Crítica | Gavião Arqueiro

Denis Le Senechal Klimiuc  - 31 de dezembro 2021 ás 12h00

Desde que Clint Barton (Jeremy Renner) apareceu pela primeira vez, em uma ponta em Thor (2011), seu arco dramático se escondia por trás dos grandiosos planos de Kevin Feige para o seu Universo Cinematográfico Marvel. Ninguém tinha ideia de que aquele quase figurante ganharia uma série só sua, no Disney+, com direito a sidekick talentosa e participação especial de algumas figuras do mesmo universo. Porém, em Gavião Arqueiro (2021), é possível encontrar muito mais do que esse liquidificador típico da Marvel.

Aqui, Clint Barton está apenas sobrevivendo. Depois dos acontecimentos de Vingadores: Ultimato (2019), ele ainda está em processo de recuperação com tudo o que viveu, mas o grande luto de sua vida, até então, é a partida de Natasha (Scarlett Johansson), o que o deixou sem esperança com outras batalhas que porventura pudessem acontecer. Assim, o vingador passa seus dias atuais entre uma missão e outra, e é quando ele está em Nova York que sua vida muda de cabeça para baixo.

Ali, na Big Apple, existe uma pessoa que o admira desde a infância, quando perdeu o pai na famosa e trágica batalha passada em Vingadores (2012). Desde então, Kate Bishop (Hailee Steinfeld) treinou arco e flecha, e se tornou uma adolescente audaciosa, ainda que não tão segura de seus atos. Com isso, seu encontro com Clint parece coisa do destino, ou melhor, coisa de HQ. A partir do reconhecimento de um ao outro, a série com honestos seis episódios vai levar o espectador a um arco de descobertas, é claro, mas sobretudo de dores e cicatrizações emocionais.

Reprodução/Disney

O arco do arqueiro

É final de ano nesta temporada de Gavião Arqueiro, e Clint está distante de sua família. Com a promessa de que passará pelo menos o dia 25 de dezembro com a esposa, Laura (Linda Cardellini) e os três filhos, o herói se esgueira por Nova York para recuperar um antigo Rolex, cujas informações nele contidas são essenciais para que os resultados levados à S.H.I.E.L.D. sejam concretos. Porém, no meio de seu caminho, Kate surge como uma atrapalhada sidekick, o que acaba funcionando muito bem, tendo em vista o talento a ser descoberto e moldado naquela competitiva garota.

Acostumado a agir sozinho, e ainda vivendo seu luto da grande parceira de batalhas de sua vida, Clint resiste ao máximo, mas acaba aceitando a ajuda da nova parceira, pois ela traz uma força a mais justamente no momento em que ele não a encontra. E é sobre isso, em boa parte de seu arco, que se trata esta temporada. Sobre continuar a seguir com a própria vida, mesmo após perder entes essenciais. Nada mais justo, e atual, do que ser lançada em meio a tudo o que está acontecendo no mundo.

Reprodução/Disney
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A dupla dinâmica se forma

Enquanto precisam lutar contra vilões muitas vezes invisíveis, Clint e Kate acabam se envolvendo em uma trama que leva o protagonista diretamente ao codinome Ronin. Quando assumiu o manto e estraçalhou bandidos (ou nem sempre) de todos os cantos do mundo, como um gesto de fúria intensa após o blip, ou melhor, os cinco anos entre o estalo de Thanos (Josh Brolin) e a salvação do universo pelo Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o então anti-herói pouco se importou para as consequências de seus atos de extrema violência. Porém, agora ele precisa lidar com uma espiã de alto nível, Maya Lopez (Alaqua Cox), que busca vingança pela morte de seu pai pelo Ronin.

Porém, o que realmente aconteceu é revelado no segundo ato da série, e isso pode surpreender o espectador, pois o retorno de Yelena Belova (Florence Pugh), irmã de Natasha, marca boa parte do arco principal, e o que acontece é a formação de um desfecho do tipo “ou tudo ou nada”, no meio de Nova York. Assim, a dupla dinâmica formada por Clint e Kate conta, ainda, com as descobertas da jovem em relação à própria mãe, Eleanor (Vera Farmiga) e com a chegada de um personagem que marcou os quadrinhos e outras produções audiovisuais da Marvel, mas cuja importância aqui é grande o suficiente para servir como importante easter egg.

Reprodução/Disney

O futuro do Gavião Arqueiro

Contudo, além do grande arco sobre o luto, outro fator importante desta série é a sua força em trazer uma discussão mais profunda sobre as cicatrizes da vida. Ainda que pareça algo genérico, a experiência trará ao espectador a exatidão do que isso significa. Porém, é possível refletir sobre três arcos que levam a essas conclusões: Maya e a sua descoberta e busca incessante por vingança; Yelena e sua descoberta e busca incessante por vingança; e como Clint precisa lidar com isso, muitas vezes como saco de pancada, para fazer com que sua dor seja a resposta que elas procuram.

Mas, ainda que todas as intenções sejam as melhores, é possível se deparar com pelo menos dois episódios excessivamente estendidos, dentro dos quais os acontecimentos poderiam ser resumidos em poucos minutos, como é o caso do grupo que se forma a partir de uma convenção de amantes de batalhas épicas. Por sua vez, a participação de Vera Farmiga é quase que ignorada, e ela se torna apenas uma coadjuvante de luxo – quando as relações dela com Kate e até mesmo com Jack Duquesne (Tony Dalton) são tratadas como nada além do que clichês.

Felizmente, a experiência de Gavião Arqueiro é boa o suficiente para que a representatividade, por tanto tempo prometida pela Marvel, esteja dentro de todo o escopo, e ela é feita de forma orgânica. Além disso, Jeremy Renner e Hailee Steinfeld são bons o suficiente para tornar a torcida por eles elevada, o que os confere como a ligação ideal do que são os vingadores clássicos com o futuro do grupo de super-heróis mais famoso do universo. Uma flechada em cheio.