Crítica | Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (sem spoilers)

Denis Le Senechal Klimiuc  - 17 de dezembro 2021 ás 11h00

Existe um termo recente, que influenciadores e jornalistas contemporâneos traçaram para uma obra como esta: filme-evento. Isso significa que o cinema blockbuster muda seus parâmetros a partir desses momentos, e não é exagero dizer que este Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021) traz a mesma mudança de patamar que Tubarão (1975) fez em sua estreia – talvez sem a mesma excelência, é verdade, mas definitivamente um presente para o fã de cinema.

Aliás, este é um presente para o fã de HQs, de qualquer idade, porque a dimensão desta história ultrapassa o feito até então, algo que Sony e Marvel conseguiram combinar em uma estratégia brilhante de comunhão de direitos autorais, e, quando isso acontece, a indústria cinematográfica, e a cultura pop de forma geral, só têm a ganhar. Por isso, a partir de agora, permita-se mergulhar em todas as expectativas criadas, porque este é um filme para quem entrou na vibe.

Isso não significa, porém, que Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa seja o filme de maior qualidade, dentre os vinte e tantos do MCU. O cargo ainda fica na batalha entre Vingadores: Guerra Infinita (2018)e Vingadores: Ultimato (2019). Mas, é possível afirmar que a comparação não é justa, porque aqueles filmes abriram todas as possibilidades aqui encontradas, e talharam caminhos mais difíceis, com muito mais personagens e grandiosidade em suas dimensões.

Reprodução/Sony

O lado fã de Kevin Feige veio à tona

Mas, dentro de todas as dezenas de personagens trazidos à tona até hoje, em tudo o que a Marvel ganhou como adaptação cinematográfica, dificilmente existiria a audácia do conceito de multiverso trazido às telas se não fosse pela peça-chave: Kevin Feige. O todo-poderoso do selo, que está por trás de todo o projeto desde que Homem de Ferro (2008) ganhou as telas, não poupou o lado nerd de ninguém ao conseguir o acordo com a Sony, e agora chegou o ápice, e o clímax, desse acordo entre duas produtoras gigantes.

Então, abraçando o lado nerd de Kevin Feige, este filme começa exatamente onde o último do “teioso” terminou, com a revelação de Mysterio (Jake Gyllenhaal) sobre a identidade do Homem-Aranha: Peter Parker (Tom Holland). A partir de então, a vida do jovem é completamente atrapalhada, virada de cabeça para baixo, enquanto ele tenta recolher os cacos. Porém, o pior é saber que não só sua vida ficou assim, mas também a de sua namorada, MJ (Zendaya), seu melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), da tia May (Marisa Tomey) e de Happy (Jon Favreau), quem os acolhe.

Por isso, inconformado com algumas das consequências, principalmente em decorrência do julgamento público, Peter é intimado a depor, em uma tentativa do FBI de incriminá-lo. Mas, acima de tudo, ele acaba perdendo a sua identidade como cidadão, pois já não pode ir e vir anonimamente, sobretudo após Mysterio criar poderosas fake news a respeito da vilania de Parker.

Reprodução/Sony
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Por que Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa é o melhor filme do herói?

Em uma tentativa desesperada de resgatar sua vida pessoal, e poder ser o bom e velho “amigo da vizinhança”, Peter pede ajuda ao Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch), que o auxilia com um feitiço. Porém, é claro que a união dos dois personagens no mesmo ambiente não dá certo, e o tiro sai pela culatra. Ainda que tentasse segurar os danos, Doutor Estranho não conseguiu conter todos, e nada menos que cinco vilões aparecem, vindos de outros universos: Homem-Areia (Thomas Haden Church), Lagarto (Rhys Ifans), Electro (Jamie Foxx), Doutor Octopus (Alfred Molina) e o Duende Verde (Willem Dafoe).

A mistura de tantos universos deixa Peter e todo o grupo confuso, o que também acontece com os próprios vilões, que não entendem suas funções nesse novo universo. Porém, com um gigantesco arco para abraçar os 148 minutos de tela, Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa é, definitivamente, o melhor filme desse super-herói. Não se trata de qualidade narrativa, de esmero técnico e de quaisquer outros pontos que interfiram na visão crítica de quem assiste ao filme. É uma questão de lógica: ele faz o que nenhum outro filme de super-herói conseguiu fazer.

Assim, vale lembrar que, à visão de Kevin Feige, esta é uma experiência de extremo respeito por aqueles que cresceram lendo HQs do Homem-Aranha. E, dentro de um mundo no qual ser blockbuster já não é nada de mais, o novo patamar alcançado definitivamente fará pelo menos três gerações vibrarem com a sessão na telona.

Reprodução/Sony

Memorável, divertido e imersivo

Com tempo de tela o suficiente para provar seu talento dramático, além da já comprovada veia cômica e de ação, Tom Holland não solta em momento algum o poder de sua teia, com o perdão do trocadilho. Com isso, o ator diz a que veio e prova-se como a figura que merecidamente ocupa o atual posto do super-herói mais amado da cultura pop. Além disso, o diretor Jon Watts permite que vilões como Duende Verde, Octopus e Electro se desenvolvam além do que o público já conhece, o que infelizmente não acontece com o Homem-Areia e com o Lagarto.

Por outro lado, algumas soluções do roteiro mostram-se conectadas apenas pelo show, e não pela lógica dentro do que o próprio filme apresenta. Há uma cena, por exemplo, na qual curiosamente há grande alarde para o que vai acontecer ali, e as consequências são anunciadas como catastróficas, mas, neste momento, nenhuma autoridade ou figura da imprensa vai em busca do que está acontecendo, mesmo que tudo passe no tempo de uma noite inteira.

Mas, quer saber? Diante da escala gigantesca que este Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa apresenta, e de tudo o que ele oferece a seu público, é um mero detalhe diante de uma memorável, divertida e com certeza imersiva experiência. Dentro de toda a proposta do que é multiverso, que ainda engatinha nos filmes da Marvel, se estas possibilidades não são suficientes, olha, o lado nerd de cada um precisa preparar o coração, porque ele quase para aqui.