Crítica | Espíritos Obscuros

Martinho Neto  - 10 de fevereiro 2022 ás 18h07

É bastante comum encontrar exemplares de filmes com boas propostas ou premissas originais, mas que acabam se perdendo na execução, pelos mais diversos motivos. Às vezes, o potencial das histórias não é bem explorado, talvez os realizadores não tenham sido capazes de sintetizar as ideias em uma narrativa única ou, ainda, o orçamento da produção fosse muito limitado. O ponto é: grandes obras não podem ter apenas um aspecto extraordinário enquanto o restante do seu escopo não funciona bem. É preciso um mínimo de coesão e eficiência em todas as etapas na construção de um longa e, infelizmente, esta é a grande dor de Espíritos Obscuros.

Baseado no conto “The Quiet Boy”, de Nick Antosca, o longa aborda uma história de horror e suspense fora do que vem se tornando cada vez mais comum, o “terror psicológico”. Vamos conhecendo aos poucos uma cidade isolada do estado de Oregon, onde a professora do ensino fundamental, Julia (Keri Russell), e seu irmão e xerife do local, Paul (Jesse Plemons), acabam se envolvendo com um aluno enigmático, Lucas (Jeremy T. Thomas). Os segredos do jovem envolvendo seus familiares vão levar os irmãos a encontrar não só uma terrível esfera de abuso doméstico, como também uma aterrorizante criatura lendária que surge diante deles.

Reprodução/Searchlight Pictures

Embora o nome de destaque dentre todos que participaram do filme seja o do mexicano Guillermo del Toro como produtor, Espíritos Obscuros trouxe nomes de qualidade nas principais posições criativas. O diretor Scott Cooper não tem tantos longas na carreira, mas sabe trabalhar com grandes estrelas, tendo inclusive comandado Coração Louco (2009), vencedor de dois Oscars, sendo um coroando a grande atuação de Jeff Bridges. Já para os papéis principais, Russell, conhecida por protagonizar a série Felicity, é quem faz a narrativa avançar, tendo um retrospecto de abusos paralelo ao de Lucas; enquanto Plemons, que normalmente atua como um coadjuvante de extrema qualidade em diversas produções, aqui mostra ser muito capaz de se sustentar como protagonista quando o personagem condiz com sua personalidade.

Não por acaso, é a atuação dos dois que segura grande parte das várias cenas de diálogo, devido a um roteiro que sofre por insistir demais em uma mesma mensagem, por vezes com frases prontas e sem inspiração. Contudo, é no silêncio que o filme mostra mais qualidade. Além de contribuir para a aura densa e fria da cidade, o diretor consegue tirar uma ótima atuação de Jeremy Thomas, afinal, é a partir do comportamento anormal do garoto que a trama se desenvolve. O jovem Lucas tem um histórico de abuso infantil cujos sinais logo chamam a atenção de Julia, e então descobrimos que este interesse — que acaba se transformando em obsessão — sintoniza diretamente com o passado da personagem e seu irmão, também vítimas de abuso.

Reprodução/Searchlight Pictures

Apesar disso, a grande temática de Espíritos Obscuros é ser um filme de monstro — o que não é spoiler, uma vez que o próprio marketing do longa divulgou isso à exaustão. E ao assistir, é possível entender por que a revelação prévia não traz prejuízos à obra. O terror em questão não consiste na descoberta do perigo ou apenas nas metáforas propostas pelo roteiro, mas sim na própria utilização da figura monstruosa do Wendigo no decorrer da narrativa. É um resgate daquele horror inominável do qual não é possível lutar contra (ao menos não facilmente), em que somos levados a um estado de melancolia por simplesmente ter que aceitar que é impossível vencê-lo — um exemplo recente é Um Lugar Silencioso (2018), que, apesar de toda a premissa envolvendo o som, é, antes de tudo, um filme de monstros invencíveis.

O tal Wendigo é conhecido como um espírito maligno disforme presente na mitologia das tribos indígenas norte-americanas. A lenda conta que ele vive nas frias florestas do norte e é amplamente conhecido como uma criatura destrutiva e canibalista associada ao inverno, ao frio e à fome. O mito não foi escolhido por acaso, uma vez que o longa também tenta inserir as temáticas de preservação ambiental e manutenção da cultura indígena dos Estados Unidos. Contudo, o roteiro não apenas se mantém muito na superfície dos problemas ao abordar esses temas, como o próprio diretor não sabe muito bem como inseri-los de forma satisfatória. A história do Wendigo, por exemplo, é contada por um nativo-americano em uma cena que existe em praticamente toda produção onde a criatividade é curta: os protagonistas ao redor de uma mesa com uma pessoa entendida do assunto explicando parte por parte da história e, claro, fazendo todas as ligações com o que foi mostrado até então. O descaso é tanto que este personagem não é utilizado em mais nada por toda a obra, de forma que é impossível defender a cultura ameríndia quando o próprio filme não o faz.

Reprodução/Searchlight Pictures

Apesar da ótima caracterização do monstro, Espíritos Obscuros sofre um claro problema de foco. Em um filme lento, soturno e de curta duração, é preciso saber exatamente o que se deseja contar e, principalmente, como fazer isso. Caso contrário, temos exatamente o que é mostrado aqui: um lago raso de temáticas interessantes, mas com pouco ou nenhum aprofundamento. Fica a sensação de que o longa pouco acrescenta ao espectador e dificilmente será lembrado por outra coisa além do design do Wendigo — que certamente deve ter tido a influência de del Toro.