Davis), não aceita de forma nenhuma que uma condenada sequer chegue perto de seus filhos, o que faz com que John fique na corda bamba, mas consiga o contato com a família de Katherine para que Ruth possa se explicar. É claro que, em um drama sofrido como este, as coisas não funcionam nada bem para a mulher em busca de redenção.

Reprodução/Netflix

A verdade está lá fora

Em nenhum momento, Ruth consegue se expressar como deveria. Em um jogo de gato e rato estabelecido entre ela e sua vida social, não existe perdão para a mulher “assassina de policial”, título que ganha, sempre a socos e pontapés, toda vez que alguém descobre o motivo de sua pena. Assim, o silêncio é justificado, assim como o maxilar proeminente, resultado de um embate físico malsucedido, e o olhar sempre vazio de alegria ou qualquer outro tipo de energia positiva.

Aos poucos, porém, a constante tentativa de Ruth de apenas ver sua irmã é explicada pela enorme força de vontade da protagonista, que não se importa em viver à base de sofrimento, desde que tenha consciência de que a mais nova está bem. Com roteiro de Peter Craig, Hillary Seitz e Courtenay Miles, Imperdoável se apoia na série de TV homônima de Sally Wainwright. Porém, aqui o resultado acaba sendo atrapalhado pela falta de espaço dado à personagem, além de seus irritantes flashbacks, para desenvolver sua reentrada na comunidade através do emprego.

Com isso, o filme acaba se pautando sob dois aspectos: o primeiro é a reinserção de Ruth em empregos que sequer podem sonhar com o fato de ter cumprido pena. O segundo, por sua vez, é o que encontre menor desenvolvimento, que é o iminente reencontro de Ruth com sua irmã. Infelizmente, então, isso ocorre em um desfecho bastante insatisfatório, com uma reviravolta que acende o gatilho emocional do espectador, ao mesmo tempo em que tudo parece ser levado às pressas para o fim.

Reprodução/Netflix

Dor e raiva dominam a tela em Imperdoável

Há uma cena, na qual a carga emocional de Sandra Bullock é altíssima, que funcionaria perfeitamente caso o roteiro não fosse preguiçoso a ponto do que faz a seguir. Em seu segundo encontro com Liz, à procura de seu advogado, Ruth mal tem tempo de se justificar ao aparecer em frente à casa na qual viveu, e que hoje tem outra família morando. É a sua explosão que diz o que verdadeiramente aconteceu na cena-chave do filme, e é a compreensão de Liz em poucos segundos que dá ao espectador o nó na garganta do que toda aquela redenção significa.

Porém, ainda que Bullock esteja esforçada e Davis não precise de muito para se comunicar com os olhos, é uma pena que tudo tenha acontecido de forma tão superficial naquele momento. A próxima atitude de Liz é incoerente com o restante de sua personagem, e o que acontece com Ruth é mais próximo de um filme de ação de Liam Neeson do que do carregado drama construído até então. É aqui, portanto, que o filme desanda, e perde pontos justamente por não respeitar o espectador como havia feito.

Então, ainda que bastante irregular, Imperdoável é um bom drama, e sua história é forte o suficiente para se provar como algo interessante para o espectador. Vale a pena, mas nem tanto.