Crítica | Falcão e o Soldado Invernal

Denis Le Senechal Klimiuc  - 21 de setembro 2021 ás 12h00

O Universo Cinematográfico da Marvel, ou MCU, é uma das construções mais bem azeitadas pela Disney, desde que esta comprou os estúdios Marvel e o transformou em uma teia cada vez mais rica em detalhes, cujo mérito, segundo todos os apontamentos, é de Kevin Feige. Por isso, a expectativa pela série Falcão e o Soldado Invernal (2021) era alta, mas felizmente foi completamente correspondida.

Aqui, os personagens Falcão/Sam (Anthony Mackie) e Soldado Invernal/Bucky Barnes (Sebastian Stan), bastante conhecidos dos filmes de super-heróis, ganham a oportunidade de esmiuçar suas respectivas personalidades com o tempo que a TV permite. Em consequência, nada mais justo que dizer que, com ambos os atores agarrando a oportunidade, a necessidade de uma série se fez justificada pelas tramas de cada um.

Assim, enquanto Bucky precisa lidar com os fantasmas de seu longo passado, cuja maior prova é o fato de ele aceitar estar em terapia – ou se ver obrigado a tal, pois fazia parte de seu acordo para manter-se livre.  Por sua vez, Sam tenta conviver com o mundo pós-Blip, nome dado às consequências do estado de Thanos (Josh Brolin), quando bilhões de pessoas ficaram fora da Terra por 5 anos e, graças aos Vingadores, voltaram às suas vidas.

Mas as graças não foram tão bem recebidas, e o mundo enfrenta uma crise que se estende há alguns anos, pois, enquanto precisou lidar com a perda de tanta gente, quando todos retornaram entrou em um colapso social, econômico, político e ambiental. E, apesar de ter feito parte da equipe que salvou o universo, Sam não consegue sequer crédito para um empréstimo no banco de sua cidade.

Reprodução/Disney

A série traz um ponto de vista bastante particular sobre cada um de seus protagonistas

Enquanto ambos os protagonistas desta série precisam aceitar seus respectivos destinos, e conviver com a sombra enorme deixada pelo Capitão América (Chris Evans), o governo dos Estados Unidos aceitou a rejeição de Sam ao escudo dando-o a um novo super-herói, cuja função também como Capitão América aqui, na pele de John Walker (Wyatt Russell).

Porém, muito mais do que um símbolo, como foi bem apresentado em Capitão América: O Primeiro Vingador (2011), Capitão América 2: O Soldado Invernal (2014) e Capitão América: Guerra Civil (2016), o super-herói líder da Marvel provou-se um ser humano falho, mas bravo, guerreiro, resiliente e de coração extremamente valioso, mesmo após todos os questionamentos sofridos em sua trilogia.

Portanto, a figura do novo Capitão América traz uma série de questionamentos políticos ao espectador, pois representa, mais uma vez, apenas outra arma publicitária do governo dos Estados Unidos, mesmo que se reflita em consequências desastrosas – e isso a série esmiúça com competência, pois, mesmo à sombra de quem sucedeu, John Walker consegue trazer tonalidade ao personagem, ganhando as características que o gênero Guerra explorou bem no cinema: as consequências vividas pelos veteranos que retornam ao país.

Desta forma, enquanto Falcão e Soldado Invernal precisam agir sozinhos, de forma quase anônima, a peça publicitária de desvanece e o espectador acompanha sua inutilidade à medida em que um grupo considerado terrorista ganha voz. Assim, os protagonistas precisam não apenas enfrentar esse novo inimigo com embates físicos, o que acontece em boas cenas de ação, mas, como responsáveis pelo legado de Steve Rogers, eles precisam dialogar, quebrar barreiras ideológicas e tornar a luta humanizada.

Reprodução/Disney

Como Falcão e o Soldado Invernal conseguiu ser um elo entre o universo cinematográfico e as HQs

Apesar da pegada de temática social, ainda assim Falcão e o Soldado Invernal traz diversas características que respeitam o legado dos Vingadores e vai muito além disso. Cria, portanto, desenvolvimento aos protagonistas aqui retratados, e ambos sofrem por não reconhecerem em si a força e o valor que Rogers, ou o antigo Capitão América, reconheceu neles. Sam e Bucky, portanto, são seres humanos falhos, e precisam lidar com isso para superar.

Por sua vez, há uma pegada de espionagem, e o grupo de libertadores de divisas territoriais, que acredita em um mundo sem fronteiras políticas e econômicas, acaba por se tornar a motivação ideal para que ambos os heróis passem pelo arco de transformações necessário. Desta forma, ambos buscam por redenção, ainda que não precisem, para continuar a carregar o escudo do Capitão América.

Enquanto isso, o espectador também acompanha o retorno de personagens que passaram pelo MCU, como o Barão Zemo (Daniel Brühl), Sharon Carter (Emily VanCamp) e Ayo (Florence Kasumba), os quais ganham encerramentos (ou não) de seus arcos dentro daquele universo. Para enriquecer ainda mais o leque de personagens bem desenvolvidos, além de John Walker, que ganha uma denominação atraente aos fãs da HQ, há a boa inserção de Karli (Erin Kellyman) e a intrigante participação de Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus).

Reprodução/Disney

Roteiro conciso evita quaisquer gorduras e excesso de pontas abertas em trama bem amarrada

Com todos os méritos de uma série muito bem desenvolvida e sem quase nenhuma gordura em seu roteiro, o qual foi escrito a dez mãos, esta obra criada por Malcolm Spellman para o Disney+, com a direção de Kari Skogland nos seis episódios, é uma ótima experiência ao fã do MCU e a quem curte obras de espionagem e conflitos em missões especiais. Desta forma, o roteiro fica com todo o mérito, pois sabe segurar o espectador, trazer nuances dos filmes e, ainda assim, apresentar novos e interessantes personagens.

Mas, mais do que toda a pompa que uma produção da Marvel e do Disney+ carrega, Falcão e o Soldado Invernal é tecnicamente impecável, sobretudo em sua fotografia, mérito de P.J. Dillon, que traz a luz necessária aos personagens e carrega, em diferentes jogos de sombra e cores, características do humor de cada um, assim como de suas respectivas mudanças e evoluções. No final da série, uma homenagem à altura do legado de Steve Rogers.

Aliás, o resultado desta empreitada é justamente o afago nos fãs dos diversos gêneros cinematográficos e televisivos, além de trazer, sim, a sensação de querer acompanhar mais daquele resultado. Mais uma vez, o Toque de Midas de Kevin Feige surtiu efeito, algo que o executivo da Marvel e da Disney faz desde 2008, um feito e tanto.