Crítica | Eternos

Denis Le Senechal Klimiuc  - 05 de novembro 2021 ás 12h00

A partir de agora, o cinema da Marvel pode ser taxado de muita coisa, menos superficial, e ele precisou, depois de tantos filmes e séries, de uma diretora como Chloé Zhao para trazer o direcionamento que vá além do que foi apresentado até então, apesar de haver flertes em Doutor Estranho (2016), Guardiões da Galáxia Volume 2 (2017), Capitã Marvel (2019) e Vingadores: Ultimato (2019). Tudo foi perfeitamente orquestrado para trazer o cinema pipoca com conteúdo – alguns mais, outros nem tanto -, mas o que Eternos (2021) consegue fazer está dentro do existencialismo humano.

Com isso, é o seguinte: com super-heróis extremamente poderosos, a essência do filme não está apenas em mostrar como lutas bem orquestradas podem ser interessantes, ainda que a computação gráfica atrapalhe aqui ou ali. Com duas horas e trinta e sete minutos de duração, este longa é o reinício de tudo, mas com o excelente background trazido pelo que foi feito até agora. E olha que o reinício é grande, porque aqui está a história de uma equipe que chegou à Terra há 7 mil anos.

A missão dos Eternos era a de manter a raça humana segura dos Deviantes, espécie alienígena que possui o formato bastante parecido ao de criaturas da mitologia grega, ainda que sejam furta-cor e compostos por tramas que se alongam para o ataque. Ao longo dos milênios, então, esse grupo manteve tudo devidamente pacífico. Ou melhor, como a missão era apenas a de manter os Deviantes afastados, eles não puderam interferir em guerras ou até mesmo ao ataque de Thanos (Josh Brolin) e sua Manopla do Infinito.

Crítica | Eternos
Reprodução/Disney

Quando os originais debandam pelo mundo

Por se tratar de um filme de origem, todos os heróis são devidamente apresentados, mas Zhao não se preocupa em criar ritmos frenéticos, mais comuns nos filmes da Marvel do que deveriam. Aqui, o espectador vai se deparar com a construção de uma equipe que estava desde o início da civilização, e que fez muito pelo desenvolvimento dos humanos até os dias de hoje. Ou seja, da Babilônia à Macedônia, das guerras santas à Bomba Atômica – cada capítulo tenebroso da história tem função narrativa e justifica as ações de um ou de outro.

Aliás, os tais Eternos e seus superpoderes metafísicos são: Sersi (Gemma Chan), cujo toque consegue transformar a matéria, seja em água ou em pássaros coloridos; Thena (Angelina Jolie) é a guerreira, cujas criações são sempre armas, como espadas, facas e afins, os quais ela sabe usar muito bem; Ajak (Salma Hayek) é a mais antiga, e líder do grupo, e o seu poder é a cura; Kingo (Kumail Nanjiani) é o divertido cujos objetos mágicos mais parecem ter saído de Dragon Ball; Sprite (Lia McHugh) consegue iludir tudo e todos, criando ou fazendo desaparecer praticamente tudo; Phastos (Brian Tyree Henry) é o responsável pela criação tecnológica; Makkari (Lauren Ridloff) tem velocidade hipersônica; Druig (Barry Keoghan) controla a mente; Gilgamesh (Don Lee) tem força muito além do normal, e cria punhos metafísicos também; e Ikaris (Richard Madden) é, basicamente, o Super-Homem da Marvel.

Agora que os Deviantes estão de volta, o grupo precisa entender qual é o final de sua missão na Terra, e a resposta de Arishem (David Kaye), espécie de deus suprassumo que os enviou à empreitada, não é bem o que eles esperavam. Com idas e vindas no tempo, o espectador poderá compreender gradativamente o verdadeiro significado do filme: algo que foi defendido em todos os momentos pelos filmes do selo, e que aqui encontra um patamar a mais, que é a existência humana como uma espécie caótica, sim, mas repleta de qualidades ímpares, como o amor e os sonhos. E, ainda que pareça excessivamente otimista, o filme encaixa a mensagem com sabedoria.

Crítica | Eternos
Reprodução/Disney

O elenco tem espaço para brilhar

Se você acha que vai encontrar Angelina Jolie no auge de sua forma física e carisma como a poderosa Thena, está certo. Mas, felizmente, o brilho está em todo o elenco, e cada qual tem importância para encontrar equilíbrio no jogo – acredite: eles vão precisar. Ainda assim, há merecido destaque para Gemma Chan e Richard Madden, os quais conseguem empregar uma espécie de manto divino e, ao mesmo tempo, o amor à condição humana, cada qual à sua maneira.

Desta forma, ao trazer o espectador para os dias atuais, os Eternos são questionados sobre os porquês de jamais terem interferido na matança inerente à humanidade, sobretudo ao estalar de dedos de Thanos. E a resposta é simples e objetiva, mas o embasamento sobre ela é aparente em todo o filme. Com isso, o roteiro de Zhao, Patrick Burleigh, Ryan Firpo e Kaz Firpo encontra tempo para apresentar detalhes sobre as personalidades daqueles heróis, o que dá espaço de sobra para que suas atitudes sejam embasadas.

Além disso, apesar da grande profundidade existencialista contida nos flashbacks, o filme também se preocupa em fazer parte do universo Marvel, e faz isso de duas formas: como o reinício da franquia, apresentando a magnitude do que está por vir, e seguindo o mesmo sendo de humor de tantos outros filmes, o que também é mérito do elenco, além do roteiro, que soube abraçar o coletivo e ter sua individualidade respeitada.

Crítica | Eternos
Reprodução/Disney

Mas o filme ganha crédito pelo que representa

Acima de todas as qualidades técnicas do longa, e de seus defeitos, como um segundo ato (meio do filme) cansativo e CGI muitas vezes sem textura ou peso, o que tira a suspensão de descrença do espectador por atrapalhar a experiência, existe algo que torna este Eternos realmente único: é a sua representatividade.

Chloé Zhao consegue reunir, na belíssima fotografia de Ben Davis, e bem acompanhada pela trilha muitas vezes discreta de Ramin Djawadi, o que significa um produto audiovisual feito para todos: os diferentes cantos do globo estão presentes, sim, mas é a formação de etnia, sexualidade, religiosa, física e emocional do elenco principal que abraça o suficiente para dar presença a muita gente que passará a se enxergar na telona. E isso faz toda a diferença, na prática, inclusive para abrir caminho para que outros longas do cinema pipoca façam o mesmo.

Portanto, Eternos é o tipo de filme que não vem para chamar a atenção por suas lutas e superpoderes, mas o faz; não vem para trazer brilho às celebridades de seu elenco, mas elas reluzem naturalmente. Vem, principalmente, para mostrar que o filmão pode ser divertido, reflexivo e trazer a arte em seus cantos mais discretos (aliás, o que é a direção de arte?!), e mostrar que a Marvel deixou a brincadeira para trás há muito tempo.